Nada como ir a campo para confirmar se estatísticas, relatórios e gráficos são, de fato, verdadeiros. A busca pela realidade das lavouras brasileiras de algodão guiou a primeira edição da “Brazilian Cotton Dialogues”, uma missão internacional multisetorial realizada pela Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) de 21 a 25 de julho em três estados brasileiros: Mato Grosso, Bahia e Goiás.
Receber comitivas internacionais já faz parte das ações rotineiras da Abrapa, mas desta vez foi diferente. “Convidamos profissionais com diferentes backgrounds, não somente importadores. Essa diversidade deu muito certo e fomentou trocas não só conosco, mas entre os próprios participantes”, explicou o diretor de Relações Internacionais da Abrapa, Marcelo Duarte.
Duarte foi um dos membros da Abrapa que recebeu a delegação de 15 representantes de indústrias têxteis, fabricantes de máquinas, marcas varejistas e entidades ambientalistas globais. Além de fazendas, o grupo visitou algodoeiras, laboratórios de classificação de algodão, cooperativas e associações estaduais de cotonicultores para saberem como o país chegou aos títulos de terceiro maior produtor mundial e maior exportador global de algodão.
A grande escala das fazendas brasileiras, quando comparadas com outros países, a gestão de processos nas fazendas e o sistema brasileiro de rastreabilidade também chamaram a atenção.
“Já tinha ouvido muito sobre o crescimento da indústria do algodão no Brasil, mas o que vi foi impressionante. Do tamanho das fazendas à escala das operações, além dos bons métodos técnicos e científicos adotados. O país tem um grande potencial para crescer e fornecer ainda mais algodão no futuro”, afirmou K.V. Srinivasan, executivo da Premier Mills, da Índia, e presidente da International Textile Manufacturers Federation (ITMF).
Christian Schindler, diretor geral da ITMF, notou diferenças em relação ao Brasil que conheceu há 15 anos. “A evolução na qualidade da fibra brasileira é grande e vemos que os brasileiros conseguiram crescer tanto tecnicamente quanto em termos de sustentabilidade, graças a esse ecossistema de fazendas com alta tecnologia”, observou.
Outro destaque foi o que Schindler chamou de “conceito holístico” da cotonicultura brasileira. “Os produtores querem melhorar as práticas sustentáveis um pouco mais a cada ano. Existe um foco grande em descarbonização, e a agricultura regenerativa não é um fim em si mesma”, analisou o diretor geral da ITMF.
Essa constatação de que práticas regenerativas fazem parte do dia-a-dia dos cotonicultores brasileiros também foi citada por Nick Weatherill, CEO da Better Cotton, maior certificadora mundial do mercado de algodão. Em sua primeira missão internacional após assumir o cargo, ele observou o cuidado dos brasileiros com o solo.
“Há uma grande preocupação com a saúde do solo. Os produtores fazem rotação de culturas e investem em plantas de cobertura. São práticas benéficas tanto para o solo quanto para a produtividade agrícola. Isso mostra que a sustentabilidade está no mindset produtivo e comercial do produtor brasileiro”, afirmou Weatherill.
A coexistência de diferentes gerações de cotonicultores nas fazendas visitadas também chamou a atenção do CEO da Better Cotton. “É esse tipo de dinamismo que esperamos encontrar em campo. Uma espécie de espírito pioneiro e otimismo que vai atrás de inovações e soluções para os desafios que ainda precisam ser superados em termos de sustentabilidade”, pontuou o executivo.
O uso de tecnologia para o aproveitamento máximo dos recursos naturais é um dos caminhos a serem seguidos. “O sistema de irrigação complementar é um novo conceito para mim e faz muito mais sentido”, exemplificou Weatherill. Ele se referiu ao sensoriamento remoto usado na irrigação, que permite o aproveitamento máximo da água da chuva e indica o momento, o local e quantidade necessária de água irrigada para garantir o desenvolvimento ideal das plantas.
A presença de grandes áreas de preservação ambiental nas fazendas, mantidas pelos cotonicultores com recursos próprios e sem subsídios, também foi um aspecto destacado por vários participantes. “Fiquei otimista em ver grandes áreas de ecossistema natural protegidas e conservadas. É disso que precisamos: que o ecossistema natural e o sistema agrícola possam existir em harmonia, um ao lado do outro”, observou o CEO da Better Cotton.
Cotton Brazil. A missão “Brazilian Cotton Dialogues” é uma das iniciativas do Cotton Brazil, programa da Abrapa que promove em escala global o algodão brasileiro. O programa é realizado em parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) e recebe apoio da Associação Nacional de Exportadores de Algodão (Anea).
https://abrapa.com.br/2025/07/28/onde-a-produtividade-se-harmoniza-...