Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XII

Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XII

Depois de viver anos dourados durante uma década, o varejo da moda desaba na crise. E o que está ruim pode ficar ainda pior

Tropeço emblemático: escorregada de modelo em desfile da grife Mila Schon exemplifica as dificuldades do setor da moda no Brasil
Tropeço emblemático: escorregada de modelo em desfile da grife Mila Schon exemplifica as dificuldades do setor da moda no Brasil ( foto: Divulgação)

Festas, formaturas, casamentos ou simplesmente se vestir melhor em eventos sociais. Quando mulheres paulistanas precisavam de novos sapatos, um dos lugares mais procurados na cidade de São Paulo era a rede de lojas Shoestock. A empresa de calçados, que chegou a ter quatro lojas e um faturamento de R$ 100 milhões em 2011, recebia três mil clientes por fim de semana em busca de um ou mais modelos dentre as 15 mil opções de pares. No ano passado, no entanto, as vendas caíram para R$ 60 milhões e a levou a encerrar as atividades de maneira abrupta.

Agora, não há qualquer rastro da Shoestock nas redes sociais e até em seu site oficial, que foi extinto. As fachadas das antigas lojas já estão todas apagadas. O fatídico caso da varejista de São Paulo escancara o atual momento pelo qual passa o setor de moda e vestuário no Brasil. Após anos de vendas recordes e clientes sedentos por novidades, diversas empresas não estão conseguindo se sustentar, ou até mesmo sobreviver, diante da turbulência econômica brasileira. O tamanho do problema está estampado nos números divulgados pelo IBGE.

De acordo com dados do instituto, o desempenho do varejo, com queda de 4,3% em 2015, é o pior desde 2001, início da série histórica. O segmento de tecidos, vestuário e calçados caiu 8,6%, atrás apenas de móveis e eletrodomésticos, que recuou 14%. Somada à inflação do período, a perda foi de quase 20%. “Com o crescimento econômico, o setor acabou olhando mais para as finanças das empresas do que para inovações”, diz Carlos Ferreirinha, dono da MCF Consultoria, especializada em varejo e luxo. “A moda é um consumo emocional e os executivos se esqueceram disso.”

Prova do esquecimento das raízes é a situação complicada na qual algumas empresas se encontram. O Grupo GEP, dono de marcas como a Luigi Bertolli e representante da americana GAP no Brasil, entrou com um pedido de recuperação judicial, no início de fevereiro, dando como motivo a diminuição do consumo no Brasil. De fato, caiu. Mas, segundo consultores ouvidos pela DINHEIRO, a má administração foi providencial para o resultado ruim da empresa, que opera 97 lojas no País e apresentou um faturamento de R$ 544 milhões, no ano passado. “Estamos no meio de uma tempestade, mas o barco da GEP já estava afundando antes”, diz uma fonte do setor.

“A empresa está entre as que viviam em cima da informalidade.” Em 2013, cerca de 30 imigrantes bolivianos foram flagrados produzindo roupas da empresa em condições análogas à escravidão. Procurado pela reportagem, o Grupo GEP, por meio de nota, afirmou que está elaborando o plano de pagamento das dívidas e não descarta a venda de marcas. Outra empresa que, segundo consultores, pode estar seguindo caminho parecido com o da GEP é a Valdac, dona de grifes como a Siberian e a Crawford, com mais de 200 lojas e 2 mil funcionários.

Nos últimos meses, a companhia enfrentou problemas com fornecedores, que cobravam valores em débito, e até mesmo com a Receita Federal por conta de problemas fiscais. Segundo o advogado da empresa, Fernando Zilveti, tudo não passou de um descompasso contábil. “Tivemos um problema com um fornecedor, que agiu de má-fé e superfaturou os produtos”, diz Zilveti. “A empresa tem liquidez e os problemas com a receita foram um mal-entendido que a Justiça já nos deu causa ganha.” Por e-mail, o empresário Dácio Oliveira, controlador do grupo, negou qualquer tipo problema financeiro e não quis entrar em detalhes.

