Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano IX

Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano IX

 Não há dúvidas do sucesso do modelo fast fashion. Há muitos anos, marcas que possuem o modelo rápido de produção e abastecimento estão à frente da indústria da moda. Além das tradicionais coleções desenvolvidas pelas marcas de acordo com as estações do ano, o fast fashion introduziu no mercado as microcoleções que são produzidas em tempo recorde.

Todos esses processos resultam em um consumo mais rápido do que aqueles envolvidos na distribuição para os clientes.  Para se ter ideia, conforme dados da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), no ano de 2016, o setor faturou R$ 129 bilhões. O País ocupa o 4º lugar no ranking mundial de fabricação. De janeiro a junho deste ano, foram fabricadas 5,5 bilhões de peças no Brasil. A sustentabilidade desponta como importante alternativa ao mercado da moda tradicional, incluindo o conceito fast fashion.

Dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) apontam que o Brasil produz 170 mil toneladas de retalho têxtil por ano. Somente em São Paulo (SP), na região do Brás - bairro com aproximadamente mil fábricas -, são descartadas 20 toneladas de resíduos têxteis (retalhos) por dia.

O Programa da Organização das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) aponta que, no mundo, os resíduos urbanos deverão passar de 1,3 bilhão de toneladas em 2016 para 2,2 bilhões de toneladas até 2025. O italiano Enrico Cietta, economista, consultor de moda e especialista do conceito fast fashion, defende a necessidade de trazer a sustentabilidade para todo o mercado, a criação de políticas públicas que contemplem a sustentabilidade - ecológica, social e econômica. "Eu considero que a opinião fundamental é a opinião dos consumidores, porém, a legislação é a melhor maneira de pressionar as marcas", alerta.  No Brasil, no que diz respeito ao descarte de resíduos sólidos, foi sancionada, em 2013, a Política Nacional de Resíduos Sólidos.

A legislação prevê a redução na geração de resíduos, tendo como pilar central a prática de hábitos de consumo sustentável e um conjunto de instrumentos para propiciar o aumento da reciclagem e da reutilização dos resíduos sólidos, aquilo que tem valor econômico e pode ser reciclado ou reaproveitado e a destinação ambientalmente adequada dos rejeitos, o que não pode ser reciclado ou reutilizado.

Segundo a coordenadora nacional do setor de moda do Sebrae Juliana Ferreira Borges, "o cerco está se fechando para as marcas. Em alguns anos, será mais caro ser insustentável do que sustentável". Há dois anos, Juliana desenvolveu um texto para o Sebrae, no qual destacava a moda sustentável como um diferencial competitivo e uma grande oportunidade para se exercer o consumo consciente.

Atualmente, a coordenadora considera que essas afirmações devem ser atualizadas. Consumo consciente está em desuso, pois, para ela, o termo sugere que é do cliente a responsabilidade, quando, na verdade, a sustentabilidade precisa ser discutida de uma maneira mais ampla por toda a indústria da moda. Há alguns anos, a inglesa Kate Fletcher, professora de design sustentável, desenvolveu o conceito do slow fashion, que preza por uma produção mais lenta, valoriza o ecossistema e as relações de trabalho. As marcas que ingressaram no mercado com esse conceito instigaram os consumidores a se questionar sobre a fabricação dos produtos utilizados.

Receber as tendências da moda rapidamente não basta, é preciso conhecer a matéria-prima utilizada na fabricação e o descarte de resíduos sólidos produzidos pelas empresas. Além dos processos relacionados ao produto, o mercado deseja transparência quanto às relações trabalhistas, visando à sustentabilidade social. A moda sustentável é resultado do modelo slow fashion, e, em todas as etapas de produção, preserva o meio ambiente e as relações sociais.

Todos os processos foram repensados, da matéria-prima ao descarte dos resíduos. Algodão vegetal, por exemplo, é substituído por algodão orgânico, tendo em vista que a fibra de origem vegetal requer um plantio delicado e necessidade de grande quantidade de pesticidas para combater as pragas. O designer André Carvalhal migrou do modelo fast fashion para a moda sustentável.

Ao se especializar em design sustentável, Carvalhal constatou o quanto o mercado da moda era insustentável. Após 10 anos à frente do marketing e da produção de conteúdo da grife carioca Farm, o especialista sentiu a necessidade de mudar o caminho da sua carreira. O modelo tradicional de varejo têxtil não foi o suficiente, e Carvalhal decidiu investir em um projeto que pregasse a colaboratividade e a sustentabilidade na indústria da moda.

