Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano IX

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A Bebê de Chita é uma marca infantil,mas também um manifesto a favor da vida livre de rótulos

A família reunida com a Kombi: Felipe com Iwó José e Thaísa com Imole

A família reunida com a Kombi: Felipe com Iwó José e Thaísa com Imole.

 Tornar-se mãe e empreendedora foram processos quase simultâneos na vida de Thaísa Barros, de 33 anos. As facetas se misturam tanto que foi em uma noite, amamentando, que a mãe de Imole, de 2 anos, e Iwó José, de 9 meses, pariu a ideia da Bebê de Chita, um projeto que nasceu como marca de roupas infantis e que ela define hoje como “espaço de acolhimento puerpério”, ou seja, para mães nos primeiros meses após o parto. Agora, ela quer ganhar o mundo. Ao lado do marido, Felipe Barros, a empreendedora fluminense pegou a estrada com os filhos a bordo de uma Kombi. Sem destino definido. Thaísa acredita na multipotencialidade, e por isso não tem receio de, ao mesmo tempo, cuidar de duas crianças, empreender e ser uma nômade digital. O conceito entende que é possível exercer suas habilidades e talentos sem se restringir a uma única cidade. Para Thaísa, o conceito é especialmente libertador também no que diz respeito à atuação profissional: ela acredita que não é preciso ter apenas uma ocupação ou profissão. E isso se aplica na Bebê de Chita que, além de ser uma marca de moda bebê, também tem em seu guarda-chuva o coaching de mães. Ela fala sobre a decisão de, ao lado do marido e parceiro, viver todas as suas potencialidades: “Em vez de ser só uma coisa, mas a gente descobriu que pode ser o que quiser. Temos vários propósitos, que na verdade são um só: ser e o melhor e deixar o melhor da gente” Com dois filhos pequenos, Thaísa já passou muitas noites mal dormidas amamentando e pensando em que rumos dar para a própria vida. Numa delas, lembrou-se de quando pediu a uma amiga costureira para fazer roupas para o filho mais velho, porque não se identificava com o que via nas lojas tradicionais. Ela chegou a sonhar com um “fashion truck”, sem saber ainda que o pai tinha uma kombi parada na garagem. “Este período, de gravidez e de pós-parto, quando a gente se permite, é um mergulho nas profundezas da nossa potência criadora. Quer potencial mais criador do que gerar outra vida?”, diz.

Thaísa escolheu viver a maternidade e todas as suas potencialidades ao mesmo tempo. Até coach de mães ela virou.

Natural de Nilópolis, na Baixada Fluminense, e formada em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Espírito Santo, ela sonhava com a academia. Após a graduação, Thaísa decidiu mudar-se para Salvador, onde pretendia cursar o mestrado. Não passou, mas a experiência mudaria sua vida. Curando-se da perda precoce da mãe, em 2012, ela conheceria sua futura sogra, Nizete, em pleno Carnaval. No último dia de viagem, ao visitar a amiga carioca que conhecera na folia baiana e encontrou Felipe, o filho dela. Acabou não voltando.

No fim de 2013, os dois se casaram em uma cerimônia diferente, com resgate da cultura africana, que acabou sendo notícia em grandes jornais da cidade. Em janeiro de 2014, já grávida de Imole, Thaísa e Felipe decidiram experimentar morar em Arembepe (BA). Enquanto ele terminava a dissertação do mestrado em Políticas Públicas e Formação Humana na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), Thaísa teve os primeiros lampejos de empreendedorismo.

“Vi que podia ajudar outros casais a fazerem seu casamento do jeito que quisessem. Nasceu então a Casamentos Afro Consultoria, na Bahia. A ideia era ajudar a montar o casamento, mostrando os fornecedores capacitados”, conta ela. Mas, por inexperiência deles e dificuldades em encontrar parceiros como haviam imaginado, o negócio não prosperou. Mas eles já estavam no fluxo criador e montaram, em seguida, uma feira de afroempreendedores com workshops, chamada Igbeyawo (que significa união, casamento, em yorubá). Eles chegaram a rodar o projeto na Bahia e no Rio de Janeiro.

Foi quando descobriram a segunda gravidez, em 2015. A esta altura Felipe, que é graduado em Educação Física e paratleta, foi convidado pelo clube Vasco da Gama para entrar no time de Futebol de 7. A família, então, voltou ao Rio e a Igbeyawo passou a atuar em sociedade com uma empresa na Bahia no evento “Casamento Fora da Caixa”, voltado para cerimônias diferentes. Thaísa seguiu tocando o negócio à distância mesmo. A certa altura, já aos sete meses de gestação, ela programava viajar a Salvador para um evento. “Eu estava com passagem comprada, mas a bolsa rompeu dois dias antes. Iwó José nasceu prematuro e fiquei internada durante 40 dias”, conta, e prossegue: “A veia da empreendedora foi para outro planeta. Ali, só havia a mãe vivendo um puerpério bem sombrio. Mas todo esse processo, até reconstruir dentro de mim, acabou fazendo surgir a ideia da Bebê de Chita”.

