Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XII

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De Apple à Adidas: Marcas Usam Trabalho Escravo de Minoria Étnica na China

 

Desde 2017, a China  tem chamado a atenção de ativistas e organizações internacionais de direitos humanos pela transferência massiva e forçada de Uigures para chamados campos de “reeducação”. Posteriormente, essa população é enviada para empresas em diversas regiões do país para trabalharem em condições análogas à escravidão, afastadas de suas famílias, com mobilidade controlada e sem direito de praticar sua religião. A política reforça o controle do Estado na região e garante mão-de-obra barata para as fábricas chinesas.

Os Uigures são uma etnia de origem turcomena, em sua maioria islâmica. Eles habitam principalmente a Ásia Central, na região de Xinjiang, província no noroeste da China, que abriga minorias étnicas. Apenas de 2017 a 2019, o Instituto de Políticas Estratégicas da Austrália (ASPI) contabilizou a transferência forçada de mais de 80 mil Uigures para trabalhar em 27 instalações fabris que abastecem 83 marcas globais, entre elas, Adidas, Apple, Amazon, Gap, H&M, Microsoft, Nike, Sony, Victoria’s Secret e Zara.

O relatório do instituto, que reúne informações dos últimos três anos coletadas da mídia estatal chinesa, avisos oficiais do governo, análise de imagens de satélites e pesquisas acadêmicas, aponta para claras evidências de trabalho análogo à escravidão em tais fábricas. As práticas estipuladas pela campanha de “reeducação” da população Uigur violam direitos humanos internacionais, a constituição chinesa – que proíbe a discriminação baseada em etnia e crença religiosa – e são chamados por especialistas como “um genocídio cultural liderado pelo governo”.

A migração forçada de Uigures acontece na China há pelo menos vinte anos, mas o país só admitiu a existência de tal sistema, e dos campos, em 2018, depois de muita pressão internacional. Ainda sim, o tom utilizado pelos porta-vozes chineses para abordar o assunto é positivo: oficiais negam o uso comercial da força de trabalho de Xinjiang e a mídia chinesa declara que a participação nos programas são voluntárias. No entanto, os Uigures que conseguem escapar desse sistema relatam cenas de constante vigilância, medo, doutrinação política, tortura e privações.

 tem chamado a atenção de ativistas e organizações internacionais de direitos humanos pela transferência massiva e forçada de Uigures para chamados campos de “reeducação”. Posteriormente, essa população é enviada para empresas em diversas regiões do país para trabalharem em condições análogas à escravidão, afastadas de suas famílias, com mobilidade controlada e sem direito de praticar sua religião. A política reforça o controle do Estado na região e garante mão-de-obra barata para as fábricas chinesas.

Os Uigures são uma etnia de origem turcomena, em sua maioria islâmica. Eles habitam principalmente a Ásia Central, na região de Xinjiang, província no noroeste da China, que abriga minorias étnicas. Apenas de 2017 a 2019, o Instituto de Políticas Estratégicas da Austrália (ASPI) contabilizou a transferência forçada de mais de 80 mil Uigures para trabalhar em 27 instalações fabris que abastecem 83 marcas globais, entre elas, Adidas, Apple, Amazon, Gap, H&M, Microsoft, Nike, Sony, Victoria’s Secret e Zara.

O relatório do instituto, que reúne informações dos últimos três anos coletadas da mídia estatal chinesa, avisos oficiais do governo, análise de imagens de satélites e pesquisas acadêmicas, aponta para claras evidências de trabalho análogo à escravidão em tais fábricas. As práticas estipuladas pela campanha de “reeducação” da população Uigur violam direitos humanos internacionais, a constituição chinesa – que proíbe a discriminação baseada em etnia e crença religiosa – e são chamados por especialistas como “um genocídio cultural liderado pelo governo”.

