Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XII

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Desfiles cancelados, shoppings fechados e clientes em quarentena. O impacto da Covid-19 no mercado fashion

Fachada em Hong Kong Foto: SOPA Images/LightRocket via Getty

A sensação recorrente de todos é que entramos num filme de ficção científica. Porém, é vida real e ela bateu dura e crua de frente: a pandemia do novo coronavírus, que começou na cidade de Wuhan, na China, tomou conta do  está causando milhares de mortes (até o fechamento desta edição, mais de 8 mil foram registradas em decorrência da Covid-19), exigindo o torturante isolamento social como forma de frear a disseminação do vírus, e, claro, retraindo a economia. Dentro desse cenário, a indústria da moda está sendo diretamente afetada e eventos do setor adiados e cancelados. No Brasil,  São Paulo Fashion Week cancelou os desfiles que aconteceriam nos dias 27 e 28 de abril; já o Veste Rio, que também aconteceria em abril, foi adiado para junho.

Os primeiros reflexos da crise surgiram na Itália, país, que, infelizmente, tornou-se um dos mais afetados pela doença. Na Semana de Moda de Milão, que aconteceu no final de fevereiro e onde foram apresentadas as coleções de outono-inverno 2021, a grife Giorgio Armani saiu na dianteira e tomou uma decisão radical: fez o desfile de portas fechadas, transmitindo-o nas plataformas on-line da marca, para evitar aglomeração. No último sábado, a marca À La Garçonne, de Alexandre Herchcovitch e Fabio Souza, adotou o mesmo formato, em São Paulo. O calendário fashion seguiu seu curso e pousou em Paris. Na capital francesa, a tensão pairou no ar. Fashionistas e players da engrenagem da moda passaram a se questionar se, naquele momento, estar dentro de uma sala de desfile valia a pena. Tops como Bella Hadid publicaram fotos usando máscara no Instagram e marcas menores, como A.P.C. e Agnès B., cancelaram suas apresentações. A máscara tornou-se o acessório do momento: ganhou memes e interpretações estilizadas pelas mãos da jovem designer francesa Marine Serre, que criou uma linha exclusiva.

E o strike seguiu a toda: os lançamentos das Cruise collections, que costumam acontecer entre os de inverno e de primavera-verão, em lugares paradisíacos e fora das capitais tradicionais da moda, também foram cancelados, o que vem gerando reflexões. “É o momento de as pessoas criarem novos formatos de apresentação de coleção. Talvez, depois dessa crise, as temporadas de moda mudem para sempre. Foi muito disruptivo”, afirmou a jornalista de moda Lilian Pacce em seu canal no YouTube.

No Brasil, o coronavírus está tendo efeito bombástico. “O país já estava num momento complicado. Desfilaria na São Paulo Fashion Week; agora, não sei o que fazer com o lançamento da coleção de verão”, lamenta a estilista Lenny Niemeyer. “Estamos vivendo uma crise mundial que vai afetar todos os mercados. A hora é de agirmos de forma coletiva para driblarmos os danos da melhor maneira possível, o governo deve se mobilizar em relação aos impostos. Só não podemos sacrificar os salários dos funcionários”, prossegue a estilista. Com todas as lojas fechadas, a fábrica está funcionando parcialmente (até o fechamento dessa edição). A rainha da moda praia busca alternativas para atravessar o período. “Estamos fazendo delivery, entregando as peças na casa das clientes, as vendas no e-commerce aumentaram. Mas, mesmo assim, o movimento caiu 50%”, calcula Lenny.

Para Carlos Ferreirinha, presidente da MCF Consultoria, o cenário é bastante complexo diante da abrupta queda de vendas. “O mercado de luxo é movido pela emoção. Quem terá desejo de compra neste momento?”, questiona ele. “Fora a questão da mobilidade, do confinamento, da reclusão. Crescerá o on-line? Sim. Porém, o prazer da compra, de provar, de testar, mesmo que o consumidor queira, não será possível”, pondera. Para Ferreirinha, quando a pandemia for controlada, os agentes da moda terão outro trabalho árduo. “Ninguém sai de uma crise como essa sem rever valores e isso será o que eu chamo de uma segunda onda. Vai ser necessário estimular as pessoas a terem vontade novamente daquilo que não é necessário. Ocorrerá uma profunda transformação da dinâmica econômica”, emenda o consultor. Naturalmente, continua Ferreirinha, as grifes de luxo estão muito perdidas. A ação que ele considera positiva foi a do grupo LMVH,  que resolveu produzir álcool gel em suas fábricas de perfume. “Isso foi excepcional”, elogia.


Economista e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Mauro Rochlin também acredita que dias complicados virão. “Estamos falando de um setor muito vulnerável à crise, suscetível às turbulências da economia. O que caracteriza esse mercado é a presença de muitas empresas de pequeno porte, numa disputa acirrada, sem muita solidez e financeiramente frágeis. Diferentemente, por exemplo, de outras indústrias, como a siderúrgica e a de cosméticos”, diz. “As medidas adotadas diante do coronavírus implicam numa imensa parada na economia, que vai dificultar as cadeias de abastecimento e deixar o comércio varejista esvaziado. A perda de receita, para muitos, poderá ser fatal, o dano até aqui já é imenso”, completa.

Já o consultor e escritor André Carvalhal — que lançará a segunda edição do best-seller “A moda imita a vida” mês que vem — tenta enxergar luz no fim do túnel. “No período de quarentena, acompanharemos uma queda drástica no consumo. O número de pessoas que terá suas rendas impactadas será maior do que o daquelas que terão contato com o novo coronavírus”, acredita. “Grande parte das marcas depende de tecidos e insumos importados; então, quando tudo isso se normalizar, a logística será mais cara, haverá um impacto no custo”, continua. Para Carvalhal, esse é o momento de fortalecer o e-commerce. “Pode virar a loja número um das marcas”, opina. O consumo, segundo ele, tende a se tornar mais consciente depois da pandemia. “Vamos passar por um período de reavaliação de valores em que estabeleceremos outra ordem de prioridades. Questionamentos como ‘comprar roupa é necessário?’ e ‘aula presencial tem sentido?’ virão à tona. Também acredito na reorganização de postos de trabalho, a partir dos pequenos produtores”. O consultor sinaliza a importância de outros caminhos para a moda, além do produto, como conserto de roupa e consultoria de imagem. “O importante é ganhar relevância na vida das pessoas.”

https://oglobo.globo.com/ela/moda/coronavirus-provoca-pane-na-indus...
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  No Brasil, o coronavírus está tendo efeito bombástico. “O país já estava num momento complicado. Desfilaria na São Paulo Fashion Week; agora, não sei o que fazer com o lançamento da coleção de verão”, lamenta a estilista Lenny Niemeyer. “Estamos vivendo uma crise mundial que vai afetar todos os mercados. 

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