A Bebê de Chita, como o nome bem aponta, é um marca de produção artesanal que faz roupas para bebês e crianças de até 4 anos usando algodão e chita (escolhida por suas estampas coloridas e alegres). Thaísa concebeu e desenhou os 20 modelos disponíveis. Entre as peças — que custam de 40 a 150 reais — há calças saruel, batas, vestidos e bermudas. Tudo colorido e em estampas alinhadas com a moda infantil sem gênero.

As peças da Bebê de Chita não têm distinção de gênero e são vendidas online.

As peças da Bebê de Chita não têm distinção de gênero e são vendidas online.

Em seu primeiro ano de operação, a marca faturou 100 mil reais com vendas — online e em eventos, aos quais comparecem com sua Kombi. O bom desempenho do negócio não veio livre de problemas, e Thaísa descreve alguns deles. O primeiro é que, como ela não costura, teve de buscar uma profissional para fazer as peças que, mais à frente, assimilou seus produtos e abriu uma marca muito parecida e concorrente. Outro problema é o marketing digital, que ela vê como um gargalo: “Nosso orçamento ainda não permite um investimento forte em marketing digital. Queremos ser empreendedores digitais e fomos tentar aprender, mas ainda precisamos de um profissional capacitado”.

Para driblar a dificuldade de divulgação, eles perceberam que poderiam se aproximar mais de potenciais clientes criando pequenos eventos gratuitos e ao ar livre, como o Samba de Chita, uma roda de samba “para mamães, papais e bebês” que já teve três edições (em parques públicos do Rio de Janeiro, como a Quinta da Boa Vista) nas quais a empreendedora convida também outros empreendedores. Nesses encontros, Thaísa percebeu que havia uma demanda para o coaching materno, visto que há mães que, como ela, não têm uma figura materna a quem recorrer neste período tão delicado. Uma coisa puxa a outra e, assim, ela passaria também a explorar isso oferecendo o serviço de coach.

É MAIS BARATO VIVER ANDANDO DO QUE PARADO

Carinhosamente chamada de “cigana” pela avó, Thaísa conta que sempre sentiu um desejo latente de pegar a estrada. O marido, no entanto, era muito mais apegado à ideia de morar no Rio. Até que se deram conta que, apenas para colocar o filho mais velho na creche, teriam de desembolsar 2.400 reais por mês. A Bebê de Chita está crescendo, mas, em breve com dois filhos na creche o valor seria inviável. Thaísa buscou vagas de emprego e cogitou trabalhar em telemarketing. Até que, juntos, eles repensaram o modelo de vida e decidiram por uma opção ainda mais radical. Ele conta:

“Quando a gente colocou na ponta do lápis a questão da escola, vimos que é mais barato viver andando do que parado”

No início deste ano, foram a Minas Gerais fazer um curso em uma ecovila e lá conheceram um casal que vivia em um motorhome. Daí para frente, repensaram que educação gostariam de dar aos filhos e entenderam, baseados no pensamento do educador libertário Paulo Freire, que, neste momento, não se faz necessária a institucionalização do ensino, mas sim a presença dos pais. Eles bancaram a aposta e estão na estrada desde então. A princípio, o único plano é não dormir na Kombi, mas ficar períodos em ecovilas e compartilhar espaços com outras famílias em trânsito.

Felipe deixou de ser treinador para ser coaching esportivo e atleta, mantendo planos de voltar ao Rio duas vezes ao ano para a agenda de competições. A Bebê de Chita vai sendo tocada na Kombi e à distância. A base da produção das peças, agora, está na Bahia. Parte das peças será enviada para Thaísa vender nas cidades onde chegar, enquanto outra será comercializada pela sogra, no Rio de Janeiro. Os pedidos online serão escoados diretamente da Bahia, sempre com a supervisão de Thaísa. A ideia é que este ano a marca cresça ainda mais, principalmente online. Para dar conta de tudo, ainda mais vivendo na estrada, ela reconhece como é difícil parar tudo para se focar no negócio. E dá uma pista importante sobre mães empreendedoras:

“Não existe mãe empreendedora sem uma rede de apoio. Pode ser a creche, a mãe, a sogra, o marido. Mas é preciso entender que você está trabalhando”

Ela prossegue: “Se eu estivesse empregada no mercado formal, teria que deixar meus filhos com alguém. Empreendendo, eu vendo minha força de trabalho para mim mesma”. Para as pessoas que ainda se assustam com a ideia de uma mãe pegar a estrada com dois bebês, Thaísa tem uma reflexão na ponta da língua: “O que a gente precisa para viver? Criamos necessidades como se fossem absolutas. E não são. Viemos para este mundo para ter uma vida extraordinária. É preciso criar o caminho e a realidade que se quer viver.” É o que ela está fazendo.

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