Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XIV

Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XIV

Setor Têxtil Aposta Suas Fichas nas Salvaguardas - Fábio Beretta

Casa contrário, o futuro do segmento será ainda mais sombrio, avalia o presidente do Sinditec

Walter Bartels e Beretta Rossi se aprofundam nas causas da crise do setor têxtil e apontam soluções

O futuro do setor têxtil é sombrio. Mas os empresários estão apostando todas duas fichas nas salvaguardas, medidas de proteção da indústria nacional contra a concorrência predatória dos produtos chineses. Os empresários do setor esperam uma decisão neste ano. O setor têxtil vai entrar com o pedido de salvaguarda para o setor vestuário como um teste, mostrando quantos empregos serão gerados no setor de vestuário com esse pedido.

As medidas a ser adotadas para conter a enxurrada de produtos chineses e a problemática vivenciada pelo setor foram abordados pelo presidente do Sinditec (Sindicato das Indústrias de Tecelagens de Americana, Nova Odessa, Santa Bárbara d´Oeste e Sumaré), no Jornal da Notícia da última terça-feira, comandado por Walter Bartels e Edmilson Barbosa, o Magrão.

O pedido de salvaguarda será feito por tudo o que a China tem feito ao Brasil, destruindo o setor têxtil do país. Contudo, a implementação depende do governo Federal. Enquanto isso não ocorre, o setor têxtil e de vestuário sofre com a concorrência desleal dos produtos chineses.

A presidente Dilma Rousseff (PT), em pronunciamento que fez sobre o setor têxtil, mostrou simpatia e conhecimento sobre o trabalho de uma costureira, perfil de uma mulher madura e arrimo de família dentro de uma confeccção, em casa ou até mesmo em dupla jornada para sustentar os filhos.

Também acredita que com a comprovação do setor têxtil do número de empregos que podem ser gerados nas confecções, com as medidas protetivas, os empresários conseguirão essas salvaguardas para toda a cadeia produtiva têxtil, desde engomagem, tinturaria e fiação.

SURDO

Parece que as autoridades do governo Federal não escutam os apelos da indústria têxtil. "Tem ouvido, mas tem se feito de surdo", disse Beretta. Segundo o presidente, a luta dos últimos anos parece que não surtiu o efeito esperado. Agora que o governo constatou que os índices das indústrias, com o déficit da balança comercial de manufaturados aumenta a cada dia, parece que, agora, o governo vai começar a estudar medidas para contemplar o setor têxtil, como a desoneração da folha de pagamento e talvez até salvaguardas para produtos de vestuário, que atinge toda a cadeia do vestuário.

Mas as medidas não atenderiam ainda a cadeia têxtil, que abrange desde a preparação das fibras até os tecidos. O vestuário abrange a cadeia a partir das confecções. "Isso é o que o governo pretende dar uma pequena proteção neste ano ainda".

DEFASAGEM


Segundo números do governo, as exportações em Americana no ano passado caíram 42%. "Como uma cidade industrial, vai caindo a cada ano. Nós perdemos a competitividade a cada dia, pois o dólar, embora nesse início de ano está estabilizado, os custos industriais,  os custos operacionais de qualquer empresa estabelecida no Brasil ela aumenta dia a dia", explicou Beretta.

Enquanto a cotação do dólar está em R$ 1,81, esse dólar é o mesmo de fevereiro ou março de 1999. "Portanto, trabalhamos hoje com um dólar defasado em 13 anos. Nesse período, nossos aumentos salariais foram da ordem de 200%, sem contar o custo da energia elétrica para todo o País que foi de quase 300%, mas precisamente, 282% ", disse Beretta.

A defasagem do dólar está na faixa de 200%, disse Beretta. Hoje, o dólar deveria custar, só pelos custos industriais, em torno de R$ 4,80 a R$ 5. Está praticamente a um terço do seu preço. " Isso não há economia industrial no mundo que resista", desabafa.

DESINDUSTRIALIZAÇÃO

Embora o setor reclame da falta de apoio governamental contra uma proteção, no mundo existem países que vacilam e permitam a entrada de produtos asiáticos, principalmente da China, destruindo sua própria indústria.

No Brasil ainda há o agravante do incentivo do ICMS (Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) na Importação praticado pelos estados de Santa Catarina e Espírito Santos. Esses estados dão incentivos na hora do desembaraço aduaneiro. Então, todas as empresas importadoras importam por esses dois Estados.

Em vez de pagar ICMS de 12%, os importadores pagam 3%. Esse incentivo é para todas as indústrias, mas a indústria manufatureira é a mais prejudicada. Quando chega no porto produto pronto, confeccção, tecido, calçado ou brinquedo, a indústria nacional perde a competitividade. 

"É um incentivo de um governo estadual destruindo a própria indústria nacional", acusou o presidente. E isso os especialistas e economistas consideram até um crime de lesa pátria, porque só o Brasil que faz isso entre as 200 nações do mundo.

