Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XIII

Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XIII

A arte têxtil e o tingimento com plantas são expressões artísticas complementares, possuem elementos cuja beleza única não pode ser comparada aos produtos químicos e industriais. Infelizmente, a descoberta dos corantes químicos e seu indiscriminado contribuiu para acentuar a substituição dos corantes naturais e desta forma provocar o esquecimento deste saber sobre a origem das cores.
Os corantes químicos e sintéticos, por sua origem e propriedades, são substancias densas e tóxicas, obtidas a partir de derivados de petróleo e do carvão mineral por um processo altamente poluente, estes corantes foram criados na Alemanha, durante a Revolução Industrial, sendo sintetizados a partir das mesmas matérias-primas usadas para a produção de explosivos como, por exemplo, compostos orgânicos ricos em nitrogênio como a nitroglicerina ou TNT (trinitrotolueno).
Já a origem solar dos corantes vegetais dá às suas cores uma relação direta com a luz. Podemos chamá-las de Cores da Luz, em oposição aos corantes químicos. O uso de corantes vegetais na produção de produtos artesanais com certeza requer um processo mais elaborado do que simplesmente comprar um tubo de anilina química na venda mais próxima. Este uso puramente comercial dos corantes químicos anula a autenticidade de um oficio capaz de integrar o homem à natureza.
Tingir com corantes vegetais é relativamente simples, mas as cores exige um profundo domínio de alguns princípios químicos, físicos, matemáticos e botânicos. Procurar e coletar ervas, retirar líquens de rochas, cercas e árvores, reciclar resíduos do beneficiamento de madeiras e outros produtos.
FONTES PRINCIPAIS PARA A EXTRAÇÃO DE CORANTES NATURAIS, PODEMOS DESTACAR:
• Reflorestamentos de eucaliptos, pinus e outros;
• Serrarias, marcenarias e depósitos de madeiras;
• Mercados e feira livre;
• Sítios, chácaras, parques e beiras de estradas;
• Pomares, plantações e hortas;
• Lugares onde se vendem ervas e plantas medicinais;
• Hortos florestais e jardins botânicos;
DESTAS FONTES, O QUE UTILIZAMOS PARA TINGIR SÃO:
• Toda arvore de eucalipto (folhas, cascas e serragem), o fruto e a casca do pinus, cascas de muitas leguminosas como o angico e a bracatinga, serragens de todas as madeiras utilizadas para moveis, assoalhos, forros e carpintaria;
• Folhas, talos e cascas de muitas verduras, raízes e leguminosas; temperos como urucum, cúrcuma e açafrão; folhas e cascas de galhos podados de arvores frutíferas;
• Flores, raízes e ervas daninhas como erva-de-passarinho, picão e outras;
• Líquens que crescem em cercas velhas, troncos de arvores mortas e rochas;
• Muitas plantas arbustivas que encontramos na beira das estradas, como o anil (índigo) e a quaresminha;
• Galhos e folhas cortadas das arvores utilizadas na arborização das cidades, como amoreiras, pau-campeche, acer, cedros, entre outras.
SOBRE AS CORES
Na busca para reproduzir as cores presentes no mundo, o homem encontrou na natureza, entre os minerais, a flora e a fauna, a percepção dos matrizes encontrados na natureza despertou nos filósofos e pesquisadores, em diferentes épocas da historia, o interesse pela origem e o significado das cores.
Na Grécia antiga, Aristóteles (filosofo grego) afirmava que as cores são sete, entre elas o preto e o branco. Foi definido no século XV que as cores primarias, chamas de cores simples, não podiam ser feitas pela mescla de outras cores. Na sua classificação, figuram tanto as três cores físicas (vermelho, amarelo e azul), produzidas a partir da luz, como as três cores químicas (vermelho, amarelo, azul), substancias materiais que possuem na sua constituição o corante.
A luz incolor não pode ser composta nem por cores aparentes, nem por pigmentos. As cores são estimuladas junto à luz, não sendo derivadas dela. Se as condições cessam, a luz torna-se incolor como antes. Segundo estes critérios, propõe-se uma interpretação das cores a partir do órgão da visão, que não pode ser identificado com um com um conjunto de prismas e lentes, pois o olho é um órgão vivo.
Classificamos assim as cores segundo três padrões básicos:
• Cores fisiológicas: criadas pelos olhos, como um efeito ótico;
• Cores físicas: percebidas através dos efeitos da luz nos meios incolores (vidro, água, e ar);
• Cores de natureza química: possuem longa duração e são percebidas pelos olhos como parte dos corpos e objetos, onde podemos incluir os corantes do reino mineral, vegetal e animal.
A primeira cor de origem vegetal estavam nas algas marinhas unicelulares , que flutuam na superfície do mar. Com o surgimento das plantas na superfície da terra, os metais existentes no solo (cobre, alumínio, ferro, entre outros), foram absorvidos pelas raízes, possibilitando a formação das cores das diferentes partes do corpo da planta (flores, folhas, raízes, cascas, caules). Este processo de fixação das cores no corpo das plantas é conhecido por metalização (maturação). A estabilidade dessas cores permanece enquanto a planta estiver viva.
No tingimento vegetal, aplicamos assim este conhecimento que adquirimos ao observarmos a natureza:
• Trituramos a planta;
• Fervemos em água, tornando o corante, antes fixado, novamente solúvel ou flutuante;
• Damos assim um novo corpo à cor em fibras, fios e tecidos.
