Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano VI

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Da série - Causos de Mostradanus

Histórias de um caixeiro viajante

Trabalhando no ramo do comércio, durante muitos anos, aliás por toda a minha vida, sempre estive intimamente ligado à arte de vender, a gente registra ocorrências pitorescas e algumas de arrepiar. Umas, dignas de serem contadas sem correr o risco de represália do protagonista principal da história, outras que a gente tem que procurar ser discreto para não ferir suscetibilidades.  

 

Depois de muitos anos rodados, enveredei-me pelo ramo de prestação de serviços e como representante comercial a gente pode colecionar perolas e essa abaixo é de morrer de rir. Posso dizer apenas que aconteceu aqui em Goiânia.

 

Um cliente meu tradicional de muitos anos, comprando e pagando com regularidade, gozando de bom conceito de repente se torna vítima de um desses tsunamis do mercado: Crise violenta, culpa disso, culpa daquilo, culpa do governo, culpa dos impostos altos, dos feriados, enfim sobra culpa por todos os lados, menos aquele famoso e escondido e ou indisfarçável “mea-culpa”. Esse ninguém assume, pois ele não admite que comprou uma chácara sem poder, ou um carro zero daquele tipo “sonho de consumo” e exagerou na dose, enfim, não soube distinguir o dinheiro seu de fato, daquele que pertence a fornecedores, empregados e até mesmo aquela reserva de segurança que todos nós devemos ter para suportar uma crise, (como essa que estamos vivendo) sem ter que desesperar e depois fazer parte daquele tal grupo 318 que anda por ai, fazendo milagres – rsss. – É muito provável que a maioria desses que caminham pra falência lenta, não percebem a razão real de que a família cresce chegam os filhos casados, com as noras, com os netos e todos querem um salário na empresa que continua do mesmo tamanho, tal como ocorre principalmente em tecelagens tradicionais de que falei no meu artigo – “As tecelagens que fecharam nos últimos 40 anos”.

 

Resumindo: Sentamos-nos e discutimos a situação: Eu como representante do credor e ele como devedor assumido e pronto para pagar, fosse como fosse. Existia a chácara e então conversamos com a diretoria e essa resolveu aceitar negociar e fazer o acerto. Ele se prontificou a me levar no local, me mostrar a propriedade e lá fomos nós, no meu carro.

 

No meio do caminho, na volta, boquinha da noite, já com uma penumbra envolvendo o céu, aquele clima meio de crepúsculo, com praticamente tudo acertado, a gasolina dá sinal de que zerou. A luzinha amarela acendeu no meu painel, ele viu, ficou sobressaltado e eu lhe disse que tinha que pedir socorro. O celular já existia naquele tempo, mas era ainda uma novidade. Usei e fiz uma ligação para minha esposa pedindo socorro (gasolina).

 

Olhei pra ele, sempre branco, muito branco, já estava muito mais pra um branco cera, bem pálido, suando e lhe disse : Fique calmo, fulano, eu vou abrir o porta malas e retirar o triangulo para sinalizar (estávamos numa estrada movimentada) e daqui a pouco a minha mulher chega com a gasolina e vamos embora.

 

Quando eu abri o porta-malas e me abaixei pra pegar o sinalizador, coloquei-o no acostamento e ao erguer-me e procurar o meu amigo e cliente, onde estava ele? Olhei no horizonte, e o vi sumindo na curva, correndo feito um desesperado e já estava a quase um kilometro. Fiquei perplexo assistindo aquela fuga e ao mesmo tempo em que a decepção bateu por ele ter imaginado um absurdo daquele,(o uso da violência da minha parte) fiquei rindo sem graça, esperei calmamente a gasolina chegar e fui embora. Foi portanto, uma distração da minha parte imperdoável, na hora errada e no lugar errado. Por causa disso, nunca mais deixei meu tanque de gasolina esvaziar por completo.

 

Depois ele me procurou, pediu desculpas e confessou-se assustado e eu disse a ele que talvez eu também naquela circunstancia também fizesse o mesmo e ficou tudo bem, fizemos o acerto e ele se tornou um fiel e regular cliente na condição à vista antecipado, compra até hoje e nunca mais quis dever ninguém.

 

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Tags: acertos, amigáveis, cobranças, devedor, inadimplente, luizbento, medo, receio, vencidos

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Comentário de Luiz Bento Pereira em 24 fevereiro 2012 às 16:01

Sr. Roman Reisky, boa tarde e meus respeitos.

Cada um tem o Nostradamus que merece. rsss.

Eu fiz essa "alegoria" com o nome do profeta na brincadeira, sem querer desrespeitar a estatura do personagem Francês Michel. Foi no entanto um "causo", com base realmente em acontecimentos verdadeiros. Não me importo que eventualmente o personagem da minha história se identifique caso venha a ler, porque em momento algum eu depreciei a pessoa (ou o devedor) e pelo contrário, deixo bem claro que ele agiu no contexto, como poucos, pois sabe o amigo que o normal é a fuga, a omissão e na maioria das vezes, o descaso, a ironia (que não cabe), mas observe o amigo que pessoas nessa situação, costumam não dar o braço a torcer, não tocam em seus bens, às vezes adquiridos de forma irresponsável e pegam carona em crises como essas que estamos vivenciando para se justificarem. E pode observar que uma grande maioria são reincidentes e que ligam muito pouco para uma palavrinha mágica chamada reserva, que tecnicamente, contabilmente a gente chama de provisionar.

Não confundir com provisão para devedores duvidosos do outro lado do credor, que ironicamente o devedor contumaz pergunta: Você não tem? O imposto de renda permite até 3% sobre o saldo de duplicatas a receber.

Bom reinicio de ano a todos, quando temos menos de 40 dias para colocar a culpa nos coelhinhos da pascoa.

Comentário de Roman Reisky em 24 fevereiro 2012 às 15:00

 

O cara das profecias foi batizado como Michel de Nostredame em 1503, morreu em 1566, foi latinizado para Nostradamus e agora virou mascote dos "Causus de Mostradanus". Aos inadiplentes ele mostra os danus que a falta de mea culpa podem causar. Viva a inadiplência. Se você deve um milhão ao banco o problema é seu. Se você deve dez milhões ao banco o problema é dele. A crise roda e mundo gira!  De crise em crise alguns ficam pobres e 318 ficam ricos!

 

Comentário de Jorge Medeiros em 23 fevereiro 2012 às 22:35

Conheço bem a falta do "mea culpa".

Custei a enxergar, Mas agradeço à Deus a oportunidade de aprender e crescer com as crises.

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