Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XVI

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“A morte pela camisa que estamos usando” - Trabalho Escravo

RICHARD GREENWALD E MICHAEL HIRSCH

A morte de mais de 800 operários de uma fábrica de confecção instalada no Rana Plaza, em Bangladesh, que desabou no dia 24, é uma tragédia que coloca em foco os problemas generalizados existentes no setor global do vestuário. Mas será a faísca que finalmente produzirá as tão necessitadas reformas em âmbito global?

Depois de desastres como o de Rana ou o incêndio em outra fábrica de confecção – também em Bangladesh, em novembro –, a tendência é bancarmos o detetive e colocar a culpa em alguém, seja o proprietário do imóvel, a corrupção, as leis permissivas ou a fiscalização inexistente.

Artigos e artigos na imprensa concentraram-se em descobrir a prova definitiva, como se houvesse uma única causa – sem a qual os operários hoje estariam sãos e salvos. Ou então, a cobertura das tragédias é conduzida como se fossem desastres naturais, que despertam a compaixão pública até a atenção da sociedade voltar-se para o próximo incidente.

Sim, buscamos justiça. Mas no ímpeto de resolver o caso ou ajudar as vítimas nos recusamos a ver os verdadeiros culpados: a indústria global do vestuário e nós mesmos – pois somos cúmplices quando apoiamos ou ignoramos um sistema de comércio e terceirização do trabalho cuja finalidade é contornar regulamentos de todos os tipos, na busca do lucro máximo em detrimento das pessoas.

De acordo com Juliet Schor, professora de Sociologia do Boston College, o custo das roupas em dólares caiu 39% desde 1994.

Temos de nos perguntar até que ponto a nossa demanda por uma camiseta de US$ 5 e enormes descontos num jeans não são responsáveis por desastres como esses.

O que ocorreu em Rana foi comparado ao incêndio, em 1911, na fábrica Triangle Shirtwaist, em Nova York. Ambos os desastres ocorreram em fábricas de roupas e resultaram em muitas mortes (na Triangle, foram 146). O incêndio na fábrica de Nova York permaneceu na memória coletiva dos americanos e tornou-se um exemplo dos terríveis problemas de um país em fase de industrialização.

Lembramos do incêndio não em razão das mortes – uma vez que trabalhadores infelizmente morrem regularmente na indústria americana –, mas porque fomos forçados a confrontá-lo. Os trabalhadores do setor de confecção recusaram-se a retornar silenciosamente ao trabalho.

Seus protestos em massa e a cólera coletiva obrigaram os consumidores de classe média a encarar a própria culpa e juntos pleitearam mudanças políticas.

Com essas mudanças foram aprovados novos códigos de saúde e segurança, reformas nas leis trabalhistas e regulamentos modernos para uma indústria primitiva. Essas reformas iniciadas para os trabalhadores do setor de vestuário acabaram sendo adotadas para todos os trabalhadores em Nova York e fizeram do Estado um modelo para a nação.

O simples fato de tudo isso ter sido o resultado de trabalhadores exercendo seus direitos foi esquecido no relato da história da fábrica Triangle, ao passo que muita atenção é dada às portas trancadas com correntes ou às violações de códigos de edificações – que se tornaram um mito urbano e se desviam da verdade.

Naturalmente, não podemos ignorar a responsabilidade do proprietário da empresa ou do prédio – ou das autoridades locais. Mas se nos concentrarmos inteiramente neles vamos nos iludir em relação aos problemas de fato.

Em vários aspectos o setor do vestuário permanece inalterado desde 1911. Ele ainda é ferozmente competitivo, com margens mínimas. E ainda é dominado pelo sistema de terceirização.

Hoje as grandes lojas e marcas contratam a produção dos fabricantes porque elas não possuem meios próprios. Então, as empresas contratantes terceirizam o trabalho para outras, reduzindo um pouco suas margens.

A distância entre a marca e os que fabricam a roupa é grande e com frequência desconhecida, oculta nos diversos estágios do processo. E cada fase depende da capacidade de contratação de mão de obra cada vez mais barata para aumentar os lucros. As localizações dessas fábricas mudaram, mas o sistema permanece.

Nossas roupas vêm de locais como Rana onde, como em 1911, o operário médio é uma jovem trabalhando em condições terríveis por um salário de fome.

Logo após o incêndio na Triangle Shirtwaist, durante um funeral, a sindicalista Rose Schneiderman levantou-se e discursou para a multidão. Suas palavras deveriam nos sensibilizar ainda hoje. “Toda semana fico sabendo da morte prematura de uma das minhas colegas de trabalho. Anualmente milhares são mutiladas. Por que a vida de homens e mulheres é tão barata e a propriedade tão sagrada? Existem tantos de nós para uma vaga que pouco importa se 146 morreram queimados. Nos ofereceram alguns dólares para as mães, irmãos e irmãs desolados, como se fosse um donativo, a título de caridade. Mas cada vez que os trabalhadores protestam da única maneira que conhecem contra as condições de trabalho insuportáveis, a mão forte da lei é usada para nos pressionar vigorosamente.”