Para que este processo aconteça com solidez, usamos sais orgânicos de marais como acetato de ferro, acetato de cobre e o alúmen de potássio (pedra úmen), metalizado, desta forma, a cor. Estes metais usados no tingimento são conhecidos como mordentes e tornam assim as cores dos corantes vegetais permanentes.
Os corantes naturais se encontram principalmente nos vegetais (plantas, árvores, líquens), mas também podem ser encontrados entre alguns animais (insetos e moluscos). Existem insetos, entre os quais as cochonilhas, que possuem matéria cromática inteiramente concentrada.
Embora a maioria dos corantes sintéticos seja classificada como seguros, os consumidores estão cada vez mais interessados em produtos de origem natural, que causa menores danos à saúde humana e ao meio ambiente. Dessa forma, em busca de atender esse novo nicho de mercado, as indústrias alimentícia, cosmética, papeleira e têxtil têm aumentado o uso de corantes naturais. Atualmente há uma série de produtos, principalmente alimentícios, que já utilizam corantes naturais tais como bebidas, molhos, sopas, maioneses, sorvetes, temperos, massas etc.
Os corantes naturais, em relação aos corantes sintéticos apresentam uma grande vantagem no tratamento de efluentes, que representa um grande problema para a na indústria têxtil. Tradicionalmente, a etapa industrial de tingimento, é uma das que mais utiliza a água em seu processo produtivo, o que gera uma grande quantidade de efluentes, que têm como destino os rios. Cerca de 90 % do consumo de água de toda indústria têxtil se dá no processo de tinturaria. Sendo assim, um grande volume de efluentes é despejado nos rios causando grandes danos ao ambiente. Uma área promissora para o tratamento desses efluentes tem sido a dos métodos de biodegradação. No entanto, os corantes sintéticos não são degradados pelos microorganismos, aumentando ainda mais o interesse sobre os corantes naturais, posto que estes sejam facilmente tratados por métodos de biodegradação.
Em relação ao potencial de mercado dos corantes naturais, estima-se que, para suprir o consumo anual de fibras, necessita-se de 100 milhões de toneladas/ano de corantes naturais. Os rendimentos desses corantes naturais, em relação ao peso seco de matéria-prima, são muito variados sendo que, para conchas de Murex (utilizadas pelos fenícios para produzir corante púrpura) o rendimento é de 0,01 % chegando até 10 % em média, para corantes extraídos a partir de madeira. No entanto, até agora, apenas um número muito reduzido de corantes naturais tem-se revelado comercialmente viável. Assim, a aplicação majoritária destes corantes é para coloração de gêneros alimentícios e cosméticos (Tabela 1) e, mesmo assim, apenas corantes selecionados são aceitos no mercado, devido às rigorosas normas de segurança em relação a dados toxicológicos e farmacológicos.
Atualmente, a indústria têxtil é uma das mais afetadas pela concorrência com os produtos da China, o que vêm incentivando o desenvolvimento da indústria brasileira de forma a diferenciar seus produtos através de inovação e busca de novos ingredientes, entre eles os corantes naturais, que agregará valor ao produto final, diferenciando-se dos outros.
Embora haja uma grande quantidade de pigmentos provenientes de fontes minerais e animais, as plantas são fontes importantes para obtenção de corantes e pigmentos, os quais podem ser encontrados em ramos, raízes, folhas, flores, cascas etc.
Uma fonte importante de material natural está presente nos extrativos provenientes da madeira. Estes extrativos podem ser removidos facilmente da madeira, apresentando fácil solubilização em água, ou em solventes orgânicos neutros, como etanol, sendo responsável pelas características peculiares da madeira como sabor, odor e, principalmente, a cor. No sentido de atender e reforçar o apelo ambiental dos corantes no mercado, uma fonte potencial de extrativos de madeira é a utilização dos resíduos do processamento mecânico, devido a sua produção em grande quantidade por todo o Brasil. Por não terem uma disposição final adequada, em geral, estes resíduos causam importantes problemas ambientais. Estima-se que o consumo de madeira nativa em toras seja de 34.000 m³ e considerando que, em média, o aproveitamento é de 50 % no desdobre da madeira, tem-se, portanto aproximadamente 17.000 m³ de resíduos florestais no Brasil.
O estudo de algumas madeiras, notadamente amazônicas, verificou que os extrativos destes resíduos apresentaram grande potencial como corantes naturais para tingimento têxtil em algodão e papel, com características de boa permanência da cor à luz. Foi avaliado também, o efeito da remoção dos extrativos nas características energéticas da madeira, em que se concluiu não haver influência negativa no valor do material para uso como combustível.
Por fim, o crescimento do nicho de mercado que valoriza os produtos naturais incentiva, cada vez mais, a busca por novas fontes de corantes naturais, cuja demanda tem aumentado. Dessa forma, o Brasil destaca-se como um potencial fornecedor destas matérias-primas corantes, mediante a riqueza em biodiversidade e fonte de resíduos de madeira, cujo potencial como corante já foi avaliado. Nesse sentido, há a necessidade de estudos para avaliar o fornecimento de matéria-prima, seu custo e sazonalidade em busca da viabilidade econômica do corante. Não obstante, são informações fundamentais no desenvolvimento de um produto para indústria, a estabilidade do corante, sua fixação, as caracterizações químicas, estudos toxicológicos e farmacológicos. Sendo assim, estudos que contribuam nesse sentido são altamente justificáveis.

