Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XII

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Negócios da China custaram 162 mil empregos a Portugal-Têxtil



O sector têxtil chegou a empregar 280 mil pessoas em Portugal. Hoje são cerca de 137 mil

FOTO RUI DUARTE SILVA



Concorrência com a China reduziu as hipóteses de empregabilidade dos portugueses em 17% em sectores como o calçado e têxtil.

 

 A globalização da China e o seu crescente protagonismo como principal exportador mundial custaram aos trabalhadores portugueses uma diminuição da probabilidade de emprego de 17% e quebras salariais na ordem dos 25%, até 2008, conclui um estudo dos economistas Pedro S. Martins, ex-secretário de Estado do Emprego do Governo de Pedro Passos Coelho e atual professor da Queen Mary University (Londres), Sónia Cabral, Mariana Tavares e João Pereira dos Santos, que analisou o impacto das exportações chinesas no emprego nacional, durante um período de 15 anos.

O impacto dos negócios da China foi sobretudo visível nas indústrias nacionais mais expostas à competição chinesa nos mercados internacionais, como os têxteis e o calçado. Juntos, estes dois sectores perderam, desde 1993, o primeiro ano de análise do estudo, 162 mil postos de trabalho em Portugal, segundo contas do Expresso realizadas a partir de dados das associações nacionais do sector.

Mas, apesar do impacto, os líderes dos clusters nacionais do calçado e dos têxteis não têm dúvidas de que foi exatamente a ameaça da China que marcou o ponto de viragem para indústrias de valor acrescentado, globalmente competitivas e geradoras de emprego qualificado.


O calçado português é o segundo mais caro do mundo, só superado pelo da Itália, e os têxteis nacionais destacam-se internacionalmente pelo seu design e inovação. Mas nem sempre foi assim. A emergência da China como principal país exportador mundial (entre 1993 e 2008) fez ambos os sectores viver tempos difíceis devido à redução de exportações portuguesas para países estrangeiros. O estudo conduzido pela equipa de Pedro S. Martins e Sónia Cabral destaca “efeitos negativos significativos, tanto em termos de empregos como de salários em Portugal”.

Segundo o coautor, Portugal foi claramente um dos perdedores da globalização chinesa, “não em termos de concorrência direta (importações de produtos chineses para Portugal), mas em termos de concorrência indireta, ou seja, pela substituição da exportação de produtos portugueses por produtos chineses em países como a Alemanha, França e outros”. Contas feitas, destaca Pedro S. Martins, “os trabalhadores em indústrias mais expostas a este efeito indireto viram os seus salários baixar em cerca de 25% e a probabilidade de emprego em cerca de 17%, quando comparados com trabalhadores semelhantes em industrias menos expostas à competição chinesa em mercados internacionais”.

VÍTIMAS DA GLOBALIZAÇÃO CHINESA

Os trabalhadores mais velhos, menos qualificados, e as mulheres foram as principais vítimas deste “efeito China”, confirma a equipa de investigadores responsável pela análise. E os impactos não se resumiram apenas aos salários e à empregabilidade. Foram também visíveis nas perspetivas de promoção, formação profissional, oportunidades de trabalho suplementar ou na redução de ofertas de emprego noutras empresas do sector.

Embora a análise dos investigadores termine em 2008, o ano da crise económica e financeira, altura em que o comércio internacional mundial regista uma quebra a nível mundial, Pedro S. Martins admite que “os efeitos documentados até 2008 também se terão verificado nos anos mais recentes”. Ao Expresso, os líderes da Associação Têxtil e de Vestuário de Portugal (ATP) e da Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos em Pele e Sucedâneos (APICCAPS) confirmam: o “efeito China” prolongou-se no tempo e os números demonstram-no.

