Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XII

Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XII

Por que a Vicunha está na CSN e na Vale - O começo da crise têxtil.

O que há por trás do interesse do grupo Vicunha, o maior do país na área têxtil, nas privatizações? Surpreende ver o empresário Benjamin Steinbruch, acionista e um dos herdeiros do grupo, liderando com tanta avidez a disputa por negócios como a Vale do Rio Doce e a CSN? Experimente olhar para o foco original dos negócios da Vicunha e você encontrará boa parte das respostas a essas perguntas.

Criado há cerca de 30 anos, o grupo tornou-se o número 1 do setor têxtil brasileiro. Protegido por um mercado trancafiado e imune à concorrência internacional, chegou a ter quase 30 empresas que fabricavam de fios a tecidos e roupas. No final da década de 80, algumas de suas unidades apresentavam uma rentabilidade próxima dos 40%. O problema (seria mesmo um problema?) é que os tempos mudaram.

A Vicunha continua a ser uma potência. Faturou 1,6 bilhão de dólares no ano passado. Mas e os resultados? Em 1996, pela primeira vez na história do grupo, não se ganhou dinheiro. Empresas controladas como a Fibrasil, a Finobrasa e a Lee Nordeste fecharam no prejuízo. Três unidades - entre elas a Vicunha, de São Paulo - foram desativadas. No ano passado, o endividamento do grupo cresceu cerca de 15%. Por que investir na Vale e na CSN? "Aprendemos que é prudente não colocar todos os ovos na mesma cesta", diz Ricardo Steinbruch, 38 anos, irmão de Benjamin e presidente da área têxtil da Vicunha. "Ainda mais quando a cesta é um setor fragilizado como o têxtil. Estamos felizes com a diversificação." Tudo começou em 1993, com a privatização da CSN. À época, o grupo comprou 9,3% da siderúrgica.

A CSN era, então, um ralo de dinheiro. Pouco antes da privatização, perdia 1 milhão de dólares por dia. No ano passado, nas mãos da iniciativa privada, a empresa lucrou 192,6 milhões de dólares. Até o início desta década, os Rabinovich e os Steinbruch nunca haviam desviado seus investimentos da indústria têxtil. Aos 43 anos, Benjamin, primogênito do co-fundador Mendel Steinbruch, não pode ser considerado um especialista em mineração ou em siderurgia. Mas, com seus sócios, viu nesses dois negócios uma oportunidade para escapar do cerco sofrido pela indústria têxtil brasileira.

Desde a abertura, o setor vem sendo impiedosamente atacado pela concorrência internacional, principalmente pelos asiáticos. Analise: Segundo a Associação Brasileira da Indústria Têxtil, Abit, nos últimos seis anos mais de 1 200 empresas desapareceram. De 1992 a 1996, as exportações de produtos têxteis caíram 13,3% enquanto as importações cresceram 329%. Desde a abertura, a produção nacional de tecidos caiu 12,7%. Nos últimos anos, alguns dos maiores negócios do grupo Vicunha passaram a ser diretamente atacados pelos asiáticos. A Tecelagem Elizabeth, sediada em Americana, no interior de São Paulo, é um exemplo. Em 1989, a Elizabeth foi a melhor empresa do ano de MELHORES E MAIORES, de EXAME. Sua rentabilidade naquele ano chegou a quase 40% sobre o faturamento.

O lucro bateu nos 60 milhões de dólares. À época, a produção anual de tecidos era de 2,8 milhões de metros. De lá para cá, caiu pela metade. Motivo: a Vicunha não vem conseguindo disputar o mercado de tecidos sintéticos com os asiáticos. Os preços chegam a ser 30% mais baixos. Muitos clientes passaram a fazer suas compras lá fora. A Vila Romana, maior confecção de roupas masculinas do país, já foi uma das maiores clientes do grupo. Hoje, compra apenas índigo da Vicunha. Mais de 80% de suas compras de tecidos são feitos no Mercosul, na Europa ou na Ásia. "Lá fora, conseguimos encontrar produtos de qualidade com preços mais baixos e prazos maiores de pagamento", diz Roberto Perez, presidente da Vila Romana.

Nos últimos anos, ninguém correu mais atrás de modernização do que os asiáticos. De acordo com a International Textile Manufactures Federation, entidade baseada na Suíça, a Ásia foi responsável por 55,1% das importações de teares de última geração entre 1990 e 1994. A maior parte deles foi parar na Coréia. São máquinas com índices altíssimos de produtividade. É necessário apenas um funcionário para monitorar 25 teares. "Será dificílimo daqui para a frente competir com os asiáticos nos tecidos sintéticos", diz o carioca Vicente Bastos Ribeiro, consultor da área têxtil. No setor de confecções (onde a Vicunha ainda atua), a situação não é muito diferente. Dependente de mão-de-obra intensiva, a indústria de confecções é feita sob medida para países pobres. Na China, um dos grandes concorrentes mundiais nesse mercado, o salário médio de uma costureira gira em torno dos 30 dólares mensais. No Brasil, é pelo menos 10 vezes maior. "Hoje, países como a Alemanha fabricam o tecido, desenvolvem modelos e mandam os cortes para ser costurados no norte da África ou na Ásia", diz o consultor Bastos. "A importação de confecções é ainda pior que a de tecidos", diz Ricardo. "Sozinha, ela é capaz de quebrar todos os elos da cadeia. Muitos de nossos clientes foram para o beleléu após a abertura." O setor têxtil e os negócios do grupo Vicunha nessa área estão com os dias contados? A melhor resposta talvez seja: depende.

