Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XVI

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Depois de ter sido envolvida numa investigação que revela más práticas por parte de dois produtores brasileiros de algodão certificado, a retalhista espanhola está a exigir esclarecimentos à Better Cotton sobre o processo de rastreabilidade.

[©Earthsight-Thomas Bauer]

Numa carta enviada a Alan McClay, CEO da Better Cotton, a Inditex solicita esclarecimentos sobre as práticas de rastreabilidade da organização, após a organização não-governamental Earthsight ter publicado uma investigação onde expõe que produtores com certificação Better Cotton estão envolvidos em apropriação indevida de terras, desflorestação ilegal e atos violentos contra as populações locais.

A Inditex afirma, segundo a carta a que a Modaes teve acesso, ter esperado mais de seis meses pelos resultados de uma investigação interna da Better Cotton, que teria começado em agosto de 2023 e estaria terminada no final de março.

As alegações da Earthsight «representam uma séria quebra de confiança no processo de certificação da Better Cotton tanto do nosso grupo como dos nossos fornecedores», refere a retalhista espanhola na carta. «A confiança que depositamos nestes processos desenvolvidos por organizações independentes, como a sua, é fundamental para a nossa estratégia de controlo da cadeia de aprovisionamento», acrescenta.

A Better Cotton publicou hoje, 11 de abril, um comunicado onde assevera ter feito «uma auditoria independente das questões altamente preocupantes levantadas [na investigação da Earthsight] relacionadas com três quintas certificadas pela Better Cotton no estado da Bahia, no Brasil», acrescentar estar «empenhada em disponibilizar um resumo das conclusões» aos membros da Better Cotton e à própria Earthsight.

Sublinhando que «o nosso standard foi pensado «para impedir que terras com alto valor de conservação sejam convertidas para cultivo de algodão e que terras sejam convertidas sem o consentimento da comunidade», a Better Cotton sustenta que «se houver evidência de que as quintas não cumprem os requisitos da certificação Better Cotton, as suas licenças serão suspensas ou revogadas. Vamos trabalhar em estreita colaboração com a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (ABRAPA), nossa parceira no Brasil e proprietária do Protocolo Brasileiro do Algodão Responsável, um programa nacional reconhecido como equivalente à certificação Better Cotton, durante todo este processo».


[©Earthsight-Thomas Bauer]

investigação da Earthsight analisa o grande desenvolvimento da produção brasileira de algodão, para exportação, e segue o destino de mais de 800.000 toneladas desse algodão, contaminado, mas certificado, para empresas na Ásia, onde é transformado em peças de roupa para as marcas venderem depois especialmente na Europa. A associação não-governamental passou mais de um ano a analisar imagens de satélite, decisões judiciais e registos de embarque, assim como a visitar feiras comerciais para localizar e seguir esse algodão.

Produzido no Cerrado brasileiro por duas grandes empresas (que negaram qualquer ilegalidade), o algodão foi vendido entre 2014 e 2023 a oito produtores de vestuário na Indonésia, no Paquistão e no Bangladesh, que fornecem retalhistas como a Inditex e a H&M.

As fazendas de algodão em causa, segundo a investigação, têm um longo historial de processos judiciais, casos de corrupção, desmatamento ilegal de 100.000 hectares de terra e apropriação indevida de terrenos no Cerrado, uma região que cobre um quarto do Brasil e abriga 5% de todas as espécies do mundo, incluindo tatus e papa-formigas.

Mais de metade do Cerrado foi desmatado para a agricultura em grande escala, nomeadamente para algodão, fazendo com que centenas de espécies estejam em vias de extinção devido à perda de habitats.

«Embora todos saibamos o que a soja e a carne bovina fizeram às florestas do Brasil, o impacto do algodão passou em grande parte despercebido. No entanto, a colheita cresceu nas últimas décadas e tornou-se um desastre ambiental», afirma Sam Lawson, diretor da Earthsight. «Tornou-se muito claro que os crimes relacionados com as mercadorias que consumimos têm de ser abordados através de regulamentação e não de escolhas do consumidor. Isso significa que os legisladores dos países consumidores devem implementar leis fortes com uma aplicação rigorosa. Enquanto isso, os compradores devem pensar duas vezes antes de comprar a próxima peça de roupa de algodão», conclui.

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