A migração forçada de Uigures acontece na China há pelo menos vinte anos, mas o país só admitiu a existência de tal sistema, e dos campos, em 2018, depois de muita pressão internacional. Ainda sim, o tom utilizado pelos porta-vozes chineses para abordar o assunto é positivo: oficiais negam o uso comercial da força de trabalho de Xinjiang e a mídia chinesa declara que a participação nos programas são voluntárias. No entanto, os Uigures que conseguem escapar desse sistema relatam cenas de constante vigilância, medo, doutrinação política, tortura e privações.

Eles vêm à noite

Em 2019, a jornalista Isobel Yeung viajou para Ürümqi, em Xinjiang, para relatar como é o dia a dia da população Uigur na região. Com uma câmera escondida, ela filmou as inúmeras câmeras de vigilância nas ruas, as abordagens que sofreu pela polícia – em especial por conta de sua aparência que, segundo locais, se assemelha aos Uigures – e as vozes baixas e amedrontadas de quem se dispôs a contar sobre a repressão policial.

Na Turquia, ela se reuniu com ex-presos que conseguiram escapar do país. Os relatos se assemelham na forma como os Uigures são levados aos campos: “eles prendem as pessoas à noite. Eles querem que as pessoas desapareçam e que não sejam rastreáveis”, conta Omir Bekali, Uigur que foi forçado a confessar crimes como organizar e dar abrigo a terroristas. Uma mulher que não se identificou disse que foi presa porque estudou o Alcorão e aprendeu árabe. “Eles me disseram que eu tentei corromper a ideologia de outras pessoas e dividir o país”, afirma.

Segundo o relatório da ASPI, se um Alcorão é encontrado nos pertences ou no celular de um Uigur, ele pode ser enviado para o campo de reeducação por 3 a 5 anos. Para o governo, tal política é necessária porque o Uigures são “uma ameaça terrorista e separatista”, sendo classificados como “pessoas infectadas com pensamento extremista”. Em entrevista à BBC, o representante do gabinete de relações exteriores de Xinjiang, Zhisheng Zhang, questionou: “algumas pessoas, antes de cometerem assassinato, já mostram que são capazes de matar. Devemos esperar que eles cometam o crime?”.

O jornalista John Sudworth, que visitou um dos campos de reeducação, captou, por meio de cenas encenadas e felicidade forjada, a dor e repressão sofrida pela minoria muçulmana. Uigures relatam que são obrigados a comer carne de porco, decorar músicas nacionalistas, aprender mandarim, fazer sessões de autocrítica – tudo para se distanciar da sua cultura e língua materna e se assemelhar à imagem da maioria étnica Han.

O governo registra minuciosamente as informações da pessoa capturada e de seus familiares e amigos através de um banco de dados central, desenvolvido pelo Departamento de Recursos Humanos e Assuntos Sociais de Xinjiang. Foi por meio de tais documentos que a jornalista Isobel conseguiu localizar a irmã de uma Uigur capturada pelo governo chinês. Apesar de Rozinisa Tohti ter migrado para a Turquia há 17 anos, tantos suas informações quanto o comportamento de sua irmã no campo de reeducação foram minuciosamente compilados. Quando um Uigur é considerado apto para “graduar”, ele é enviado para fábricas em Xinjiang e outras províncias, que retém o mesmo caráter repressivo e de isolamento.

 

Do campo de treinamento à fábrica

Em 2017, 20.859 “trabalhadores rurais excedentes”, como muitos Uigures são considerados pelo Estado, foram transferidos para trabalhar em outras províncias. Em 2018 e 2019 foram 28 mil e 32 mil pessoas, respectivamente. Nas fábricas, eles vivem em dormitórios separados, continuam o treinamento de mandarim e ideologia fora do horário de trabalho, sendo vigiados o tempo todo. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) listou 11 indicadores de trabalho forçado, como: estar sujeito a intimidações e ameaças, estar em posição de dependência e vulnerabilidade – como ter membros da família ameaçados em Xinjiang – e horas excessivas de trabalho.

