Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XII

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A nação petista acorda hoje para encarar o seu D-Day econômico: os ‘inimigos’ chegaram ao palácio e agora estão no Poder.Joaquim Levy

A invasão da Normandia estagnada e deficitária começou com as ideias anfíbias de iluminismo fiscal e hoje avança praia acima liderada pelos generais da ortodoxia (uns com mais estrelas do que outros): o Comandante Levy, do Exército da Cidade de Deus, o General Barbosa, a consciência crítica do Antigo Regime e, na retaguarda, o Almirante Tombini, conhecido por manobrar o leme monetário ao sabor dos ventos.

Metáforas militares à parte, o debate que cerca a nomeação de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda — o cargo que Dilma Rousseff acumula com a Presidência — é sobre a sinceridade de propósito de Dilma de abandonar aquela cadeira, bem como seu grau de convencimento a respeito do que precisa ser feito.

Trata-se de um debate com inúmeras questões, e é provável que o sistema Cantareira seque por completo antes que o mercado tenha todas as respostas que busca.

A primeira pergunta na cabeça dos investidores é se a Presidente entende a fragilidade da economia, o contexto internacional e o que está em jogo. Dado que a candidata Dilma passou a campanha negando as vulnerabilidades brasileiras e atribuindo o crescimento zero à “grave crise internacional”, é uma dúvida legítima.

Ainda assim, há motivos para crer que a ficha já caiu. De acordo com uma fonte com acesso ao Palácio, Dilma foi convencida de que duas crises gêmeas se avizinham: a política, com as ramificações da Lava Jato chegando mais dia menos dia ao Congresso, e a econômica, também uma questão de tempo dada a fragilidade das contas fiscais e a proximidade da alta de juros nos EUA. A Presidente sabe que será impossível sobreviver à primeira se não tiver a segunda sob controle.

Também parece lógico que Levy, um técnico sério, discreto e respeitado, só aceitou o convite porque viu condições de trabalhar com Dilma. Essas ‘condições’ são sinônimo de um arrocho clássico? Devagar com o andor que a Levyana é de barro. Provavelmente, Levy assumirá anunciando medidas com um horizonte de três anos – um ajuste com credibilidade, mas feito de maneira gradual. Esse é o denominador comum mais provável entre o Chicago boy e a presidente que acredita em política industrial.

Finalmente, para Dilma, não faria sentido pagar o preço político da nomeação de Levy se não fosse para obter os dividendos econômicos (de médio e longo prazo) do ajuste a ser feito por ele. Ajuste que, juram os economistas, deve ser menos doloroso dada a credibilidade pessoal do próprio.

Não bastassem as dúvidas sobre as convicções de Dilma, setores do mercado não estavam preparados para o realismo fiscal repentino da Presidente. A confirmação de Levy já ajudou a Bolsa e fortaleceu o Real, mas veio num momento em que boa parte dos gestores estão comprados no kit catástrofe: abraçados no dólar e com muito caixa na mão. (Pelo menos dessa ironia os petistas poderão rir.)

A situação é a daquele provérbio americano: “Cuidado com o que você deseja: você pode acabar conseguindo.”

É verdade que o grande ‘rali Levy’ por enquanto se manifestou mais nos juros do que na Bolsa. Desde que o Planalto vazou o nome de Levy na sexta passada — dois dias depois de avisarmos aqui — as taxas dos juros futuros (janeiro 2017 e 2021) fecharam brutalmente. No mesmo período, a Bovespa subiu só 3,7% em reais — os investidores internacionais estão ainda mais felizes: em dólar, ela já sobe 6,4%.

A última e mais importante pergunta: qual é o prazo de validade deste “neopalocci” na cadeira que Guido Mantega manteve quente durante oito anos de viagras setoriais, criatividade fiscal e embromation opiniático?

Levy fica um ano e pede o boné por não aguentar a chefe?

“A Dilma foi no médico e ele mandou ela tomar um comprimido e fazer repouso. Ela já concordou em tomar o comprimido, mas depois de duas horas na cama ela vai resolver levantar, dar uma arejada,” diz um investidor cético em relação à capacidade da Presidente de manter a disciplina. “Nessas duas horas, todo mundo vai estar acreditando que tá tudo no caminho certo…”

Diz uma fonte que conhece Levy: “O Joaquim é um cara que estudou e vai aplicar aquilo que ele estudou, o que tem que ser feito. É simples assim.. Não adianta vir dizer, ‘Aí não, Joaquim, se você fizer isso vai dar problema…’ Não! Ele não quer saber.”

Um outro investidor diz que as juras de amor à ortodoxia vão durar um ano — no calendário. “Ela só precisa de um ano para atravessar essa iminência de crise.. Depois…”

Dilma RousseffO investidor da metáfora do comprimido e do repouso vaticina: “Ou ele vai brigar com ela ou ele vai ceder a ela.”

O que dá a cruza entre uma microgerenciadora que não ‘compra’ o funcionamento dos mercados com um homem tímido, lacônico e treinado para saber que não existe almoço grátis?

O Brasil está prestes a descobrir.

Mas apesar do ceticismo dominante e de todos os questionamentos legítimos, há, aqui, um fato indisputável: a Presidente cujo voluntarismo nos legou uma economia em ‘estagflação’ a) deu uma banana para a candidata Dilma; b) ousou nomear o “inomeável”; c) surpreendeu mesmo os observadores mais otimistas, e parece, finalmente, estar pronta para anunciar medidas. Não se trata de dar a ela o benefício da dúvida, mas dos fatos.

Se Levy fizer anúncios razoáveis e transmitir a credibilidade que se espera, os mercados vão responder. Os investidores internacionais serão os primeiros a comprar a nova narrativa. Mais removidos do calor do debate político doméstico, eles tendem a reagir com mais rapidez às manchetes que sinalizam o ajuste. O fluxo dos gringos ‘faz o preço’ no mercado, e, com o tempo, acaba forçando a mão dos investidores locais, por enquanto convencidos de que nada disso é real — e que, se é, não terá vida longa.

Por Geraldo Samor

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Comentário de Romildo de Paula Leite em 28 novembro 2014 às 14:30

 O Brasil está prestes a descobrir.

O que dá a cruza entre uma microgerenciadora que não ‘compra’ o funcionamento dos mercados com um homem tímido, lacônico e treinado para saber que não existe almoço grátis?

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