Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XVI
Sougwen Chung propõe nova relação com IA baseada em experimentos de uma década.
A artista e pesquisadora sino-canadense Sougwen 愫君 Chung defendeu uma nova abordagem para a inteligência artificial durante sua participação no IT Forum Praia do Forte 2025, realizado nesta quinta-feira. Baseada em uma década de experimentos práticos com arte e tecnologia, Sougwen apresentou alternativas ao debate polarizado entre entusiastas e críticos da IA.
“Não é humano versus máquina, mas humano e máquina”, declara Sougwen, sintetizando em uma conjunção o que considera fundamental para compreender a relação contemporânea com a tecnologia.
A jornada que a trouxe até ali começou em 2015 com uma pergunta: o que significa desenhar diferente, desenhar ao lado de um agente não-humano? A curiosidade se transformou em pesquisa sistemática, levando-a a territórios onde arte, tecnologia e biologia se entrelaçam.
Seus experimentos transcendem a instrumentalização convencional da tecnologia. Na performance “Explosive Corpus”, realizada na Cidade do México, a artista utiliza seu próprio batimento cardíaco para controlar a iluminação do ambiente, enquanto um braço robótico responde a padrões derivados de dados de satélite. O trabalho combina o que ela chama de “inputs biológicos” com “visões globais formadas por visão de máquina”, criando o que define como “percepção planetária”.
“Plotamos um caminho para um novo tipo de relacionamento com as máquinas”, explica a pesquisadora. “Não um de comando e obediência, mas um que se centra em loops de feedback e fluxos invisíveis para nós.” A proposta contrasta com a lógica industrial baseada na eficiência e no controle unidirecional.
Enquanto sistemas massivos consomem vastas quantidades de dados para gerar textos e imagens em escala industrial, Sougwen trabalha com seus próprios conjuntos de dados, sinais do próprio corpo e algoritmos que treina como colaboradores. “Minha prática tem precedido esses sistemas e seguido um caminho diferente”, afirma, referindo-se às plataformas de IA generativa atualmente em evidência.
Seu projeto mais recente, “Floor Rearing Agricultural Network”, explora essa colaboração em dimensões inéditas. Trata-se de um sistema onde cada estado alfa de sua meditação — captado por sensores de ondas cerebrais — gera formações vegetais digitais. “Queremos colher criatividade de um jardim de computação de IA”, descreve a artista, explicando que o projeto conectará mais explicitamente sistemas biológicos e ecológicos no futuro.
A pesquisa com seda de bicho-da-seda representa outro aspecto de seu trabalho. Sougwen experimenta com esse material ancestral para criar circuitos eletrônicos biodegradáveis, flexíveis e responsivos ao ambiente. “E se uma máquina pudesse crescer? E se pudesse ser tecida, fiada ou cultivada, em vez de montada?”, questiona, descrevendo uma tecnologia que literalmente cresce em vez de ser fabricada.
A artista desenvolveu uma metodologia específica em sua série “Drawing Operations”: treina redes neurais com duas décadas de seus próprios desenhos para criar sistemas que respondem em tempo real a cada linha que traça. “Não aprovo ou desaprovo. Apenas deixo acontecer”, explica sobre o processo colaborativo com o algoritmo.
Os trabalhos também abraçam escalas urbanas. Utilizando dados de fluxo óptico extraídos de câmeras públicas, ela analisa padrões coletivos de movimento nas cidades, transformando a dinâmica dos transeuntes em arte visual. É o que chama de “ver duplamente” — simultaneamente através da visão biológica e computacional.
“Estamos vendo duplo”, observa Sougwen. “É a visão da máquina, a vista através de câmeras de segurança, satélites e redes sociais. Construímos um mundo onde toda visão é visão dupla.”
A pesquisadora se inspira na filósofa e ativista Grace Lee Boggs para desenvolver suas reflexões sobre hibridez. “Estamos vivendo vidas híbridas, então vamos fazer escolhas sobre essa hibridez”, propõe, citando Boggs como referência para pensar a “hibridez de cultura e de pensamento”.
Para Sougwen, que transita entre filosofia da tecnologia, bioengenharia e física quântica, a questão central reside em encontrar o que denomina “terceiro caminho” — um espaço onde contradições podem coexistir produtivamente. “Não existe uma coisa chamada inteligência artificial porque não existe uma única inteligência natural”, argumenta.
A artista usa a expressão “histeria da IA” para descrever o momento atual e contrapõe sua abordagem ao que considera um “pico de implementação” tecnológica. Em vez de automação, propõe colaboração; em vez de substituição, simbiose; em vez de controle, adaptação mútua.
“O significado não está nos dados, mas no significado que criamos”, afirma Sougwen ao encerrar sua apresentação. “Este é o terceiro caminho, o híbrido entre as contradições.”
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