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Comentário de ANGELA TRENTO DE MOURA em 30 março 2011 às 10:42

OLA ELISANGELA, PARABENS PELO ARTIGO. ESTOU FAZENDO MEU PROJETO DE MONOGRAFIA E O TEMA É TINGIMENTO NATURAL E RESGATE DAS TECNICAS NATURAIS. POR ACASO VOCE TERIA ALGUMA REFERENCIA DE LIVRO SOBRE ESSE TEMA, ESTOU COM MUITA DIFICULDADE DE ENCONTRAR.

ATT

ANGELA TRENTO

Comentário de Luiz Eduardo Mello em 21 março 2011 às 12:28

Bom dia ELIZANGELA

 

Parabens por seu interessante artigo.

Tenho uma tinturaria para pequenas quantidades tecidos com fibra celulosica,animal e poliamida.

A energia usada provem da hidro/eletricidade.Fonte mais cara mas limpa!

Gostaria de saber ande encontrar corantes a partir dos vegetais.

Att

Luiz Eduardo Mello

 

Comentário de Luiz Eduardo Mello em 21 março 2011 às 12:17

Bom dia ELISÂNGELA

Muito bom seu artigo.

Tenho uma tinturaria para pequenas quantidades de tecidos com base celulose,fibras animais e poliamida.

A energia da fabrica vem da hidro/eletricidade ,sito é,limpa.É mais cara mas sua produção não polue.

Gostaria de saber se Vc sabe quem fabrica corante proveniente dos vegetais.

Att

Luiz Eduardo

 

 

Comentário de António Manuel Miranda em 21 março 2011 às 9:53
Elizângela,
Parabéns. É um execelente artigo.
Comentário de Marcio Prado de Cantanhede em 23 fevereiro 2010 às 6:17
Olá Elisângela. Antes de tudo gostaria de parabenizá-la pelo interessante artigo sobre os corantes naturais.
Queria contribuir com um comentario sobre os corantes nao naturais ou ditos sintetizados de hoje em dia. Cada vez mais , as grandes empresas ( A Clariant é uma delas) estao investindo pesadamente no desenvolvimento de corantes e produtos auxiliares texteis de modo a minimizar e até mesmo evitar os danos causados ao meio ambiente. Nao poderia ser diferente em funçao de tantos problemas de nosso ecosistema e tambem em funçao da tendencia de mercado a qual voce tao bem menciona.Os corantes sulfurosos sao um grande exemplo desse avanço. Há menos de 15 anos atras, falar em tingimentos de corantes sulfurosos significava poluiçao em alto grau, odores de gas sulfidrico enormes, impossibilidade de tratamento biológico direto dos efluentes e por aí vai. Tudo isso em funçao do alto grau de sulfetos 2+ e enxofre livre que tinham esses corantes e seus redutores no passado ( a base de sulfidrato e sulfeto de sódio). Hoje em dia, pode-se dizer que os corantes sulfurosos talvez sejam os mais ecológicos do mercado. Desenvolveram-se redutores a base de açucares invertido, onde passou a ser até certo ponto (dependendo da DBO) , um alimentador da biologia no tratamento de efluentes,os próprios corantes com baixíssimos teores de sulfetos ( em muitos casos a nível zero) e de enxofre livre, nenhum teor de metais pesados em sua estrutura molecular , produtos auxiliares como umectantes e dispersantes com alto grau de ecologia e por aí vai. Ou seja: o que importa mesmo é que de uma forma ou de outra, vejo que estamos no caminho correto quanto ao principal tema que devemos realmente e rapidamente nos preocuparmos que é o MEIO AMBIENTE! Um grande abraço e sucesso ! Marcio Cantanhede

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