Um dos casos estudados pela ASPI é da fábrica Qingdao Taekwang Shoes Co. Ltd, que empregava, em janeiro de 2020, cerca de 600 trabalhadores, em sua maioria mulheres, de minorias étnicas de Xinjiang. O principal cliente da empresa é a Nike – na fábrica são produzidos mais de sete milhões de pares anualmente. O Washington Post denunciou que os trabalhadores Uigures não tinham permissão de ir para casa nas férias. Fotos publicadas pelo jornal mostram que o local é equipado com torres de vigia, arame farpado e câmeras de reconhecimento facial. Dentro do complexo eles também são isolados: eles mal falam mandarim e comem em um restaurante do outro lado da rua da fábrica, moram em prédios próximos ao trabalho, em quartos separados dos trabalhadores da etnia Han.

Empresas chinesas e funcionários do governo se orgulham de poder alterar as “mentes extremistas” destes trabalhadores e descrevem esses processos como uma transformação em “cidadãos modernos” e “mais atraentes fisicamente, pois aprendem a tomar banhos diários”.

 

A importância geopolítica de Xinjiang

Você pode se perguntar em algum momento: por que a China investe tanto no controle desta região, ao ponto de tornar estas ações uma das principais políticas públicas nos últimos anos? A resposta está na importância que o espaço geográfico de Xinjiang tem para o mercado interno e externo. A região é rica em fontes energéticas: representa quase 40% da reserva de carvão, mais de 20% do total de petróleo e gás natural e 20% do potencial eólico do país, além de ser responsável por 84% da produção nacional de algodão.

A instabilidade política em Xinjiang acontece há quase um século. Os Uigures são distante culturalmente e linguisticamente da China, se aparentando mais com o modo de vida de outras populações de origem turcomena. Nas últimas décadas, não só a região, mas a China como um todo se desenvolveu economicamente, mas as minorias étnicas novamente sofreram com a disparidade social – Uigures foram deixados em trabalhos com baixos salários, enquanto os Hans se mantinham em postos de liderança. Por conta disso, em 2009, o grupo se rebelou contra a discriminação que sofriam e a ação terminou em um dos piores motins já ocorridos na capital da província.

A repressão chinesa se intensificou enquanto Xinjiang se tornava ainda mais relevante economicamente para o país. Em 2013, com o lançamento da iniciativa “Belt and Road” [1], a China despendeu um investimento de US$ 1 trilhão (R$ 5 trilhões) nos setores de cabos de fibra óptica, linhas de trens e gasoduto para impulsionar a economia, facilitando o comércio com o restante do mundo. Muitos destes projetos passam pela região de Xinjiang, tornando a província um corredor importante para o país.Mesmo que os Uigures não estejam pleiteando independência territorial, eles tem forte presença na província – o projeto coercitivo é uma forma da China garantir que a região continue em suas mãos.

No infográfico abaixo, vemos os principais pontos de tensão entre a relação Uigur – Governo Chinês ao longo do último século:

A importância da região só se reforça quando vemos os incentivos que o governo despende para políticos e empresários. A começar pelo “Xinjiang Aid”, criado em 2010, que oferece subsídios financeiro e político para mobilizar cidades e províncias mais ricas para promover desenvolvimento e estabilidade da região. Em 2018, para cada Uigur contratado para trabalhar em uma fábrica por um ano, o dono da empresa receberia do governo US$ 144,16 (R$724,15) e, em contratos de três anos, US$ 720,80 (R$ 3620,76). Os anúncios de venda de Uigures também são feitos por “lotes”. Segundo o relatório da ASPI, um anúncio na internet oferecia mil trabalhadores Uigures, entre 16 e 18 anos, com os dizeres: “as vantagens dos trabalhadores de Xinjiang são: gerenciamento de estilo semi-militar, podem suportar dificuldades”.

 

Como acabar com o ciclo de violência

As chances que seu celular, produtos eletrônicos, carros e roupas tenham passado pela mão de um Uigur em condições de trabalho análogas à escravidão é grande. Desviar deste ciclo de mercados hiperconectados não é fácil, principalmente quando a rede produtiva é tão extensa e até mesmo as marcas têm dificuldade de rastrear seus fornecedores. Em resposta ao relatório da ASPI, empresas como Adidas, Bosch e Panasonic disseram não ter nenhuma relação contratual com os fornecedores envolvidos, mas o relatório salienta que tais marcas não conseguiram responder sobre toda sua rede de suprimento.

