Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XII

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Governo precisa de agenda de reformas de longo prazo

COM:  LONGO MAS  DE ALTA QUALIDADE

Governo precisa de agenda de reformas de longo prazo'

'Governo tem diálogo aberto com a indústria', diz presidente do conselho do Iedi

29 de abril de 2012 | 3h 07

 

RAQUEL LANDIM - O Estado de S.Paulo

Uma das principais lideranças empresariais do País, Pedro Luiz Passos, presidente do conselho curador do Instituto de Estudos do Desenvolvimento Industrial (Iedi), não poupa elogios ao governo de Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores (PT).

"Esse é um governo muito próximo da indústria. Existe um diálogo aberto para os assuntos da indústria", disse Passos em entrevista ao Estado. Na avaliação do empresário, que é copresidente da fabricante de cosméticos Natura, o governo foi "corajoso" ao desonerar a folha de pagamentos de alguns setores e "ousado" ao reduzir os juros.

Passos, no entanto, também faz cobranças. Ele afirma que o Brasil precisa elevar sua produtividade por meio de uma agenda de longo prazo, com reformas estruturais, o que não vem ocorrendo. Defende também uma "reindustrialização" do País, com o foco voltado para setores de ponta como tecnologia da informação e biocombustíveis.

Na briga entre o governo e os bancos privados, Passos apoia a equipe da presidente Dilma no objetivo de reduzir os spreads (margem de lucro dos bancos), mas não concorda com a maneira agressiva como o assunto vem sendo tratado. "A forma correta de fazer isso é criando os incentivos necessários para que o mercado financeiro se mobilize nessa direção. Não pode haver briga do governo com um setor", afirmou.

A seguir, trechos da entrevista.

O governo tomou uma série de medidas de apoio à indústria: fim da guerra dos portos, desoneração da folha de pagamentos, defesa comercial. Quando a produção industrial brasileira vai começar a reagir?

De fato, muitas medidas vão na direção correta. Algumas medidas eram urgentes e foram corajosas. Quem conhece a complexidade do Brasil sabe que mexer na desoneração da folha de pagamentos não é trivial. O governo está desonerando de forma prudente, mas deveria agora acelerar a inclusão de novos setores. As medidas de defesa comercial também são importantes, porque existiam abusos, como a triangulação de produtos. Acredito que vai haver uma recuperação da indústria, mas menos pelas medidas e mais por uma questão de ciclo econômico, com a redução de estoques, e pela queda nas taxas de juros. Vamos terminar o segundo semestre melhor do que acabamos 2011. Mas alertamos que isso não pode dar uma falsa sensação de conforto. Temos um problema estrutural. Hoje o Brasil é um país muito caro, com uma competitividade muito baixa.

Como solucionar esse problema de competitividade?

Precisamos de uma agenda com a produtividade como tema central. Os grandes saltos dos países acontecem quando vêm junto com expressivos aumentos de produtividade. Só que é um dever de casa que dá trabalho. Sem a pretensão de fazer uma reforma tributária rápida e ampla, que é politicamente impossível, temos de fazer uma mudança tributária significativa, que represente simplificação, trabalhar com créditos e débitos ao longo de todas as cadeias produtivas e reduzir a presença de impostos que são irrelevantes do ponto de vista de arrecadação, mas representam uma burocracia e um custo importante para as empresas. E temos uma batalha hoje com impostos estaduais que não é fácil. O ICMS que incide sobre energia e telecomunicações é uma guerra que tem de ser enfrentada. Não é possível que os insumos básicos de todas as cadeias produtivas sejam tão onerados.

Por que a produtividade da indústria não avança?

Porque o investimento está baixo. Não há melhoria de produtividade se não houver incorporação de novas tecnologias. A produtividade também não avança, porque a infraestrutura não avança. Quais os grandes avanços do Brasil nos últimos anos? Conheço o aeroporto de Guarulhos desde pequeno e era do mesmo jeito que é hoje. O mesmo vale para o Galeão e para as principais rodovias. Nós vamos nos acostumando à fila de caminhões para o porto de Santos. Mas é assustador. É o exemplo da ineficiência de um país. Para fazer frente a essa agenda, precisamos de fontes de financiamento de longo prazo. Hoje está muito concentrado no BNDES, mas é um modelo que não tem mais para onde ir, porque o dinheiro do Tesouro é muito caro.

Apesar da inflação acima do centro da meta, o governo está baixando os juros. Está correto?