"A indústria têxtil brasileira terá de encontrar suas vocações para ser competitiva em nível internacional", diz Gilberto Dupas, do Instituto de Estudos Avançados da USP. É o que o grupo Vicunha vem tentando fazer. Há cerca de um ano, os Rabinovich e os Steinbruch iniciaram a maior reestruturação já enfrentada por suas empresas. Nos últimos meses, 6 000 dos 30 000 funcionários do grupo foram demitidos. Das quase 30 empresas em operação, restaram 11. "Estamos consolidando nossas operações", diz Ricardo. A Tecelagem Elizabeth incorporou duas outras operações menores. Aos poucos, as operações baseadas em São Paulo estão migrando para o Nordeste e o Centro-Oeste do país. Com o movimento, a Vicunha busca incentivos fiscais e mão-de-obra mais barata. Segundo dados da Abit, o salário médio de um tecelão no Nordeste é cerca de metade do pago em São Paulo. O grupo também está tentando sair da mira dos asiáticos mudando seu mix de produtos. Atualmente, seu melhor negócio é a Vicunha Nordeste, fabricante de índigo e brim com sede em Maracanaú, no Ceará. Em 1996, a empresa faturou 364 milhões de dólares e lucrou 15,3 milhões. Há alguns meses, entrou em operação a Elizabeth Nordeste, produtora de tecidos de algodão de alta qualidade, um mercado ainda pouco explorado pelos asiáticos. No ano passado, o grupo colocou cerca de 100 milhões de dólares em suas empresas do setor têxtil. Este ano, outros 80 milhões de dólares devem ser investidos. "Acreditamos na indústria têxtil, vamos continuar nela e estamos trabalhando para que esse negócio cresça", diz Ricardo.

http://exame.abril.com.br/revista-exame/noticias/por-que-a-vicunha-...

Publicada em 04/06/1997

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 Protegido por um mercado trancafiado e imune à concorrência internacional, chegou a ter quase 30 empresas que fabricavam de fios a tecidos e roupas.

  Desde a abertura, o setor vem sendo impiedosamente atacado pela concorrência internacional, principalmente pelos asiáticos.

"A importação de confecções é ainda pior que a de tecidos", diz Ricardo. "Sozinha, ela é capaz de quebrar todos os elos da cadeia

A diferenca entre Ricardo e seu maior openente na area Textil, eh que Ricardo esta focado em seu negocio e nao procurando cabides politicos e posicoes eletivas favoraveis. Ricardo eh vocacionado ao negocio - e nao um oportunista.

Depois de ler esta matéria e de saber que o pais esta as vésperas da eleição para presidente, lanço a pergunta Onde esta o governo que deixa fechar varias filiais do grupo  e demitir 20 % de seus funcionários, sendo ela uma das maiores empresas do setor têxtil brasileiro. Será mesmo que o PT se preocupa com a situação e o mercado têxtil?

Vários incentivos já poderiam estar a caminho. O que nos tira da concorrência internacional e o famoso custo Brasil, onde toda a cadeia esta honerada e com seus custos absurdos fora da realidade.

Estas empresas poderiam ainda ter benefícios na importação de teares mais modernos e menos horeraçao em sua folha de pagamento. Além disso, deveríamos proteger nosso mercado interno aumentando as alíquotas de importação para produtos já confeccionados, principalmente os importados da China.

Se pararmos para pensar existem varias soluções para nossas industrias nacionais e toda sua cadeia têxtil. O que falta e a boa vontade de nosso governo ajudar seu próprio pais !!!  

Reportagem de 17 anos atrás ... Só piorou ...

Parabens Nelson. Creio que só vc atentou para a data.

Parabens mesmo Nelson. Este numero falou MUITO alto.

É... realmente eu já tinha lido essa reportagem anos atrás, quando ainda não era VAGABUNDO (aposentado) e  tinha orgulho de ser um pequeno batalhador pela indústria têxtil brasileira. Pernambuco + Alagoas + Sergipe, já tiveram um Parque Têxtil com 42 industrias têxteis de peso, hoje Pernambuco só tem uma : Tavex (ex Santista Nordeste). O Ceará e Rio Grande do Norte, vão no mesmo caminho. Sergipe é uma supreendente exceção : possui ainda 4 empresas tradicionais de porte, todas MODERNAS (nenhuma de índigo) que sobrevivem graças a garra e competência de seus dirigentes e também da sua equipe de técnicos têxteis...   

O colega Barbosa realmente é um grande conhecedor da região ... Muito boa as considerações ... Mas muito mal a situação atual ...

Nos últimos anos, ninguém correu mais atrás de modernização do que os asiáticos. De acordo com a International Textile Manufactures Federation, entidade baseada na Suíça, a Ásia foi responsável por 55,1% das importações de teares de última geração entre 1990 e 1994.

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