Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XVI

Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XVI

Falta de profissionais qualificados prejudica setor e impacta na competitividade nacional

 

A previsão de crescimento da economia brasileira em 2014 caiu de 1,79% para 1,67%, segundo dados da pesquisa Focus, do Banco Central. No entanto, não importam os índices econômicos. Com o cenário favorável ou não, viramos reféns de nosso despreparo profissional e isso prejudica, e muito, o avanço da competitividade brasileira. O fato é que a capacidade produtiva nacional está muito aquém do que seria satisfatório para enfrentarmos o mercado internacional. Uma das razões disso é a falta de mão de obra qualificada em vários setores, incluindo a indústria do vestuário. Segundo pesquisa feita pela Confederação Nacional das Indústrias (CNI) em 2011, a falta de trabalhador qualificado alcança 26 setores. O segmento do vestuário está entre os primeiros do ranking. Os números mostram que 84% das empresas dessa área encontram dificuldades de crescimento devido à escassez de mão de obra. Embora a pesquisa tenha sido feita há quase três anos, nada mudou de lá para cá. Kelly Sanches, gerente de atendimento coletivo da indústria no Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), confirma essa realidade. “De fato, a indústria da moda registrou crescente carência de mão de obra especializada. Um dos motivos é que, com a democratização da informação, os jovens migraram para outras áreas, mais voltadas à tecnologia e menos artesanais, como é o caso de modelistas e costureiras”, afirma Kelly.

 

Foto: Rodrigo de Oliveira

Legenda: Kelly Sanches, gerente de atendimento coletivo da indústria no Sebrae

 

O pesquisador e consultor do Centro de Tecnologia da Indústria Química e Têxtil do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai/Cetiqt) Flavio da Silveira revela quais são os cargos mais difíceis de preencher nesse mercado. “Além das costureiras industriais e dos profissionais especializados em qualidade, percebemos também que faltam pessoas para avaliar os impactos socioambientais de fabricação dos produtos. Esse aspecto se torna mais relevante à medida que a produção é pulverizada entre diferentes fornecedores”, revela Silveira. Localizado no Rio de Janeiro (RJ), o Senai/Cetiqt fez uma análise local sobre a perda de profissionais em 2013. “As ocupações caíram. Houve redução de mais de mil postos de trabalho de costureiras, mas houve também diminuição em cargos de supervisão, inspeção, técnicos de produção e planejamento”, informa Leonardo Mendes, diretor técnico do Senai/Cetiqt. Segundo ele, a carência de costureiras é reflexo de uma profunda alteração na estrutura social e não apenas nas mudanças introduzidas pela globalização. “O Rio, assim como outras grandes cidades, oferece alternativas profissionais mais amplas. Estimulados pela ascensão social e pela valorização, os jovens almejam crescimento e isso significa que as atividades que não ofereçam essa possibilidade tendem a desaparecer”, ressalta o diretor. No entanto, Leonardo lembra que nem tudo está perdido. “A saída é inovar em modelos de negócio. Nesta nova indústria da moda, temas como produção sustentável, biodiversidade, valorização sociocultural, entre outras áreas antes ignoradas, agora influem na capacidade das empresas de produzir novos produtos. Essa transformação trouxe novas perspectivas. Por isso trabalhamos muito para estimular os novos empreendedores a criar modelos mais modernos de confecção”, acrescenta Leonardo Mendes.

 

Foto: Divulgação

Legenda: Leonardo Mendes, diretor técnico do Senai/Cetiqt

 

Em Minas Gerais, a percepção não é diferente. O estado, que possui 11.263 empresas do setor, gera hoje 150 mil postos de trabalho. “Enfrentamos no Brasil inteiro uma grande dificuldade de qualificação profissional. O setor produtivo é onde temos mais dificuldades. Faltam costureiras, cortadores e modelistas”, declara Jorge Peixoto, diretor do Senai Modatec Belo Horizonte. Para ele, o problema também se deve à falta de renovação. “A indústria ficou muito tempo estagnada. Hoje, são necessárias pessoas polivalentes. O cargo de modelista é um exemplo disso. No passado, o conhecimento de modelagem era suficiente. Hoje, esse profissional precisa ter também habilidades de costura, conhecimento produtivo, além de estar atualizado com as novas tecnologias. Faltam colaboradores com esse perfil”, constata. O diretor do Senai Modatec aponta ainda caminhos para melhorar esse quadro. “Em Minas Gerais, as confecções passaram a investir mais em tecnologia. Outro recurso adotado foi aproximar as escolas técnicas e acadêmicas das indústrias. Trabalhamos sempre em consonância com a indústria, pois acreditamos que a vivência de situações reais prepara melhor nossos alunos para o mercado profissional”, completa.