A verdade gritante e difícil de engolir é que a China, demais governos e empresas internacionais, preferem por o capital acima da vida humana. O relatório da ASPI deixa claro que tais medidas de retenção e isolamento vão contra a legislação chinesas e de outros países, como os Estados Unidos. O país considera ilegal a entrada de produtos fabricados por trabalho análogo à escravidão e tem, desde 2012, a lei Global Magnitsky Act, que impõe sanções a entidades governamentais e funcionários de governos estrangeiros que sejam complacentes com violações dos direitos humanos.

Isso significa que a legislação está em dia. Isso também significa que o governo americano está sendo complacente com esta realidade para preservar sua influência política e, principalmente, comercial, nas negociações que somam as casas dos milhões. A pressão internacional ainda é fraca: em julho de 2019, 22 embaixadores enviaram à ONU uma carta condenando a perseguição chinesa com os Uigures, mas nenhuma medida foi tomada.

Enquanto nós, como consumidores, não temos muito poder individual para mudar este cenário, nós, como cidadãos, podemos começar por exigir que autoridades brasileiras criem leis mais restritas, colocando as marcas para assumirem seu lugar de responsabilidade. É isto que promete o projeto de lei americano Prevenção do Trabalho Forçado Uigur (Uyghur Forced Labor Prevention Act), que considera que todo produto proveniente de Xinjiang, em determinadas categorias, são feitos por trabalho análogo à escravidão e resta a empresa importadora a responsabilidade de provar que seus fornecedores não retém trabalhadores Uigures em tais condições.

A ASPI lista de três a quatro recomendações para os atores listados ao longo do relatório, sendo algumas delas: ao governo chinês, para que conceda acesso irrestrito às empresas multinacionais para investigarem práticas de trabalho abusivo em fábricas na China e ratificar as Normas Internacionais de Trabalho da OIT; às 83 marcas, realizar auditorias e inspeções sociais robustas nas fábricas chinesas, garantindo a segurança dos trabalhadores vulneráveis; aos governos estrangeiros, pressionar o governo chinês para ratificar a Convenção sobre Trabalho Forçado, de 1930, a Convenção sobre Abolição do Trabalho Forçado, de 1957, e o Protocolo de 2014 à Convenção sobre Trabalho Forçado; aos consumidores e grupos da sociedade civil, advogar pelo reconhecimento da vigilância e monitoramento de trabalhadores dentro e fora do horário de trabalho como um indicador subnotificado de trabalho análogo à escravidão e forças marcas a serem mais transparentes sobre sua rede de suprimento.

As 83 marcas listadas no relatório da ASPI são: Abercrombie & Fitch, Acer, Adidas, Alstom, Amazon, Apple, ASUS, BAIC Motor, BMW, Bombardier, Bosch, BYD, Calvin Klein, Candy, Carter’s, Cerruti 1881, Changan Automobile, Cisco, CRRC, Dell, Electrolux, Fila, Founder Group, GAC Group (automobiles), Gap, Geely Auto, General Motors, Google, Goertek, H&M, Haier, Hart Schaffner Marx, Hisense, Hitachi, HP, HTC, Huawei, iFlyTek, Jack & Jones, Jaguar, Japan Display Inc., L.L.Bean, Lacoste, Land Rover, Lenovo, LG, Li-Ning, Mayor, Meizu, Mercedes-Benz, MG, Microsoft, Mitsubishi, Mitsumi, Nike, Nintendo, Nokia, The North Face, Oculus, Oppo, Panasonic, Polo Ralph Lauren, Puma, Roewe, SAIC Motor, Samsung, SGMW, Sharp, Siemens, Skechers, Sony, TDK, Tommy Hilfiger, Toshiba, Tsinghua Tongfang, Uniqlo, Victoria’s Secret, Vivo, Volkswagen, Xiaomi, Zara, Zegna, ZTE.

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