No calçado, “entre os anos de 2000 e 2015, mais de 50% das multinacionais instaladas em Portugal deslocaram parte ou a totalidade da sua produção para o sudeste asiático, implicando a perda de milhares de postos de trabalho e uma quebra das exportações na ordem dos 30%”, explica Paulo Gonçalves, porta-voz da APICCAPS. Mas nesse mesmo período, a indústria portuguesa do calçado, detida por empresários nacionais, cresceu de forma significativa e iniciou uma fase de reorientação estratégica para um modelo de produção em que o valor e a inovação se sobrepõe ao preço.

“As empresas recusaram-se a vender minutos de produção e apostaram no desenvolvimento de produtos de excelência e valor acrescentado e nas marcas”, explica. Se tivessem escolhido outro o caminho, reconhece Paulo Gonçalves, “teria sido o nosso suicídio coletivo”.

O porta-voz da associação admite que a opção pela produção de valor acrescentado poderá ter prolongado as dificuldades do sector além de 2008 e ampliado os seus desafios, mas garante que apesar disso, na última década a indústria nacional do calçado conseguiu até criar emprego. Em termos líquidos, o calçado nacional emprega hoje mais cinco mil profissionais do que em 2008, totalizando 40.080 trabalhadores nas empresas desta fileira. Mas apesar da recuperação registada, o número total de trabalhadores permanece abaixo dos 59.099 registados em 1994 (o primeiro ano disponível nas contas da APICCAPS).

O desafio atual do sector que exporta 95% do que produz passa por atrair uma nova geração de talento para áreas nobres como o design, a distribuição ou a área comercial, além de quadros técnicos competentes e altamente qualificados para a área da produção. Este será, reconhece, o investimento decisivo num sector que, garante, está longe de concorrer com a China em termos de produto.

TÊXTIL PERDEU 143 MIL PROFISSIONAIS

Nos têxteis, o caminho foi idêntico mas os impactos no emprego foram distintos. Paulo Vaz, diretor-geral da ATP, aponta 2009 como o pior ano das exportações, mas não do emprego. Esse seria 2013, altura em que o sector reduziu o número de trabalhadores até aos 124 mil, depois de ter chegado a empregar 280 mil profissionais em 1993. Desde 2014 o sector têxtil tem conseguido inverter a tendência de redução de recursos humanos e “soma já mais 15 mil trabalhadores.

Profissionais diferentes dos que antes tinha, mais qualificados, num sector que é hoje, também ele, muito diferente do que já foi”, explica o líder da ATP. Paulo Vaz não tem dúvidas: “Os têxteis nacionais não competem com a China. Se competíssemos com a China, já não teríamos sequer indústria.”

O diretor-geral da ATP explica que os têxteis nacionais optaram por responder à concorrência não pelo preço, mas pela inovação, tecnologia, design e pela qualidade do seu serviço. Foi isso, garante, que permitiu ao sector têxtil fazer frente ao crescimento das exportações chinesas nos últimos anos. Um posicionamento que pode ser posto em causa pela escassez nacional de talento.

O sector, reconhece, “tem um grave problema de recursos humanos, não só em perfis tecnicamente qualificados (como engenheiros de desenvolvimento de produto, perfis de investigação e desenvolvimento), mas também em perfis intermédios”. Hoje, faltam ao têxtil nacional entre 20 a 25 mil profissionais e “até os mais indiferenciados é difícil contratar”, reconhece.

Um dos fatores que pode afastar os profissionais de ambos os sectores são os salários praticados. Muito embora têxteis e calçado defendam que não são sectores de salário mínimo, a verdade é que os profissionais continuam a manifestar-se por melhorias nas condições salariais. Isabel Tavares, coordenadora da direção nacional da Federação dos Sindicatos dos Trabalhadores Têxteis, Lanifícios, Vestuário, Calçado e Peles de Portugal (FESETE), admitiu recentemente que “os patrões não querem sair do salário mínimo nacional [580 euros] ou de valores muito próximos”.

https://expresso.sapo.pt/economia/2018-10-21-Negocios-da-China-cust...

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