 

Foto: Divulgação

Legenda: Jorge Peixoto, diretor do Senai Modatec

 

SALÁRIOS BAIXOS AFASTAM COSTUREIRAS

 

É impossível abordar esse tema sem falar na remuneração dos profissionais. Bárbara Mendonça, professora do núcleo de modelagem da escola de moda Sigbol Fashion, garante que o fator financeiro está intimamente ligado com a falta de interesse na área produtiva. “Falta mão de obra por causa da baixa remuneração. Notamos mais costureiras e modelistas trabalhando em casa como autônomas do que se propondo a ter uma jornada nas indústrias, pois o lucro chega a ser maior dessa forma. Além disso, a maioria são mulheres e mães. Por isso, muitas optam por trabalhar em casa para poder cuidar dos filhos. Para reverter essa situação, é fundamental oferecer uma remuneração justa, ou seja, condizente com a jornada de trabalho”, explica. Andreia de Araujo, que também é professora na mesma instituição, lembra que para quem é mais qualificado as chances são melhores. “A média salarial varia muito. Pode ir de R$ 1 mil a R$ 20 mil, o que define é o conhecimento técnico do profissional. As expectativas são boas desde que a pessoa procure se atualizar sempre. Com mais preparo, é possível obter uma média salarial maior, mesmo para aqueles que estão na base da produção”, destaca.

 

Foto: Divulgação

Legenda: Andreia de Araujo e Bárbara Mendonça, professoras da Sigbol

 

SOLUÇÕES: AUTOMATIZAÇÃO E TREINAMENTO

 

Substituir o ser humano pela máquina ajuda? Especializada na produção de equipamentos de automação, a empresa Sociotec garante que sim. A empresa oferece às confecções produtos que podem ajudar na fabricação das peças sem precisar onerar a folha de pagamento. “Nossas máquinas são automatizadas, o que aumenta não só a produtividade, mas também o padrão de qualidade das peças. A máquina pregadora de bolso traseiro, por exemplo, consegue pregar 2 mil bolsos traseiros em mil peças jeans num período de oito horas de trabalho. Para isso, o operador da máquina não precisa ter formação específica. Se esse trabalho fosse feito em máquinas de costura convencionais, essa mesma produção demandaria, em média, cinco costureiras”, calcula José Carlos Filho, diretor comercial da companhia.

 

Foto: Divulgação

Legenda:  Sociotec oferece máquina que prega 2 mil bolsos em oito horas

 

César Augusto, diretor da confecção Lira Rosa, diz como tenta driblar a dificuldade de encontrar profissionais. “A escassez de profissionais nesta cadeia produtiva é alarmante. Quando encontramos, o desinteresse e a falta de comprometimento logo aparecem. No entanto, tentamos resolver essa deficiência promovendo treinamentos internos que preparam o trabalhador para atender nossas necessidades. Assim, temos conseguido fabricar as peças”, enfatiza César. Treinamento interno é mesmo o caminho recomendado para suprir a carência de funcionários. Para ajudar vários empresários nesse quesito, o Sebrae/SP lançou em 2012 o projeto Confecção Competitiva. O objetivo é desenvolver o segmento da indústria de confecção de Marília e região por meio de ações de gestão empresarial, mercado, empreendedorismo, tecnologia e inovação. Atualmente, existem cerca de 292 empresas do setor na região. O projeto que começou a valer oficialmente este ano terá a duração de dois anos. “Até o momento, temos cerca de 34 adesões, contemplando os municípios de Marília, Garça, Pompeia, Assis, Cândido Mota e Tupã. As ações do Sebrae/SP e dos demais parceiros do projeto visam sobretudo proporcionar aos empresários a melhoria da competitividade”, esclarece Adriana Ramalho, consultora de projetos do Sebrae em Marília.

 

Foto: Divulgação

Legenda: César Augusto, diretor da Lira Rosa

 

O aumento da capacidade produtiva proposto pelo projeto é monitorado de perto pelo Sebrae. “Acompanhamos a evolução e os resultados da empresa por meio da metodologia Gestão Estratégica Orientada para Resultados (Geor). Nesse projeto, temos o indicador de faturamento, que mostra esse aumento com projeções de 10% até dezembro de 2014 e de 15% até dezembro de 2015, além do indicador de produtividade, cuja intenção é aumentar em 5% a produtividade das empresas até dezembro de 2014 e chegar a 10% até dezembro de 2015”, detalha Adriana.

Uma das empresárias que já aderiram ao programa é Noemia Kuga, da Jully Malhas Confecções. “O projeto representa a oportunidade de alavancar nosso crescimento. Assim, corremos riscos menores e conquistamos chances maiores de desenvolvimento”, relata. Outra empresa de Marília que também integra o projeto é a Redarjho’s Confecções, especializada na produção de moda praia e fitness. “Sempre tivemos grande dificuldade em contratar profissionais da área, especialmente para trabalhar com as galoneiras, fundamentais para o beachwear. Isso nos motivou a entrar no projeto do Sebrae. Sabemos que ele pode nos ajudar. Precisamos não só desse apoio como também de incentivos fiscais para pagar menos impostos. Só assim é possível aprimorar a mão de obra, oferecendo

cursos. Temos ainda que incentivar os jovens, pois hoje a faixa etária das costureiras está acima dos 37 anos. Senão motivarmos os novatos, quem vai trabalhar no futuro?”, indaga Angela Pollon, diretora de produção da empresa. Para saber mais sobre o projeto Confecção Competitiva, acesse www.sebraesp.com.br.