No início da década, puxados pelo estado de otimismo e crescimento em ritmo chinês do Brasil, diversos investidores buscavam a melhor oportunidade de investir no mercado de moda local. “Na época, levei diversas propostas de compra para grandes players que hoje estão em dificuldade”, afirma Douglas Carvalho, sócio da Target Advisor, consultoria de fusões e aquisições especializada em varejo. “Empolgadas com o momento, elas não quiseram nem conversar.” Agora, está difícil achar interessados.

Grifes internacionais, que se acotovelavam para ganhar vitrines no Brasil, perderam o interesse em aportar dinheiro por aqui. De acordo com Wagner D’Almeida, sócio da Global Franchise, especializada em atender marcas americanas de olho no mercado brasileiro, empresas como Aeropostale e Bebe, de moda jovem e feminina, respectivamente, desistiram de abrir lojas no País. “Todas estão em compasso de espera por conta do atual momento turbulento”, diz D’Almeida. Mais do que nunca precisando de investimentos e sem parceiros à vista, algumas companhias vêm se redesenhando para aguentar o tranco. É o caso da grife Iódice.

Como até agora não encontrou alguém disposto a enfrentar a crise junto com ela e diante de uma queda 5,6% nas vendas de 2015, o presidente Adriano Iódice teve de usar a tesoura. Demitiu 30% dos quase 300 funcionários que mantinha diretamente. Também ficou sem abrir nenhuma unidade no ano passado, algo que pode se repetir em 2016. “A crise nos permitiu fazer um bom enxugamento que nos deixou até mais eficientes”, diz Iódice. “Mas queremos um parceiro para selar um bom casamento.” Enquanto algumas tentam vender os anéis, outras começam a se desfazer deles.

A Inbrands, maior grupo de moda do Brasil, dona de grifes como a Ellus e a Richards, aos poucos, vem diminuindo a penetração de marcas como Mandi e Alexandre Herchcovitch. Ambas foram retiradas de dezenas de lojas multimarcas. No terceiro trimestre (último dado divulgado), o faturamento da Mandi despencou 46,9% e o da Herchcovitch, 3,8%. A empresa, que faturou R$ 669 milhões nos primeiros nove meses de 2015, queda de 0,1% em relação ao mesmo período de 2014, não quis comentar. Já na Restoque, dona de grifes como Le Lis Blanc e Dudalina, a ordem é recomprar. Com capital aberto na BMF&Bovespa, o conselho da empresa, personificados no presidente Márcio Camargo e no vice Marcelo Lima, aproveitou o barateamento da empresa para adquirir papéis.

Resultado: 250% de valorização nos últimos 30 dias e controle de 40,8% do capital social para a Restoque. “Teremos um grande espaço para consolidações nos próximos meses”, afirma Alberto Serrentino, fundador da consultoria Varese Retail, especializada no setor. A crise é um fato concreto e as vendas estão caindo. Porém, as companhias que fizeram a lição de casa estão retomando a confiança dos investidores. A Guararapes, controladora da Riachuelo, surpreendeu boa parte do mercado com uma queda menor do que o esperado nos resultados do quarto trimestre.

As vendas nas lojas abertas há mais de dois meses tiveram recuo 0,5% em 2015, mas a sua receita líquida cresceu 16,5% no mesmo período, a R$ 7 bilhões. Por conta disso, corretoras passaram a recomendar as ações da empresa. A BB Investimentos, por exemplo, colocou o preço-alvo dos papéis da Guararapes em R$ 67, ante os R$ 41,74 atuais. O resultado, segundo Flávio Rocha, presidente da empresa, só foi possível por conta de uma estratégia mais conservadora de aberturas e gastos mais inteligentes, como readequação do número de vendedores nas lojas. “Existe uma crise, mas haviam problemas internos e tratamos de resolvê-los”, diz Rocha. E problemas não faltam no setor.

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 No ano passado, no entanto, as vendas caíram para R$ 60 milhões e a levou a encerrar as atividades de maneira abrupta.

Grifes internacionais, que se acotovelavam para ganhar vitrines no Brasil, perderam o interesse em aportar dinheiro por aqui.

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