Carvalhal é cofundador da Malha, movimento criado para desenvolver uma moda mais colaborativa, justa e sustentável. O projeto tem sede no bairro São Cristóvão, na cidade do Rio de Janeiro. O galpão é composto por 42 contêineres, e mais de 60 marcas e empreendedores utilizam o espaço, que aborda, pela primeira vez no País, o conceito cosewing (cocostura, em tradução livre). Uma escola, uma fábrica e um estúdio de fotografia de uso compartilhado complementam a Malha.

 Nesse espaço, nasceu a primeira marca do designer, a AHLMA - Malha ao contrário. A AHLMA carrega a cocriação em sua essência, e o conceito inclui diversos setores. Além de designer, Carvalhal é autor dos livros Moda com propósito - Manifesto pela grande virada e Moda imita a vida, que abordam uma nova perspectiva na indústria da moda. C&A mantém rede global com mais de 2.400 de fornecedores A sustentabilidade é pauta recorrente na rede holandesa de varejo C&A.

A empresa contém uma plataforma global de sustentabilidade composta por três pilares de atuação: Produtos Sustentáveis, Rede de Fornecimento Sustentável e Vidas Mais Sustentáveis. Ao que se refere à matéria-prima, 40% das peças já são produzidas com algodão sustentável. Pela primeira vez, a marca abre seu portfólio de fornecedores. No site da rede é possível verificar a lista com mais de 2.400 empresas globais e seus subcontratados. Quanto às relações trabalhistas, desde 2010, a C&A integra o Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo.

A empresa possui, também, um projeto fixo de cabides, com mais de 5,6 milhões de peças recicladas, evitando o descarte do plástico. Empresas têxteis buscam a transformação Buscando entender o impacto que a sustentabilidade tem na indústria da moda, a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a Associação Brasileira do Varejo Têxtil (Abvtex) e a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e Confecções (Abit) estão à frente do Laboratório Sustentável - Por um setor do vestuário mais sustentável e justo. Até abril do ano que vem, serão realizadas oficinas de cocriação e trabalho, e da plataforma de transformação.

Entre os líderes do grupo estão marcas e varejistas, associações setoriais, indústrias, sindicato dos trabalhadores, entre outras organizações. Os temas centrais incluem informalidade, condições de trabalho, modelo de negócio, questões ambientais, sociais e de consumo. Com foco no setor de vestuário, o projeto busca promover diversas ações em relação à sustentabilidade do mercado. Entre os objetivos do projeto estão pensar políticas públicas que favoreçam o desenvolvimento sustentável do setor, o uso eficiente de recursos naturais e de processos produtivos com baixo impacto ambiental, e as melhores condições de vida e de trabalho no setor, com destaque às questões de gênero.

Valorização da produção local Aos 16 anos, Érica Arrué Dias saiu de sua cidade natal, Dom Pedrito, e se mudou para a capital do Estado com o objetivo de cursar Psicologia. Após cinco semestres, decidiu mudar o rumo e ingressar na moda. Aplicar a responsabilidade social nas relações de trabalho na indústria da moda sempre foi uma preocupação. Para ela, não bastava criar uma marca apenas para fomentar o consumo.

Após o falecimento da avó Zeli, Érica descobriu que ela havia deixado um blusão de tricô pela metade. O episódio marcou a vida da então estudante de Design de Moda, que, a partir do blusão incompleto, decidiu investir na mão de obra social. Há dois anos, criou a marca Aurora Moda Gentil, que fabrica roupas femininas confeccionadas por artesãs de Porto Alegre e Dom Pedrito - que está em 4º lugar no ranking das cidades produtoras de ovinos, conforme dados da Secretaria de Agricultura do Rio Grande do Sul.

Das ovelhas vêm a principal matéria-prima da marca Aurora, a lã pura, utilizada na produção de blusões, blusas e casados. Érica luta pela reinserção da lã no mercado da moda. Em parceria com a Associação dos Produtores de Ovinos do Rio Grande do Sul (Arco), Érica rastreia os produtores para verificar o bem-estar animal e suas condições de vida. Ela explica que as peças de lã levam, em média, dois meses para serem fabricadas. Entre os processos estão a secagem da lã e o tingimento vegetal.

Além da lã, fios fabricados a partir de garrafas PET também são utilizados na fabricação das peças de verão. Os produtos são comercializados no e-commerce www.auroramodagentil.com.br, com preços que variam de R$ 109,50 a R$ 490,00. Sobre as grandes redes varejistas, Érica entende que é preciso conscientizar sobre as relações os processos de fabricação. "Não podemos boicotar as marcas, tendo em vista que elas geram emprego e renda para o País", afirma.