Rana deve ser tão importante para nós, no plano global, quanto o incêndio da Triangle. Deve nos forçar a acordar e, como consumidores, apoiar os trabalhadores que fabricam nossas roupas.

Temos a responsabilidade moral de exigir que as roupas de marcas que usamos não sejam costuradas com sangue. Se não fizermos nada e simplesmente esperarmos pela próxima tragédia, continuaremos culpados, como foi delatado por Rose Schneiderman em 1911.

PUBLICADO NO ESTADÃO

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Os trabalhadores do setor de confecção recusaram-se a retornar silenciosamente ao trabalho.

Em vários aspectos o setor do vestuário permanece inalterado desde 1911. Ele ainda é ferozmente competitivo, com margens mínimas. E ainda é dominado pelo sistema de terceirização.

Pois é amigo Romildo....Você acha que os grandes importadores nacionais (diga-se grandes magazines - e não irei citar nomes para não ser usado contra mim) estão preocupados com isso??? E os nossos governantes, será que estão, pois não tem feito nada para coibir a entrada de produtos com esse tipo de mão-de-obra.

Abraços!

Edson Machado

     Caro Edson, para os grandes importadores e vendedores o que interessa são os grandes lucros nem que para isso morra milhares de pessoas.

Pois é amigo Romildo......... e viva o capitalismo!?!?!? Vai morrer muito mais pessoas ainda, principalmente por enfarte, em relação aos empresários nacionais que tentam, de toda a forma, manter seus negócios frente à esta concorrência desleal, que já estamos de saco cheio de falar dela.

Abraços eu amigo!!!

Edson Machado

Edson,não são só os grandes magazines,hoje a coisa ficou tão depravada,que até as redes de lojas do Bras estão importando(e muito,mas muito mais do que voce imagina),outra coisa só pra lembrar,voce reparou quantos pequenos outlet estão sendo abertos para vender roupas com a marca Abercrombie e outras.da onde vem????

Poie é amigo Saad Bachir....a coisa está tão depravada (como Você mesmo disse) que até os fabricantes de produtos piratas estão levando suas produções para a Asia (Bangladesh, Vietnã, etc). Quem sabe estes outlet's que estão sendo abertos não estão sendo abastecidos com estas roupas, pois são idênticas às originais. Lembra dos tênis Nike piratas que estavam vindo da China no passado? Até que a Nike levou sua produção para lá.

Abraços e sucesso amigo!!!

Edson Machado 

Caros amigos participantes do Forum, não é apenas o segmento de vestuário que "escraviza" em nome de altos lucros para os grandes magazines em se importar se lá no início da cadeia tem gente comendo "poeira". O mesmo ocorre no setor de laticínios por exemplo, onde a produção de 1kg de ricota custa entre R$2,00 e R$ 3,50. Quanto pagamos? É o capitalismo, selvagem, inescrupuloso e cruel.

E cada fase depende da capacidade de contratação de mão de obra cada vez mais barata para aumentar os lucros. As localizações dessas fábricas mudaram, mas o sistema permanece.

Brilhante esse artigo do ESTADÃO. Nos deixam a todos com vergonha, trabalhe ou não na Cadeia Têxtil. Não uso, não compro nenhum artigo de marca, mas nem por isso me sinto despojado da vergonha que nos abate nesses momentos de reflexão. QUE FAREMOS ? QUE PODEREMOS FAZER ? REPERCUTIR APENAS, NÃO SERÁ SUFICIENTE ! EM 1911 APENAS UM DISCURSO MOBILIZOU A SOCIEDADE, MAS HOJE, NEM AS LEIS EXISTENTES E A ÉTICA SÃO CAPAZES DE ALCANÇAR OU MESMO ALTERAR A "ZONA DE CONFORTO" QUE VIVENCIAMOS...

  quando  que  os governadores  e  senadores  e  juízes  ministério  publico   e  muito  mais  gente  tem  que  tomar  vergonha  nacara   condo  que  pessoas  que  tem  o poder  na mão     como  que  nos  vamos  ter  orgulho de  um  pais   como  brasil  onde  temos  muitos  assinado  de policial  o nesto  e  taquis-ista    e  este  governo  coru pito  só  se preocupa   com  dinheiro      só  deus  para  fazer  com  algo  pornos            

Anexos

Temos a responsabilidade moral de exigir que as roupas de marcas que usamos não sejam costuradas com sangue. Se não fizermos nada e simplesmente esperarmos pela próxima tragédia, continuaremos culpados, como foi delatado por Rose Schneiderman em 1911.

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