Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XII

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“Blogueiros não têm muita cultura de moda”, diz editor de moda do jornal francês Le Figaro

Godfrey Deeny, editor de moda do “Le Figaro” ©Reprodução

Esqueça a ideia preconcebida de editor de moda inacessível, à la Anna Wintour e “O Diabo Veste Prada”. Godfrey Deeny é o oposto disso, apesar de ter passado pelas publicações mais importantes do setor, como “WWD”, onde foi editor-chefe nos anos 1990, “Vogue Homme”, “Fashion Wired Daily” e Style.com. Há menos de dois anos, ele escreve para o “Le Figaro”, um dos maiores e mais respeitados jornais franceses, onde é “editor at large”, o que significa que ele viaja o mundo acompanhando as principais semanas de moda, mas não tem obrigação de escrever diariamente.

Deeny é tão espontâneo e tão acessível que foi impossível fazê-lo parar para seguir o roteiro da entrevista. Ele fala pelos cotovelos e acaba cativando todos em volta com seu amor à vida e, principalmente, às coisas boas da vida. Por isso — e sabe-se lá como a conversa chegou neste ponto — ele se compara a Jep Gambardella, personagem principal de “A Grande Beleza”. “Não me arrependo de ter feito meu trabalho com tanta dedicação. Parece que foi ontem que fui ao meu primeiro desfile da Louis Vuitton, mas faz 20 anos.” Ele explica que é fácil se apaixonar pelo estilo de vida que a moda lhe proporcionou, com jantares nos melhores restaurantes, conhecendo pessoas influentes, convivendo com artistas de Hollywood. E ele realmente se apaixonou por tudo isso. “Chega um ponto em que você é o seu trabalho.”

E é exatamente isso que parece quando se dá uma olhada nas fotos postadas por Deeny em sua conta no Instagram. Apesar de a primeira imagem ser de dezembro de 2013 — ele de casaco de pele e chapéu sentado ao lado do amigo Karl Lagerfeld —, há muitas personalidades e estilistas, como Rihanna, Valentino, Nicolas Ghesquière, Steven Tyler, Janelle Monáe e Conchita. Há espaço também para os brasileiros, e lá está Deeny ao lado de Pedro Lourenço, Bruna Lombardi e Helena Rizzo, fotos postadas durante a visita anterior, em maio.

Desta vez, veio para assistir à final da Copa do Mundo, no dia 13 de julho, no Rio (numa ação do programa Texbrasil), e aproveitou para promover a última edição da revista “Sepp”, publicação independente sobre moda e futebol da qual é editor-chefe. Para um apaixonado pela vida, é praticamente impossível não amar o Brasil, e Deeny não foge ao clichê: ele conheceu o país em 2001 e, desde então, já veio em torno de 15 vezes. Talvez por isso ele mostre a última edição da revista com tanto entusiasmo. “É a cara do Brasil. O ‘joie de vivre’, o otimismo são as coisas que mais me intrigam no Brasil. É essa ideia de ‘jogo bonito’ que se vê mesmo na vida cotidiana. E nós colocamos isso na revista.” A publicação sai a cada dois anos, sempre coincidindo com a Copa do Mundo ou a Eurocopa, e nela fica claro que o homem é o seu trabalho e vice-versa: ele pediu, por exemplo, para grifes como Michael Kors, Versace, Gucci e Louis Vuitton recriarem camisetas de times exclusivamente para um editorial e foi atendido.

As duas capas da última edição da revista “Sepp”, com Aline Weber e Daniel Alves ©Reprodução

Ainda que desfrute das melhores festas, dos restaurantes mais estrelados, seja mundialmente influente e amigo das pessoas mais importantes na moda no momento, ele ainda afirma em português: “caipirinha de jabuticaba, a coisa mais importante do Brasil”. Mesmo morando há 20 anos em Paris, Godfrey Deeny fala um francês com forte sotaque irlandês, o que só realça o seu charme e sua figura peculiar. Confira trechos da entrevista concedida com exclusividade ao FFW:

Como você vê a moda brasileira nos dias de hoje?

