Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano X

Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano X

Nossa editora-sênior de reportagem de moda relembra nomes esquecidos e desvalorizados no mundo fashion.

Era uma vez uma mulher chamada Anne Lowe. Uma mulher que aprendeu a costurar com retalhos, deixou o marido para trás e fugiu com o filho nos braços para investir na carreira de estilista. Uma mulher que desenhou vestidos de ganhadoras do Oscar, que fez roupa para as herdeiras Rockfeller e Vanderbilt, que foi elogiada por Christian Dior pela qualidade de seu trabalho artesanal.

A criadora do vestido de noiva de Jacqueline Kennedy, um dos mais famosos e copiados de todos os tempos. Anne Lowe foi uma mulher negra do Alabama, descendente de mulheres que foram escravizadas nos EUA. Construiu seu business sozinha e foi chamada de “o segredo mais bem guardado” da alta sociedade norte-americana. Uma forma bastante covarde de dizer que, devido a sua cor, ela teve sua trajetória apagada.

Recentemente, por causa do desfile da Gucci, muitos fashionistas descobriram a existência de Dapper Dan. Para muita gente, Dapper Dan agora é cool porque foi lembrado por uma grande label. Mas a verdade é que Alessandro Michele, um designer inteligente, fez referência ao trabalho de Dan porque ele sempre foi genial.

Dan vestiu a cena rapper emergente nos anos 1980 e 90, foi um dos criadores do que seria o estilo bling-ostentação, brincou com os conceitos de original e cópia muito antes de qualquer hype. Um visionário negro que também havia sido apagado pelo mercado.

No final do ano passado, o Fashion Institute of Technology de Nova York abriu uma exposição dedicada ao trabalho de designers negros. A mostra não teve grande repercussão, embora resgatasse criações importantes e desconhecidas por muitos. A iniciativa é sem dúvida positiva. Mas também revela uma realidade lamentável: a de que designers negros têm sido sistematicamente deixados em segundo plano, independentemente de seu talento.

Talvez Kanye West seja espalhafatoso. Talvez Virgil Abloh, da Off White, tenha um estilo de vida afrontoso. Mas eles são designers negros que chegaram para não serem ignorados. E isso é ótimo. Eles são de uma nova geração. A mesma da talentosíssima Grace Wales Bonner, uma espécie de afro-futurista minimal, que tem recebido os prêmios mais importantes da indústria. Uma geração que ama Beyoncé e se veste como Rihanna, que se inspira na inteligência de Djamila Ribeiro e Chimamanda Ngozi, que vê o avanço dos intelectuais negros, mas que ainda convive com o racismo estrutural.

No Brasil, a chegada dos irmãos Emicida e Fióti com a Lab, na São Paulo Fashion Week, foi um acontecimento. Primeiro pelo street-easy charmoso, mas porque nunca os negros estiveram tão presentes no evento. Na Casa de Criadores, novos designers, como Apolinário, da Cem Freio, e Eduardo Costa, do brechó Replay, levaram a questão racial para a passarela.

Muitos fashionistas sabem reconhecer peças com statements e bombers de grifes do momento, mas nunca ouviram falar, por exemplo, da Cross Colours. Nos anos 1990, eles trabalhavam slogans como “clothing without prejudice” e “love sees no color”. Vestiram Snoop Dogg, Tupac, Run DMC, TLC, Stevie Wonder e Will Smith, entre dezenas de outros nomes, com suas jaquetas e moletons icônicos.

A marca, lembrada em documentários como o ótimo Fresh Dressed (2015), lançou uma coleção especial em 2014 e voltou à ativa, com reedições de peças antigas – os originais vintage, raros, podem custar milhares de dólares. Provavelmente você nunca viu os rostos de Carl Jones e TJ Walker, criadores da marca. Caso haja dúvida, sim, os dois são negros.

Precisamos de mais livros sobre essas pessoas. De mais filmes. De mais gente que fale sobre a importância delas. E, principalmente, precisamos de boa vontade e intolerância total com o racismo. Outro slogan da Cross Colours era “educar para elevar”. Já passou da hora de o mercado de moda entregar seu dever de casa e parar de fingir que o cachorro comeu uma lição que nunca foi feita.

Por Vivian Whiteman

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