Na passada semana, fomos confrontados com o encerramento de mais uma unidade de inovação têxtil, o da “Factory for Innovation in Textiles” (FIT) da C&A em Mönchengladbach, Alemanha, e que mais uma vez vem levantar questões cruciais sobre o futuro da sustentabilidade na moda. Inaugurada em 2021, esta fábrica representava uma aposta ambiciosa na produção local e sustentável de jeans assim como de outras inovações circulares têxteis, utilizando tecnologias avançadas para minimizar o impacto ambiental. No entanto, apesar do investimento significativo, a FIT fechou as portas em fevereiro de 2025.
Porquê? Oficialmente, os objetivos comerciais não foram atingidos. Mas para mim o encerramento vai muito além de um simples falhanço empresarial. A FIT era um laboratório para o futuro da moda sustentável, e o seu encerramento levanta dúvidas sobre a viabilidade económica deste modelo de produção. Se uma gigante como a C&A não conseguiu tornar a produção sustentável de jeans rentável na Europa, quem conseguirá?
Infelizmente este não é um caso isolado, e muitos outros projetos de circularidade e sustentabilidade na moda já tiveram o mesmo fim no ano anterior. Também, na mesma semana, um estudo publicado na Frontiers in Sustainability desmontou por completo as projeções otimistas da moda circular. Segundo os autores, os modelos de revenda, aluguer e reciclagem foram sobrestimados em cerca de 460 mil milhões de dólares (430 mil milhões de euros), um erro colossal que coloca em causa a promessa económica do eldorado da circularidade. Isto porque na realidade a circularidade da moda vale apenas 50 mil milhões de dólares (47 mil milhões de euros). O estudo questiona relatórios de referência, incluindo os da Ellen MacArthur Foundation, e aponta que os modelos circulares geram margens de lucro inferiores às vendas tradicionais, podendo até reduzir as receitas da indústria se a produção diminuir. Disto ninguém estava à espera.
Além disso, destaca um problema que poucos discutem: a circularidade não resolve a sobreprodução, que continua a ser o modelo de negócio e o maior vilão do desperdício têxtil. E pior, não há evidências de que melhore as condições laborais na cadeia de valor. Ou seja, a moda circular pode não ser a revolução que muitos acreditam – pelo menos, não da forma como tem sido vendida.
Então, o que significa tudo isto? Estamos a assistir a uma crise de confiança na sustentabilidade da moda? O fecho da FIT e de projetos semelhantes e as novas dúvidas sobre a circularidade revelam uma realidade incómoda: a transição para um modelo sustentável não é apenas uma questão de inovação tecnológica ou boas intenções ambientais – é um desafio económico brutal.
Que a produção sustentável na Europa não consegue competir com os custos da Ásia – isso já sabíamos, e que os modelos circulares não geram o lucro esperado – para alguns foi novidade, mas há uma certeza absoluta que é que a indústria enfrenta um dilema: a sustentabilidade é um caminho viável ou apenas um conceito bonito que ainda não encontrou uma solução prática?
O caso do encerramento da fábrica-laboratório da C&A e os números revelados pelo estudo são um alerta para todos. Precisamos de um debate mais realista sobre o que significa, na prática, construir uma indústria têxtil sustentável – e, mais importante, quem está disposto a pagar por ela.
Porque se continuarmos a alimentar o discurso das lamentações, sem enfrentar os desafios estruturais de frente, o fast fashion engole-nos de cebolada logo pela manhã – e segue impávido para o almoço. Sustentabilidade não se faz de boas intenções nem de slogans bonitos. Faz-se de estratégia, inovação e coragem para mudar o jogo. Se não o fizermos, continuaremos apenas a ser figurantes num sistema que juramos querer transformar.
https://sustentix.sapo.pt/fecho-de-uma-fabrica-da-ca-e-os-desafios-...
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