Eu sempre fico impressionado com a qualidade da moda aqui. Viajo muito para o meu trabalho, para as temporadas de moda em talvez 25 países. Paris é a capital da moda, depois Milão, New York, Londres. É um pouco como o tênis, tem o grand slam. Tem os lugares mais importantes, e que vão continuar sendo os mais importantes. Mas quem são os melhores depois desses? Com frequência eu acho que São Paulo é o melhor, é o número cinco do mundo. Melhor do que Moscou, Pequim, Roma, Madri, Los Angeles. A moda no Rio é diferente, porque é bem verão, é a praia. Lá também tem um nível muito alto. O nível de qualidade dos desfiles no Brasil é muito elevado. O som, a qualidade dos modelos, mesmo a maquiagem, o cabelo, a qualidade do tecido e, sobretudo, a qualidade das estampas, que é muito importante.

E quem você destacaria hoje no cenário brasileiro?

Adoro ver a progressão dos estilistas. O primeiro estilista brasileiro que eu vi foi Alexandre Herchcovitch. Fiquei impressionado com a qualidade da concepção. Sua carreira teve momentos de crescimento, momentos difíceis, mas eu fiquei muito impressionado com o desfile deste ano na Oca. Foi fantástico! A maneira como ele pegou a ideia de Marilyn Monroe e trabalhou para criar algo sensível e sofisticado. Adoro a maneira com que cada vez mais estilistas brasileiros querem colocar em evidência outra ideia de mulher brasileira. Vocês são muito conhecidas pela beleza, pela sensualidade, mas eu acho que é bom que nós tenhamos uma imagem de Brasil um pouco mais sofisticada. Quando vou a um desfile ou a um jantar no Fasano, ou quando vou tomar um café nos bons restaurantes dos Jardins, e quando vou a Ipanema, sempre fico impressionado com a elegância de algumas mulheres brasileiras. Não é a imagem que é conhecida no exterior, infelizmente. Acho que alguns estilistas brasileiros começaram a trabalhar com isso. Para dar um exemplo, em Londres, Barbara Casasola. Seus desfiles misturam alfaiataria masculina com a ideia de uma mulher refinada, mas que mora num clima mais quente, porque suas roupas não são pesadas. Adoro também quando um estilista usa algo de vanguarda com uma coisa mais clássica, mas com um senso artístico. Por exemplo, fui ao JK para ver o desfile de Pedro Lourenço, era sua segunda linha, mas adorei. É uma linha comercial criativa.

E deixe eu falar uma coisa que é muito importante. No Brasil, os desfiles acontecem em diferentes lugares a cada estação. A Oca, o parque Ibirapuera, no Rio, o Forte de Copacabana, a casa de Oscar Niemeyer. O Brasil é afortunado de ter uma grande arquitetura moderna. Talvez aqui a arquitetura seja mais forte do que a moda. Mas pra mim o mais próximo da moda é a arquitetura. É uma das razões pelas quais eu sempre amei a moda de Oskar Metsavaht. É super arquitetônico. A forma, a silhueta, a topografia do Brasil, a vegetação, a arquitetura. Aliás, isso é outra diferença entre o Brasil e os outros países do Brics [bloco econômico formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul]: aqui as pessoas compram essas marcas. Isso é uma coisa muito positiva. Lá eles só compram em Paris. Quando viajo, quero comprar os jovens designers, e aqui eu posso.

A revista “Sepp” é um projeto alternativo seu, onde você pode ser mais criativo?