Para se ter uma ideia do ponto em que se chegou a importação, Bartels citou dados divulgados nesta semana que demonstram que a cada cinco produtos comprados no Brasil, um é importado. Ou seja, 20% dos produtos no Brasil são importados. Isso no geral. Mas no caso de manufaturas, bem lembrou Beretta, a proporção está acima disso. 

DESEMPREGO

E esse reflexo da perda de competitividade em Americana, uma cidade industrial, berço da indústria têxtil nacional, pode ser notado na empregabilidade. No ano passado, em 2011, a cidade gerou, no geral, 900 empregos negativos. E, neste ano, a cidade já começa o ano com o saldo de empregos (diferença entre contratações e demissões) negativo.

Americana está com o mesmo número de pessoas empregadas, com registro em carteira, de 18 e 24 meses atrás. Ou seja, a cidade está há quase dois anos sem gerar empregos na indústria, comércio e setor de prestação de serviços. Com o agravante que o posto do Ministério do Trabalho emitiu nesse período quase 2,5 mil carteiras de trabalho.

"Isso ai já vai tendo um reflexo da desindustrialização. O que custa para nossa população, para nossa região, até para o país, a desindustrialização".

DIZIMADA


Diante de um cenário tão nebuloso, o presidente do Sinditec disse que o governo Federal não poderia fazer nada específico para a região, mas como um todo. E que a região seria a mais favorecida. "A indústria fora da nossa região têxtil foi praticamente dizimada, porque são indústrias, assim, isoladas, seriam como um polo, com indústrias verticalizadas, como no polo petroquímico de Paulínia, onde podemos dizer assim que tem a Esso, tem a Shell, mas uma não olha na cara da outra".

Na região do Polo Têxtil o cenário é bem diferente deste. Disse que a região seria como aqueles antigos clusters ingleses, com fábricas especializadas em fiações, engomagem, torções, retorções, tintutarias, estamparias, acabamentos diversos e principalmente a tecelagem. As indústrias se interligam. Uma depende da outra. Segundo Beretta, isso só existe na região. Com o passar dos anos os empresários perceberam que, mais do que ser uma empresa verticalizada, o importante é esse entrelaÇamento das empresas. Foi o que sustentou a região até hoje.

MOVIMENTO


Como empresário da indústria têxtil, Edmilson Barbosa, o Magrão, relembrou da manifestação no dia 18 de maio de 1995, que deflagrou o início do movimento têxtil. Segundo Beretta, essa manifestação surtiu um grande efeito. O período era muito similar a época atual, de invasão de importados. Esse data foi marcada no calendário como o Dia Municipal em Defesa da Indústria Têxtil.

A manifestação, que ganhou repercussão internacional, causou a queda da ministra do Desenvolvimento Dorothéa Weneck e a posse do ministro Francisco Dornelles. Em 20 dias Dornelles fez o que o setor precisava, sobretaxa de 70% sobre os produtos importados. As medidas duraram três anos e a Coreia, que recebia subsídios ilegais, na época, como ocorre hoje com a China, que recebe subsídios ilegais para seus produtos de exportação para quebrar a indústria do outro país. Foi a Coreia que acabou quebrando. Em 1997 e 1998 aconteceu com a Coreia o mesmo o que ocorreu recentemente com a Grécia. Na oportunidade, o setor têxtil venceu.

A partir de 2005, quando começou a importação gigantesca da China, o governo brasileiro, acomodado por uma balança comercial, no geral, superavitária, permitiu a entrada desses produtos. E isso foi crescendo até o limite de hoje que está insustentável para toda a indústria produtiva.

COMPARAÇÕES


Magrão tracou o comparativo entre o Brasil e a China. Na China, o câmbio é manipulado para favorecer as exportações; os trabalhadores não têm direito a férias e 13º salário - talvez possa existir nos cartões de visita, como Pequim,  Xangai e outros pontos abertos aos turistas, segundo Beretta.

Na China também não há sindicatos dos trabalhadores atuantes como os existentes na região. "Eu queria saber o que acontece com um dirigente sindical quando pleiteia melhores salários. Via de regra vai parar num paredão", cogitou Beretta. Um trabalhador do setor têxtil da região custa oito vezes mais do que o mesmo trabalhador na China. Os impostos chineses são praticamente inexistentes. Para o setor têxtil e de calçados, que o governo subsidia para destruir as indústrias dos outros países, o imposto é praticamente inexiste. Tem carga tributária negativa.

Beretta ainda mencionou que as grandes obras executadas na China e propagadas pelo regime comunista são similares às propagandas feitas pelo regime militar no Brasil. "Enquanto o povo morria de fome, era inaugurada a ponte Rio Niterói, que era o cartão postal mundial", compara com o período da ditadura militar nacional. Como na China, a pobreza no Brasil não tinha repercussão nos órgãos de imprensa sob censura - com algumas exceções.