Isso é uma coisa boa que está acontecendo. E é fruto de uma política governamental que enfrentou essa situação. Houve uma certa ousadia e aí temos de aplaudir. Vimos as pressões de outros setores falando que a inflação ia explodir. O governo mostra preocupação com o controle da inflação, mas também com o desenvolvimento da economia. Reduzir os juros acerta os preços relativos porque interfere na cotação da moeda.

O governo Dilma é voltado para a indústria?

Esse é um governo muito próximo da indústria. Existe um diálogo aberto. Mas acho que o governo está com dificuldades de resolver as questões estruturais. O Brasil precisar entrar numa agenda de reformas de longo prazo. Não são imediatas, mas é preciso ter uma agenda nessa direção. Quando, no meio dessa crise, você vê os Estados Unidos tentando recuperar o bom emprego por meio da indústria, temos de estar atentos. A agenda de produtividade vem associada à "reindustrialização" do País. Não é que a indústria encolheu. A indústria cresceu, mas está voltada para o mercado interno e não se desenvolveu no mercado externo por falta de competitividade.

O que o senhor define como "reindustrialização" do Brasil?

É plantar as bases de uma nova indústria no País. Não é a velha indústria apenas, mas setores novos, como tecnologia da informação, biotecnologia, biocombustíveis, farmacêutica. O Brasil não pode ficar fora disso. É preciso ter pesquisa e desenvolvimento de tecnologias dentro do País.

Qual deveria ser o próximo gargalo da indústria a ser atacado pelo governo?

Energia e infraestrutura são dois pontos que o governo precisa atacar, porque estamos perdendo muita produtividade fora da fábrica. Boa parte da produtividade está no transporte, no porto, na burocracia governamental. Mas é claro que também precisamos de processos melhores. O empresário tem de investir mais em inovação.

O que o governo pode fazer na área de infraestrutura?

É preciso atrair capital privado e criar um ambiente de negócios para investimentos de longo prazo. Temos de utilizar o marco regulatório de uma maneira mais clara, porque em alguns casos a insegurança jurídica ainda permeia. O Brasil tem uma boa tradição de cumprir contratos. Portanto, estamos à frente de países competidores na atração de capitais. Mas temos de realmente puxar os investimentos, fazendo parcerias público-privadas. É um bom caminho para o governo resolver o assunto da infraestrutura. Não pode ter medo de fazer concessão. Tem de fazer concessão em várias áreas. O governo tem de ser o agente controlar, gerenciador, mas não o operador de toda a infraestrutura.

O dólar a R$ 1,80 parece ser um piso informal do governo federal. É satisfatório?

O câmbio a R$ 1,80 foi um alívio - menos pelo que trouxe de competitividade imediata para a indústria, mas porque sinalizou a reversão de uma tendência assustadora, que prejudicava os investimentos. Não vamos nos tornar grandes exportadores com um câmbio de R$ 1,80. A balança comercial vai continuar desfavorável em muitos setores. Mas o fato de não estar na tendência de R$ 1,50 é um alívio.

A indústria apoia o governo na briga contra os bancos privados para reduzir os juros?

O empresariado apoia a briga contra o tamanho do spread no Brasil. Não há dúvida de que pagamos muitos juros e parte disso é porque as margens (de lucro dos bancos) são altas. Não dá para não apoiar a tentativa de redução desse preço, que é fundamental para a economia. Mas a melhor forma de fazer isso é criar os incentivos necessários para que o mercado financeiro se mobilize nessa direção. Não pode haver briga do governo com um setor. O tom que hoje está circulando.... Eu prefiro as agendas positivas.

O governo Dilma é protecionista?

O governo não está criando barreiras não tarifárias, como faz, por exemplo, a Argentina. O Brasil está distante das práticas erradas do comércio exterior. Possivelmente existem pressões empresariais para segurar burocraticamente as importações. Mas, por enquanto, o governo tem prestado mais atenção em questões práticas como o dumping. O que está acontecendo na Argentina é assustador. Espero que o Brasil não vá por esse caminho.

Dilma pediu aos empresários que despertem o seu "espírito animal". A presidente vai ser atendida?

O Brasil é um país caro para produzir. Em vez de colocar uma fábrica no Brasil, uma empresa tem outras alternativas factíveis com preços menores e condições melhores de financiamento. Portanto, não é algo só convocatório. É importante a atitude da presidente. Mas é preciso apontar o caminho e mostrar qual é a agenda. Caso contrário, as empresas vão para o sul dos Estados Unidos, para a Colômbia. É preciso visão de longo prazo e persistência na busca de produtividade. Por fim, acabamos com o mantra de que o melhor é não ter política industrial. A crise mundial nos ensinou que Estados Unidos, Alemanha e vários países querem a indústria para gerar empregos

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