Sou crítico de moda. Antes eu era crítico de moda no “Financial Times” e há dois anos sou o crítico de moda do “Le Figaro”, o maior jornal de Paris. Lá eu tenho que explicar as coisas para as pessoas e celebrar a qualidade das roupas. Mas como crítico tenho que manter uma certa distância. A revista é um outro lado, é uma coisa independente, onde faço o que eu quero. Por cinco anos, fui o editor chefe da “Vogue Hommes” da França, e lá também eu fazia o que eu queria, mas tinha os contratos com grandes anunciantes, e tinha que manter isso. Aqui eu faço o que eu quero. Tem um patrocínio e um pouco de publicidade, mas é um trabalho independente. Ter uma revista independente é uma grande satisfação, é visceral. Ser jornalista ou crítico de moda é um grande prazer, é um grande trabalho, mas é muita responsabilidade e muita pressão do mercado: quem vai aparecer na primeira página, sempre querem uma crítica positiva, a foto, a concorrência… Se você fizer dez centímetros a mais de Dior do que Chanel é um drama. Ou se você criticar Hermès, mas se você gostar mais de Balenciaga é um drama.

Como você vê a imprensa hoje, depois das mudanças impostas pela internet?

Para mim, a independência da imprensa é uma coisa essencial na democracia. Se você for à China, você não pode ter Facebook. Fiz um trabalho para a Armani, um debate pelo Twitter, e o debate não era postado diretamente na web, mas era editado por uma pessoa do Partido Comunista antes de ser postado. Acho que na moda, nos reviews, a imprensa mantém uma certa independência — já falei da pressão que eu tenho no “Le Figaro”. E aqui no Brasil não tem esse problema, mesmo com todos os problemas do país. Admiro quando leio os jornais aqui, toda a imprensa é independente. Seja de esportes, de economia, seja sobre os escândalos, sobre política. E essa é uma das razões pelas quais eu adoro vir ao Brasil. Isso não existe na Rússia. É uma ditadura que controla a mídia, que tolhe os jornalistas. Penso que o jornalismo e a mídia são coisas fundamentais na vida. É a profissão que faz frente ao poder, diz a verdade. Quando eu estou em Paris, com muita pressão, e o meu chefe cinco vezes mais, eu penso que os meus chefes, os CEOs, querem a verdade. Eles limitam o que eu digo, mas querem alguns parágrafos que digam o que eu realmente penso. É um espelho do que eu penso. Sou um pouco controlado, há um limite. Mesmo que eu escreva isso [faz um gesto com a mão aberta] e apenas isso seja o que eu realmente penso [mostra dois dedos]. E para mim isso é uma boa satisfação, ninguém é meu dono.

Mas e sobre os blogueiros, o que você acha?

De qualquer maneira, as coisas mudaram muito com a web. Existem duas contradições no jornalismo. Acho que no jornalismo político isso expôs muita verdade. E do outro lado, na moda, por exemplo, os blogueiros viraram uma espécie de fanzines, uma espécie de representantes das grandes marcas. Eles ganham as bolsas, as viagens, mas jamais criticam. No fim, eles não têm muita cultura de moda. Você não pode conversar com essas pessoas [sobre moda]. Eu posso escrever a necrologia do estilista enquanto ele ainda está vivo. Nunca vi um blogueiro que tenha feito isso, que tenha verdadeiramente uma cultura de moda. Vejo eles como que ajudando o poder, não sendo um espelho do que eles realmente acham. Eles têm o poder de influenciar o mercado, mas não a criatividade. Se você for a um desfile importante, 30 lugares são para jornalistas e tem um ou dois blogueiros na primeira fila. Felizmente, porque nós somos as pessoas sérias. Talvez um dia a gente vá ver um verdadeiro crítico de moda que saia do mundo do blog, mas ainda não existe.

por Marcela Duarte

http://ffw.com.br/noticias/

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Respostas a este tópico

  Os blogueiros viraram uma espécie de fanzines, uma espécie de representantes das grandes marcas. Eles ganham as bolsas, as viagens, mas jamais criticam.

Ele afirma "o mais perto da moda é a arquitectura". Sem duvida uma grande verdade. Bela entrevista.

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