Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XV

Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XV

Marcas como Balenciaga, Richard Quinn e Bold Strap recuperam elementos do universo BDSM, mas, diferentemente do passado, a provocação e o choque já não são o principal objetivo.

O que está por trás da nova onda fetichista na moda

 

Pense em Kim Kardashian coberta de preto da cabeça aos pés por um macacão preto justo da Balenciaga. Ou então na drag queen Violet Chachki vestida de látex e segurando um modelo com uma coleira no mais recente desfile de Richard Quinn. E tem ainda a apresentação à la Motomami da Bold Strap, na última edição da São Paulo Fashion Week, com suas calças de couro coladas ao corpo, underwear, harness, jockstraps e mais um tanto de fendas, recortes, transparências e amarrações.

Que a moda anda mais sexy e sexual nos últimos tempos não é novidade. Já faz umas três temporadas que as silhuetas ficaram mais esguias, os decotes se aprofundaram, as fendas se abriram e os comprimentos subiram. Isso sem falar na volta do corset e na onda da lingerie aparente ou usada como roupa de fora. Na verdade, essa onda de sensualidade acontece de tempos em tempos, mas quase nunca com a mesma motivação ou significado.

Nos anos 1970 e 1980, por exemplo, as criações de Jean Paul Gaultier, Rudi Gernreich e Thierry Mugler, carregadas de carga sexual, falavam, sim, sobre liberdade, mas também tinham um quê de choque e provocação. Características essas que hoje já não têm menos impacto – e sentido até.

“O que é underground está aberto. Por mais que se tenha conservadorismo, há uma ênfase na expressão e mais diversidade. Pessoas de variados grupos circulam com mais naturalidade pelo BDSM”, analisa Anna Steel, um dos nomes por trás da Lord Steel Acessórios, marca de produtos BDSM e fetichistas de São Paulo. “A tecnologia facilita, além de filmes e séries. O Lord, quando começou, tinha que colocar anúncio no jornal para achar outro praticante”, brinca ela, ao se referir a Lord Steel, seu dominador e parceiro de negócio.

“A marca é baseada na nossa vida. Não fizemos pesquisa de público-alvo, pois já éramos ele. Eu sou submissa, ele é meu dominador e fazíamos cenas públicas. Nós dois temos um apelo visual chamativo e as pessoas gostam de nosso estilo de vida”, diz Anna, que também é stylist e produz manualmente, com seu dominador, itens como algemas, chicotes, cintos, harness e máscaras.

SHIBARI DE CHINELO E CAMISETA

“Talvez a questão tenha ressurgido por conta de todo debate sobre sexo, corpo, sexualidade e identidade”, diz Luiza Gil, diretora criativa e fundadora da A.Rolê, marca conhecida por celebrar curvas com tecidos maleáveis em looks justos e de golas altas. Com essa predileção, a etiqueta foi inicialmente procurada por algumas pessoas que queriam incluir um zíper na região pélvica ou um outro na anal. A demanda surpreendeu e Luiza partiu para a pesquisa.

“Fui para a literatura, estava muito com uma imagem ligada a gays e ao couro”, diz, em menção ao surgimento do BDSM. Uma de suas possíveis origens (e há muito questionamento sobre isso) é uma outra subcultura, chamada Leather, formada por motociclistas e entusiastas de couro nos EUA, após a Segunda Guerra Mundial. Uma das práticas dos Leathers é o sadomasoquismo.

A.Rolê.Foto: Mariana Maltoni

"No entanto, 80% das pessoas para quem eu vendo com esse intuito são mulheres”, continua Gil. O tule, por mostrar e velar o corpo, a malha vinílica e as luvas são recursos frequentemente usados nas suas criações.

Outra falsa concepção dizia respeito a ideia de dominação e submissão, tida facilmente como algo malicioso. “Quando comecei a pesquisar, algo que saltou forte foi a questão da concessão. No fim, é tudo sobre prazer, pois há acordo, assim como uma transa ‘papai e mamãe’”, explica Gil. “Tem gente que acha que é putaria, sujo e degradante. Pelo contrário, somos abertos, celebramos o amor, e a moda no fetiche exalta essa liberdade”, complementa Anna Steel.

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Essa liberdade passa também pela imagem das roupas e acessórios associados a diferentes tipos de fetiches e práticas sexuais. “A minha produção de pornografia, ancorada no BDSM, tem muito um lugar de sair da seriedade, desse espaço do preto e couro. O sexo é riso para mim, inclusive com BDSM”, afirma Luiza Tormenta, praticante de BDSM e integrante da produtora de pornografia ediyporn.com.

Lord Steel Acessórios.Foto: Ana Di Castro

“Algumas pessoas fazem a amarração no Shibari e vão estar de chinelo e camiseta. Esses códigos do preto e couro se referem mais à uma comunidade tradicional. Parte do rolê mais kawaii segue a linha pet play (encenação com base em uma dinâmica de bichinho de estimação e dono). É bem montado e fofinho, parece um anime”, diz.

O casal de artistas Genevieve Belleveau e Themba Alleyne, dos EUA, é citado por Luiza como outro exemplo. Os dois possuem uma linha eco-fetichista, com madeira, roupas de látex transparentes com aplicações de flores, chibatas com plantas artificiais e escovas com grama. “Entendo que a moda reduza a alguns símbolos, mas não é a única realidade. No BDSM, as pessoas vivem das mais variadas formas.”, analisa Tormenta.

GORDA NA CORDA

Já para a educadora de Shibari e praticante de BDSM Engel Ropes, as representações frequentes na moda são bem realistas, pois, segundo ela, a maior parte da comunidade segue essa linha. “A fotografia e a moda são os campos da comunicação mais fiéis”, fala, usando como exemplos os videoclipes e imagens de Lady Gaga, Rihanna, Pabllo Vittar e Doja Cat – outra praticante de BDSM.

Já o cinema deixaria mais a desejar. 50 Tons de Cinza, que para os praticantes entrevistados foi responsável por um boom na procura pelo BDSM, é um “desserviço horrível”, pontua Ropes. “Tem elementos de BDSM, como flogger (instrumento para chicotear), mas falta a coisa mais fundamental que é a negociação”. Para ela, a ausência de consentimento reforçaria estigmas.

Amarração no Shibari por Engel Ropes.Foto: Ana Di Castro

Em seu primeiro contato com o Shibari, a educadora conta que foi confrontada - e estimulada - por engessamentos. Em 2016, ela já era praticante de BDSM e foi, a convite de uma amiga, à festa Luxúria, em São Paulo. Lá, assistiu a uma performance de amarração, “muito diferente de tudo que tinha visto.” A vontade de ser amarrada surgiu ali.

“Mas não achei ninguém que me amarrasse nessa festa. Eu sou uma mulher gorda.” Ropes explica que há uma predileção comum no Shibari, que vem de uma “estética japonesa”, de que a mulher amarrada seja magra e delicada. “Entendi que precisaria aprender a me amarrar”, conta ela, que hoje dá aulas particulares, oferece workshops e também é administradora do Atados no Parque, evento que acontece em espaços verdes da cidade.

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