Diante de uma diferença tão brutal, é impossível competir com os produtos chineses, admite Beretta. Sem contar que no Brasil os custos ambientais e ecológicos são pesados. Não é contra esses custos. Mas disse que, hoje, para uma tinturaria de tecidos ou fios é mais caro o tratamento dos efluentes - água suja antes de ser jogada no esgoto - do que o tingimento do fio ou tecido. Na China, os efluentes são jogados a céu aberto tanto que está mais do que comprovado que o país oriental é o mais poluído e poluente do mundo.

EXTINÇÃO

Walter Bartels contextualizou que os Estados Unidos adotaram uma política semelhante ao do Brasil há 50 anos. O resultado: foi dizimada a indústria têxtil na América do Norte. Agora, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, tenta repatriar as indústrias americanas instaladas na China e outros países, para gerar empregos nos Estados Unidos, porque a balança comercial está insuportável, com balança comercial sempre negativa e déficit público crescente.

Corremos esse risco? perguntou Bartels. Beretta foi taxativo: o país corre risco de extinção de sua indústria têxtil. Até mesmo países mais tradicionais da Europa, como Espanha, Itália e França hoje pagam as consequência deste desmantelamento da indústria nacional. Nesses países europeus, os governos disponibilizam recursos para investimentos na indústria textil, mas não há interessados em investir. O recado deixado por Beretta: "É perigosíssimo. Quem abre mão da sua indústria, começa a se tornar pobre".

FAVORECIMENTO

Nem Bartels, nem Magrão, nem Beretta entendem porque o governo federal socorre sempre a indústria automobilística e não age com a mesma agilidade no caso da indústria têxtil, a segunda maior empregadora do Brasil. Só no setor têxtil, na cadeia produtiva, são empregados dois milhões de trabalhadores registrados e um milhão de costureiras trabalham nas suas residências. E a indústria automotiva não chega a empregar 400 mil empregados. "O setor têxtil emprega dez vezes mais do que toda a cadeia produtiva automobilística, contando desde as autopeças".

É estranho, confessa, mas é uma tradição. "Quando a indústria automobilística sofre qualquer pressão de países estrangeiros, logicamente já se toma rápida providência, inclusive ao arrepio da lei, como foi o caso desses 35% de IPI. Colocaram um IPI em cima de outro IPI. Acho que isso ai podia ter sido mais planejado. Mas é gritante a diferença do setor automobilístico com os outros setores da economia". Na hora o governo resolveu o problema do setor e o reflexo imediato foi a queda das vendas dos carros importados.

Por mais que a região tenha seus representantes, ainda falta representatividade do setor junto ao governo Federal. Grandes esforços são feitos pelas associações brasileiras, mas os outros setores são mais ouvidos, como o setor metalúrgico. Na avaliação de Beretta, a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e a CNI (Centro Nacional das Indústrias) poderiam ser mais duros com o governo, afinal é a indústria que gera a riqueza. E a indústria é impriscindível para o país e região, ressalta.

COBRANÇAS INDEVIDAS

Se não bastasse o drama enfrentado pelo setor, um outro problema afeta o ramo: a cobrança das mensalidades pelo Sinditêxtil em vez do Sinditec. Beretta esclarece que o Sinditec foi fundado em 1989. A fundação foi contestada na Justiça, mas, em 2000, o Supremo Tribunal Federal concedeu a carta sindical para o setor de tecelagem nas quatro cidades.

O que acontece é que muitos sindicatos verificam as empresas que não pagaram a constribuição e passam a cobrança para empresas terceirizadas comissionadas que enviam cartas até mesmo grosseiras e ameaçadoras para empresas que já pagaram a contribuição para o sindicato de sua cidade.

Por duas vezes o presidente tentou um acordo para evitar a cobrança indevida. Mas no último mês notificou judicialmente a empresa terceirizada que faz a cobrança indevida. Quem recebe as cobranças indevidas deve procurar o Sinditec para entrar judicialmente contra a empresa.

ENTREVISTADO
Fábio Beretta Rossi | É empresário do setor têxtil. É presidente do Sinditec (Sindicato das Indústrias de Tecelagens de Americana, Nova Odessa, Santa Bárbara d´Oeste e Sumaré).




ENTREVISTADOR
Walter Bartels | Nascido em Americana, em 07 de maio de 1949, é diretor de Jornalismo da Rádio Notícia de Americana. É jornalista há mais de 30 anos.
Fonte:|http://www.walterbartels.com/noticia/entrevista/508/22-3-2012-setor...

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Obrigado, Sr.Beretta pela luta em prol de nossa industria textil de Americana e do Brasil. A população precisa conhecer a realidade bizarra da China que está comendo nossos empregos. Já boicoto têxteis chineses a muito tempo. Por que nao começarmos uma campanha de boicote de verdade ?

A todos nao e so a China que tem q ter salvaguardas 

segue outros países.

PERU
BOLÍVIA

Temos que ficar atento as importaçoes texteis destes paises onde outros importadores do brasil  já estao importando e se diz destes paises acima .

atenção.atenção


 

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