A Sueka, que fabrica camisas e camisetas, nasceu da união de crenças de Rodrigo Kronbauer e Tainá Gross, que sempre acreditaram na moda sustentável. Há um ano e meio, criaram a marca, que tem como matéria-prima principal o algodão orgânico. Segundo Kronbauer, inicialmente, foi difícil encontrar fornecedores no Estado, porém, hoje, toda a matéria-prima é adquirida no Rio Grande do Sul e em Santa Carina. A marca é composta por duas linhas, uma de tingimento natural e outra de estamparia. Os produtos da primeira linha demoram cerca de 20 dias para ficarem prontos. Todo o processo de tingimento é natural, realizado com insumos retirados da natureza, como canela, folha de nozes e açafrão.

A segunda linha é feita com estamparia gráfica - processo que não utiliza água na fabricação. Por serem tecidos exclusivos, o produto leva, em média, dois meses para ficar pronto. O escritório da Sueka está localizado em Lajeado, onde também é realizada a confecção das camisetas. Já o tingimento natural é feito na cidade de Cruzeiro do Sul. Kronbauer enxerga o Rio Grande do Sul como polo de moda sustentável. "As marcas gaúchas são retiradas do polo de moda do Brasil, por esse motivo, focamos nessa diferenciação da moda sustentável e corremos na frente nesse sentido."

  Produtos com design e com forte apelo ambiental Laura mudou caminho da carreira e, junto com sócia, apostou na Insecta MARCO QUINTANA/JC/MARCO QUINTANA/JC Há três anos, as sócias Bárbara Mattivy e Pamela Magpali juntaram suas empresas, abriram a Insecta Shoes e decidiram investir na fabricação de sapatos utilizando peças de roupas, que, apesar de terem estampas bonitas, não eram comercializadas devido ao tamanho.

A primeira coleção da marca foi desenvolvida de maneira despretensiosa, porém todos os 50 pares fabricados foram vendidos rapidamente. O negócio cresceu tanto que as sócias resolveram incluir a especialista em design de moda, Laura Madalosso na sociedade. A profissional trabalhou por diversos anos no mercado de moda fast fashion e, ao ingressar na sociedade, vislumbrou a oportunidade de mudar o caminho da sua carreira. "Eu estava em um momento de desconstrução dos meus conceitos tradicionais, e na Insecta constatei que é possível desenvolver produtos com design e devolver algo positivo para o planeta e para as pessoas", destaca Laura.  Apenas Bárbara e Laura seguem à frente da empresa. As sócias se dividem entre Porto Alegre - onde está localizada a loja matriz da empresa - e São Paulo. Por mês, em média, são comercializados 600 pares de calçados com valores que variam de R$ 265,00 a R$ 349,00.

Cerca de 60% dessas vendas são feitas através do e-commerce www.insectashoes.com. Apesar de o site concentrar a maioria das vendas da empresa, Laura considera as lojas físicas fundamentais para que os consumidores entendam melhor o que está por trás do produto. Além das duas lojas físicas, outras 10 unidades revendem os produtos da marca, sendo oito delas no exterior - quatro nos Estados Unidos, duas na Alemanha, uma no Canadá e uma na Espanha.

Inicialmente, apenas roupas eram utilizadas, mas, depois, materiais como borracha e plásticos reciclados, e algodão orgânico comneçaram a ser utilizados.. Ao todo, foram reaproveitadas mais de 2.100 peças de roupas, 630 kg de tecidos e mil garradas PET .Laura é responsável pela concepção dos produtos e compras das matérias-primas que são enviados para as fábricas terceirizadas que produzem os calçados nas cidades de Novo Hamburgo e Sapiranga. Em 2016, a empresa gaúcha conquistou o primeiro milhão, fechando o faturamento da loja em R$ 1,6 milhão.

  É possível ser ecologicamente correto já nos primeiros passos Modelos da Ararajuba calçam crianças de zero a cinco anos TALENTTARE/TALENTTARE/DIVULGAÇÃO/JC Durante a produção dos sapatos infantis Amoreco em 2011, confeccionados em couro, a criadora da marca, Daniela Gums, percebeu que o processo resultava em uma grande quantidade de retalhos. Pensando em reutilizá-los na produção, a designer desenvolveu uma segunda marca de calçados para crianças, a Ararajuba, que já nasceu com o conceito de reaproveitamento de materiais.

Com as sobras de retalhos são produzidos, de forma artesanal, sapatos exclusivos para meninos e meninas com idades entre zero a cinco anos. Além disso, existe uma linha especial feita para que as crianças ou os pais possam personalizar o modelo. Os produtos da marca de Novo Hamburgo podem ser adquiridos no e-commerce da loja e em pontos de vendas espalhados pelo Brasil. - Jornal do Comércio (http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/07/cadernos/empresas_e_negoci...)

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