“Não é humano versus máquina, mas humano e máquina”, diz artista no IT Forum Praia do Forte 2025

Sougwen Chung propõe nova relação com IA baseada em experimentos de uma década.

Sougwen Chung durante sua apresentação no IT Forum Praia do Forte 2025. Imagem: PlayP Brasil

A artista e pesquisadora sino-canadense Sougwen 愫君 Chung defendeu uma nova abordagem para a inteligência artificial durante sua participação no IT Forum Praia do Forte 2025, realizado nesta quinta-feira. Baseada em uma década de experimentos práticos com arte e tecnologia, Sougwen apresentou alternativas ao debate polarizado entre entusiastas e críticos da IA.

“Não é humano versus máquina, mas humano e máquina”, declara Sougwen, sintetizando em uma conjunção o que considera fundamental para compreender a relação contemporânea com a tecnologia.

A jornada que a trouxe até ali começou em 2015 com uma pergunta: o que significa desenhar diferente, desenhar ao lado de um agente não-humano? A curiosidade se transformou em pesquisa sistemática, levando-a a territórios onde arte, tecnologia e biologia se entrelaçam.

Seus experimentos transcendem a instrumentalização convencional da tecnologia. Na performance “Explosive Corpus”, realizada na Cidade do México, a artista utiliza seu próprio batimento cardíaco para controlar a iluminação do ambiente, enquanto um braço robótico responde a padrões derivados de dados de satélite. O trabalho combina o que ela chama de “inputs biológicos” com “visões globais formadas por visão de máquina”, criando o que define como “percepção planetária”.

“Plotamos um caminho para um novo tipo de relacionamento com as máquinas”, explica a pesquisadora. “Não um de comando e obediência, mas um que se centra em loops de feedback e fluxos invisíveis para nós.” A proposta contrasta com a lógica industrial baseada na eficiência e no controle unidirecional.

Enquanto sistemas massivos consomem vastas quantidades de dados para gerar textos e imagens em escala industrial, Sougwen trabalha com seus próprios conjuntos de dados, sinais do próprio corpo e algoritmos que treina como colaboradores. “Minha prática tem precedido esses sistemas e seguido um caminho diferente”, afirma, referindo-se às plataformas de IA generativa atualmente em evidência.

Seu projeto mais recente, “Floor Rearing Agricultural Network”, explora essa colaboração em dimensões inéditas. Trata-se de um sistema onde cada estado alfa de sua meditação — captado por sensores de ondas cerebrais — gera formações vegetais digitais. “Queremos colher criatividade de um jardim de computação de IA”, descreve a artista, explicando que o projeto conectará mais explicitamente sistemas biológicos e ecológicos no futuro.

A pesquisa com seda de bicho-da-seda representa outro aspecto de seu trabalho. Sougwen experimenta com esse material ancestral para criar circuitos eletrônicos biodegradáveis, flexíveis e responsivos ao ambiente. “E se uma máquina pudesse crescer? E se pudesse ser tecida, fiada ou cultivada, em vez de montada?”, questiona, descrevendo uma tecnologia que literalmente cresce em vez de ser fabricada.

A artista desenvolveu uma metodologia específica em sua série “Drawing Operations”: treina redes neurais com duas décadas de seus próprios desenhos para criar sistemas que respondem em tempo real a cada linha que traça. “Não aprovo ou desaprovo. Apenas deixo acontecer”, explica sobre o processo colaborativo com o algoritmo.

Os trabalhos também abraçam escalas urbanas. Utilizando dados de fluxo óptico extraídos de câmeras públicas, ela analisa padrões coletivos de movimento nas cidades, transformando a dinâmica dos transeuntes em arte visual. É o que chama de “ver duplamente” — simultaneamente através da visão biológica e computacional.

“Estamos vendo duplo”, observa Sougwen. “É a visão da máquina, a vista através de câmeras de segurança, satélites e redes sociais. Construímos um mundo onde toda visão é visão dupla.”

A pesquisadora se inspira na filósofa e ativista Grace Lee Boggs para desenvolver suas reflexões sobre hibridez. “Estamos vivendo vidas híbridas, então vamos fazer escolhas sobre essa hibridez”, propõe, citando Boggs como referência para pensar a “hibridez de cultura e de pensamento”.

Para Sougwen, que transita entre filosofia da tecnologia, bioengenharia e física quântica, a questão central reside em encontrar o que denomina “terceiro caminho” — um espaço onde contradições podem coexistir produtivamente. “Não existe uma coisa chamada inteligência artificial porque não existe uma única inteligência natural”, argumenta.

A artista usa a expressão “histeria da IA” para descrever o momento atual e contrapõe sua abordagem ao que considera um “pico de implementação” tecnológica. Em vez de automação, propõe colaboração; em vez de substituição, simbiose; em vez de controle, adaptação mútua.

“O significado não está nos dados, mas no significado que criamos”, afirma Sougwen ao encerrar sua apresentação. “Este é o terceiro caminho, o híbrido entre as contradições.”

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