 

Foto: Divulgação

Legenda: Adriana Ramalho, consultora de projetos do Sebrae/SP

 

http://www.costuraperfeita.com.br/edicao/25/materia/negocios.html

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Não li tudo só a parte da Kelli(Sebrae),e ja foi muito , vejo que há um erro de principio e de gerenciamento de problemas ou será que o SEBRAE não sabe destas coisas? Sabem porque não há disponibilidade de costureiras?? ' Sabem quanto ganha uma com dois filhos, "salario familia/filho/e oque o valha" ??? E sabem que se forem registradas estas mulheres, deixam de receber estes malditos salarios ?? Penduricalhos eleitoreiros, acorchantes, depravados, insultantes de nossas inteligencias ?? Sabem que muitas destas mulheres tem emprego em empresas ou nos fundos de quintal, sem registro e não são consideradas "ESCRAVAS"?? Porque não são BOLIVIANAS, mas tem empregos sem carteira, mas quem liga pra isto? São brasileiras, tem muitas confecções. que as empregam sim, e são NECESSARIAS SIM< então ??

Bom, menos mau. Tem mais gente se preocupando com o problema. É o segundo artigo da Costura Perfeita sobre o tema. O primeiro foi em janeiro de 2.013, quando enviamos a eles cópia de nosso artigo:  http/www.sjconsultores.com.br/site/costureira-profissao-em-extincao

O Alfredo Cardoso abordou bem uma das razões da escassez de profissionais: O salário. Falo uma, porque existem outras de vital importância: Não há técnicos, professores, para treinar novos profissionais. Não há professores para treinar estes técnicos, não há escolas para formar professores. Verifiquem quantas escolas têm no Brasil, para formar estilistas ou design's de moda. Quantos formadores de técnicos em produção de moda? Não existem técnicos nem para programar as máquinas eletrônicas que acabam funcionando como exclusivamente cortadoras de linha. Nossos empresários de micro e pequenas empresas brasileiras precisam entender que uma produção de até 10.000 peças mensais não permite ser competitivo no mercado, razão pela qual não conseguem pagar salários atrativos, porém, os poucos funcionários que aceitam tais salários, por falta de treinamento e capacitação (em razão das deficiências já citadas), têm em média 50% de eficiência, o que os faz custarem o dobro do que recebem. Com pequeno investimento em treinamento, poderia-se pagá-los bem melhor e ter um rendimento de 85% a 90%.

Temos que repensar primeiro na sobrevivência deste segmento econômico, pois sem costureiras, não haverá fabricantes de confecções para se preocuparem com o meio ambiente. 

Enquanto não tivermos uma política industrial voltada para o setor de confecções não iremos mudar o rumo atual e a tendência do destino dessa indústria.

A história está recheada de casos de oficinas caseiras (nos fundos de casas ou em alguma dependência) que começaram animadas quando olham o ganho bruto do trabalho inicial e após dois ou três anos desanimam por entender que necessitam de férias, 13º, INSS, FGTS; aliados aos custos da energia e manutenção de máquinas; além das horas de dedicação comparadas com um emprego formal.

Incentivar a criação dessas oficinas já foi, mas hoje não é mais a solução para abaixar os custos da cadeia produtiva e gerar empregos saudáveis.

Temos que voltar o treinamento para a formação de costureiras industriais, e não empreendedores de pequenos negócios - a não ser que queremos a cadeia têxtil nacional restrita ao mercado marginal de pequenos e regionais volumes de produção. A escala de produção  e o valor agregado aos produtos são as únicas formas de possibilitar melhores salários para os profissionais. Por isso necessitamos de política industrial de âmbito nacional para o setor, voltada para a geração de valor nos produtos, para uma moda nacional e para a exportação.

A continuar a escassez, os salários só irão aumentar e tornarão, mais ainda ,inviáveis os custos de produção internos, levando ao estrangulamento da indústria de confecções nacional.

Desde 1990, quando iniciamos o processo de terceirização da produção e as marcas focaram seus negócios no varejo, há uma descapitalização da indústria de confecções. A falta de uma política e da visão de empresários que enxergaram nessa terceirização somente um fator para redução de custos e "leilões" de mão-de-obra nos trouxe até essa situação. Agora ou corrigimos o destino, ou veremos o surgimento de uma indústria nacional com volumes e mercados marginais.

Quem souber onde há debates sobre o quadro atual e a busca de soluções para o setor , por favor divulgue como participar.


Parece óbvio que a indústria de confecção escoa a produção do setor têxtil voltado para o vestuário, mas não tenho visto a discussão do tema por esse ângulo. É uma questão estratégica o apoio deste setor não apenas como fornecedor, mas entendendo e se envolvendo com a visão da confecção como parte do todo. Se a indústria de confecção não vai bem vamos exportar tecidos em larga escala? essa não é a realidade da indústria no nosso país. Não estamos carecendo de uma visão e ação em conjunto, além de politicas governamentais que só podemos esperar, apesar das pressões?

Substituir o ser humano pela máquina ajuda? Especializada na produção de equipamentos de automação, a empresa Sociotec garante que sim.

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