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Para azar dele, o mundo inventou a internet, os celulares com câmera e as revistas de celebridades. O que na mesa de um bar se fala, nos tribunais se paga, mesmo que o protagonista do vexame seja um gênio na arte de traduzir exuberância nababesca em forma de vestidos de alta-costura. Por atacar verbalmente um casal num bar e fazer declarações racistas, há duas semanas em Paris, Galliano foi demitido da Dior e é alvo de processo penal. O vexame foi filmado e exibido no YouTube.
À frente do estilo da Maison Dior desde 1996, quando sucedeu o italiano Gianfranco Ferré (1944-2007), Galliano certamente merece crédito por nunca ter deixado a casa de moda perder seu espaço entre as mais desejadas do mundo. A Dior faz parte do conglomerado de luxo francês LVMH e é também uma de suas mais coruscantes estrelas - ao lado de Louis Vuitton, Givenchy e, desde esta semana, a joalheria Bulgari, adquirida pelo grupo por US$ 6 bilhões.
Nascido em 1960, em Gibraltar, Galliano formou-se em 1984 pela Saint Martin's School of Art, de Londres. À frente da grife Dior, abusou do brilho, da referência a culturas diversas, do luxo e do fetichismo. Com apreço especial pelo século XVIII, inspirado pela Belle Époque e pelo estilista Paul Poiret (que baniu o espartilho da vestimenta feminina), ele criou imagens que, de tão impactantes, chegavam a confundir os não-iniciados na sua obra: aquilo era roupa, figurino ou alegoria?
Em sua última coleção pela Dior, mostrada semana passada em Paris, Galliano foi fiel ao que faz de melhor: buscar referências no passado, para criar roupas extremamente femininas. A coleção, com vestidos que fazem referência aos lingeries usados no início do século XX, tem de tudo um pouco: muitos detalhes em pele, babados, plumas, transparências, sobreposição de texturas e botas-fetiche. A mulher idealizada pelo estilista, ora hippie chic, ora romântica, é uma diva moderna, liberada e poderosa, que parece disposta a conquistar o mundo. O visual é sofisticado e sexy, mesmo quando se aproxima do universo esportivo.
Como "pessoa física", Galliano sempre flertou com a imagem de "enfant terrible", principalmente pelo visual extravagante - que mudava conforme o tema de suas coleções. No papel de simpatizante do nazismo, no entanto, foi além dos limites que a sociedade está disposta a aceitar, mesmo em se tratando de uma celebridade. Os impropérios desferidos por Galliano contra o povo judeu e que culminaram com a sua demissão da Maison Dior parecem ainda mais absurdos quando contrastados com a persona encarnada pelo fundador da casa, o estilista francês Christian Dior (1905-1957).
Natural de Granville, filho de uma família burguesa, Dior foi talhado para ser um "mauricinho". Preferiu, contudo, seguir o caminho da arte. Na juventude, enquanto cabulava as aulas da Escola de Ciências Políticas, brincava de ser "gauche" na vida em meio a amigos como o poeta surrealista Jean Cocteau, o pintor Christian Bérard e o músico Henri Sauguet. Foi Cocteau, aliás, um dos primeiros a pressentir o destino brilhante do amigo, ao definir seu nome como a combinação de Deus (Dieu, em francês) e ouro (or).
A Maison Dior foi financiada pelo magnata do algodão Marcel Boussac e inaugurada em 16 de dezembro de 1946, no número 30 da Avenue Montaigne. O espaço definitivo de Dior na história da moda francesa seria conquistado dois meses depois, com o seu primeiro desfile. A apresentação foi um marco da moda no pós-guerra, por acender uma luz de esperança no retorno do luxo, depois de anos de restrições e escassez. Dior propôs uma nova silhueta - formada por saia ampla e armada, cintura afunilada por corpete e chapéu grande - batizada de New Look. O termo foi cunhado pela diretora da revista Harper's Bazaar, Carmel Snow, por conta de sua exuberância: alguns de seus vestidos levavam até 25 m de tecido, o que parecia uma loucura depois dos anos de racionamento de matéria-prima.
Foi o triunfo da sofisticação e da feminilidade, das linhas orgânicas sobre os ângulos retos das máquinas, que ajudou a amenizar as agruras da guerra. Era como se a Belle Époque estivesse de volta.
A carreira de Dior foi curta - durou apenas dez anos - mas foi suficiente para definir o estilo da década de 50, composto por tailleurs ajustados, saias rodadas, cinturas marcadas e ombros arredondados. Como complemento, as mulheres usavam luvas, scarpins e colares de pérolas. Suas criações influenciaram a estética feminina e estilistas durante décadas, observou Georgina O'Hara, no livro Enciclopédia da Moda (Cia. Das Letras, 1992).
Dior foi também eficiente nos negócios. Ele foi responsável por tirar a alta-costura do "gueto artesanal". Em meados dos anos 50, o império Christian Dior estava presente em cinco continentes, empregava 1.700 pessoas e era formado por oito sociedades e 16 firmas associadas. Seu ateliê, na Avenue Montaigne, acolheu e investiu em jovens talentos, como Pierre Cardin, Marc Bohan e Jean-Louis Scherrer.
Entre os mais promissores colaboradores de Dior, estava Yves Saint-Laurent (1936-2008), admitido para compor a equipe da casa em 1955. Foi ele quem assumiu o estilo da Maison depois da morte precoce de seu fundador - de ataque cardíaco. Já na primeira coleção, Yves Saint-Laurent e sua linha Trapèze foram recebidos com glória. A convocação de Saint-Laurent para o serviço militar, em 1960, fez o cargo passar para Marc Bohan, "que consegue uma osmose perfeita entre sua própria criação e a fidelidade ao espírito de Christian Dior" (POCHNA, 2000). Em 1989, entra em cena Gianfranco Ferré, que deu continuidade ao legado de luxo e perfeccionismo ensinado pelo mestre. Dior, Saint-Laurent, Bohan e Ferré: homens que, até onde se sabe, souberam ser elegantes sobre as passarelas ou fora delas. Por ora, Galliano foi um ponto fora da curva.
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