Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XII

Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XII

De olho na inovação, a grife italiana introduz a seda no universo dos ternos, mas sem perder a elegância.

Por Fabrícia PEIXOTO, de Milão

Quando a música sobe e a luz se acende, o terno que surge na passarela está longe de fazer o estilo “clássico Wall Street”. O corte ainda é sóbrio, mas o tecido chama a atenção: em vez de lã ou linho, quem domina a coleção é o brilho da seda. A paleta de cores impressiona, com paletós cáquis e azuis dividindo espaço com peças lilás e brancas. Alguém pode argumentar que coleções de passarela são assim mesmo, impactantes e nem sempre usáveis – mas o fato é que a mensagem principal está ali. E na medida em que os últimos modelos vão deixando a passarela em Milão, o recado da Ermenegildo Zegna, a dona da festa, fica claro: a grife italiana, ícone da moda tradicional masculina, rejuvenesceu. 

 
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“Sim, queremos parecer mais jovens, isso é certo”, diz Ermenegildo “Gildo” Zegna, neto do fundador e CEO do grupo, à DINHEIRO. “Na verdade, é uma coisa que os homens querem. Por que não deveriam?” Enquanto os jornais daquele dia de verão especulavam se a Itália seria também dragada pela crise econômica, o empresário transmitia uma serenidade fora do comum. Os números, de fato, estão a seu favor: no ano passado, as vendas da Zegna cresceram 17%, chegando a € 1,12 bilhão, gerando um lucro de € 115 milhões (o que deu direito a um bônus de € 1 mil a cada um dos sete mil funcionários da Ermenegildo Zegna). Em uma tradução livre, isso significa que muita gente ainda está comprando ternos a partir de US$ 3 mil, a despeito das incertezas econômicas. 
 
Praticamente a metade desses consumidores está na China, mas mercados como Rússia e Brasil também têm contribuído para atenuar as perdas na Europa. Aqui, a marca vendeu 10% a mais em 2011 do que no ano anterior, mesmo com preços que chegam a ser o dobro do praticado nos mercados europeu e americano. Esse crescimento justificou a abertura da sexta loja própria da grife no Brasil: com 250 metros quadrados, o ponto no shopping JK Iguatemi, em São Paulo, é o primeiro da América Latina a seguir o conceito criado pelo arquiteto Peter Marino para as principais flagships da marca. Outras duas lojas estão na prancheta, uma no Rio de Janeiro e outra em Curitiba. “Não há outra forma de manter todos esses consumidores se não houver inovação”, afirma Zegna. A inserção de um tecido brilhoso como a seda nas últimas duas coleções de verão segue esse raciocínio. 
 
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Zegna paulista: a nova loja da grife, no Shopping JK Iguatemi, em São Paulo, é a primeira
da América Latina a ser construída com o conceito de flagship internacional.
As vendas no País cresceram 10% no ano passado.
 
O que faz sentido, sobretudo quando se tem em mente que a Zegna é, antes de mais nada, um dos mais conceituados grupos têxteis do mundo. Até mesmo seus concorrentes, como Armani e Versace, recorrem aos tecidos “by Ermenegildo Zegna”, fabricados há mais de 102 anos na pequena cidade italiana de Trivero, berço da operação. “Para alguns players, a questão está no corte; para outros, está na cor. Para a Zegna, a evolução está no tecido”, resume o executivo. A necessidade de inovar no campo têxtil acaba refletida também na passarela: o resultado são looks modernos, de cores e texturas novas, capazes de manter o frescor da marca – mas sem comprometer a elegância. Ternos de seda podem espantar o cliente de 50 a 60 anos? “Estou vestindo seda agora”, diz Ermenegildo. “É elegante, sexy, casual. Me sinto clássico.” 
 
Quando o grupo ainda era presidido por Angelo Zegna, filho do fundador Ermenegildo, os Zegna já consideravam o jovem Gildo o sucessor natural para liderar os negócios da família. Ao lado da irmã, Anna Zegna, e do primo Angelo Zegna, Gildo é o grande responsável por um império que inclui dez fábricas e 557 lojas em mais de 80 países. Mas se não havia dúvidas sobre a sucessão de Angelo, o mesmo não se pode dizer hoje. Não há, pelo menos entre os Zegna, um nome natural para substituir o atual CEO. Não que Ermenegildo, 57 anos, esteja cogitando a aposentadoria, mas para o mercado, a ausência de um sucessor só faz aumentar as especulações sobre a venda da companhia. Gildo nega. “A empresa tem recursos, não precisa de um sócio-investidor”, diz. “Além disso, queremos continuar independentes.” Quem sabe algum outro Zegna apareça até lá.
 
 
“Até mesmo o consumidor é meu concorrente”
 
Neto do fundador, o CEO do grupo Ermenegildo Zegna recebeu a DINHEIRO em seu escritório, em Milão, logo após o desfile Primavera-Verão 2013. A seguir, os principais trechos da entrevista:
 
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O CEO "Gildo" Zegna: "Queremos parecer mais jovens, mesmo que muitos
de nossos clientes sejam homens de 50 a 60 anos".
 
Um paletó em seda é, sem dúvida, bem mais fresco do que o de lã ou mesmo o de linho. Essa é uma estratégia para agradar mais os chineses, seus grandes clientes hoje?
Não, não criamos essa coleção por causa da China. Realmente, apostamos na seda como a “cashmere” do verão, independentemente do mercado. O tecido é brilhante, é luxuoso, é fluido, é sexy.
 
Os resultados da empresa vão bem, apesar da crise. A turbulência não preocupa?
O inesperado sempre preocupa, mas, para nós, as  coisas não estão tão más. Quando você olha para os jornais, dá vontade de chorar. Mas o fato é que os resultados positivos em países como China, Rússia e Brasil estão compensando a queda nas vendas na Europa. Na China, esse crescimento foi de 30%. No Brasil, 10%.
 
Quem é o grande competidor da Zegna hoje?
Para mim, todos são meus competidores, eles estão por toda parte. Minha tese é de que até o consumidor é meu concorrente, mesmo fora do nosso nicho.
 
O consumidor?
Sim, nós competimos com ele, de certa forma. Se o consumidor decide gastar com a reforma do jardim, por exemplo, ele já tende a gastar menos com outras coisas, como em roupas. É claro que temos os concorrentes tradicionais, mas, mesmo esses, tendem a mudar com o tempo. Inclusive, um dos desafios é antecipar quem serão eles, no futuro.
 
Muitas marcas no mercado de luxo estão diversificando para acessórios, perfumes, etc., ao mesmo tempo em que tentam parecer mais “jovens”. Esse tende a ser o caminho também para a Zegna?
É claro que, quando você projeta a imagem de uma marca, a ideia é torná-la mais jovem, atualizada. Sim, queremos parecer mais jovens, isso é certo. Essa é uma estratégia que segue lado a lado com a inovação, mesmo que muitos de nossos clientes sejam homens de 50 a 60 anos. Eles também querem parecer cada vez mais jovens. Por que não deveriam?
 
Em outras palavras, os homens estão mais vaidosos?
Eu diria que os homens têm adotado uma postura mais hedonista. Mais do que buscar a aprovação de outras pessoas, eles querem se sentir bem. Acho que isso é mais do que vaidade: faz parte da melhoria da qualidade de vida de homens e mulheres, em diferentes mercados.

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