Sete labels de jovens estilistas reescrevem como se faz e consome moda no país.



ão faz muito tempo, algumas das maiores marcas nacionais tinham como principal modelo de negócio e de imagem as grandes grifes de fora do país, em especial as europeias. O objetivo era criar um produto dito de luxo, exclusivo, de difícil acesso, cifras altas e lucro a qualquer custo. Só que a moda muda, e não só esteticamente.

Nos últimos anos, pudemos acompanhar o surgimento e – mais importante – o crescimento de uma nova geração de criadores e etiquetas com ideias, formas de trabalho e objetivos bastante diferentes daqueles vistos ao longo das duas décadas anteriores.

Vender roupa, claro, continua como meta número um, pois é a base da coisa toda. Porém agora existem outros fatores na equação, como gerar impacto positivo ambiental e socialmente, contar histórias e preservar saberes e culturas regionais.




AM BRAZIL
AM BRAZIL
AM BRAZIL
AM BRAZIL
AM BRAZIL
AM BRAZIL
AM BRAZIL
AM BRAZIL
AM BRAZIL

AM BRAZIL


Fundada em 2019, na Itália, a AM Brazil nasceu com uma estreia na semana de moda de Milão. O début serviu para deixar evidente o intercâmbio cultural que pauta o trabalho da fundadora, Amanda Medrado, filha de pai pernambucano e mãe potiguar. Outro ponto importante são os métodos de produção mais sustentáveis, a produção quase toda artesanal e o uso de materiais orgânicos, como palha de carnaúba e birreiro.

Amanda estabeleceu sua produção no litoral do Ceará, fazendo a ponte entre os municípios de Itarema e Itaiçaba, região onde habitam comunidades originárias dos Tremembés. Para que essa população e seus saberes fossem preservados, a AM Brazil criou o projeto Paba.

“Sempre buscamos a transparência, principalmente em relação às pessoas que produzem nossas peças. Queremos que elas saibam os valores inseridos nos produtos e entendam tudo que faz parte do processo de precificação: matéria-prima e trabalhos feitos por elas dentro do projeto Paba”, diz Amanda. Para dar ainda mais suporte aos Tremembés, a marca passou a produzir acessórios de forma terceirizada para outras grifes.




FOZ


A foz de um rio pode ser vista como o local onde ele acaba. Pode também ser entendida como o lugar onde ele se encontra com outras forças, se mistura e se torna algo novo. Um ponto de convergência. Foi a partir dessa segunda interpretação que Antônio Castro chegou ao nome de sua marca. A conexão fluvial não para por aí. A Foz tem como base o trabalho com comunidades ribeirinhas de Alagoas. São roupas, acessórios e objetos de design feitos pelas mãos talentosas das artesãs alagoanas com tecidos naturais, bordados, tricôs, entalhes, cestarias, cerâmicas e rendas.

“Acredito que a importância desse trabalho, além de exercitar as possibilidades que o artesanato pode assumir por meio de diferentes olhares, é pensar como a tradição pode se reinventar”, fala Antônio. “Existe a ideia de que o que é tradicional precisa ser congelado no tempo, mas não é necessariamente verdade. Sempre há espaço para o novo e, na busca pelo contemporâneo, encontramos novos espaços para o artesanato na vida cotidiana.”

A Foz se baseia no entendimento do tempo de cada etapa da cadeia produtiva, seja ela artesanal ou industrial. Por isso, as peças são feitas em pequena escala, com parceiros que entendem as particularidades do trabalho. Apesar do foco no manual, a digitalização serve como aliada na hora de pautar a transparência da grife. Um exemplo é o uso de QR Code para identificar cada artesã responsável pela criação de determinada peça e o tempo necessário para produzi-la.


FOZ
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ISAAC SILVA
ISAAC SILVA
ISAAC SILVA
ISAAC SILVA
ISAAC SILVA
ISAAC SILVA
ISAAC SILVA

ISAAC SILVA


Com o mote Acredite no Seu Axé, o baiano Isaac Silva é um dos principais nomes da nova moda brasileira. Nascido em Barreiras, cidade do interior da Bahia, a 800 km de Salvador, o estilista se tornou o queridinho de celebridades como Elza Soares e Gaby Amarantos. Desfilou pela primeira vez na Casa dos Criadores, em 2015, e em 2019 passou a integrar o line-up da São Paulo Fashion Week.

Radicado há mais de uma década em São Paulo, Isaac traz os resgates ancestrais por meio de uma moda afro-indígena cheia de identidade e com fortes referências a religiões de matriz africana. Tudo começou com a constatação e a observação da invisibilidade de pessoas pretas na moda. Em experiências profissionais anteriores, o designer pôde ver de perto esse dado, que ainda se repete. A solução foi construir uma narrativa que traz a verdadeira brasilidade ao vestuário.

A marca se fortalece com o apoio de amigos, clientes e empresas parceiras, como a Havaianas. O estilista criou duas coleções com a etiqueta de calçado, impulsionando seu nome por todo o território nacional e, mais recentemente, também internacionalmente.

A colaboração foi essencial para garantir a sobrevivência da Isaac Silva durante os meses mais duros de isolamento social e viabilizar os planos de expansão. “Só tivemos crescimento de números positivos em geral, boa divulgação online e a collab com uma das maiores empresas do Brasil. Abrimos uma linda loja no bairro de Pinheiros e ampliamos o número de colaboradores. Estamos virando uma grande empresa”, finaliza Isaac.




MISCI


Quando falamos em marcas que trabalham o Brasil como ferramenta de inspiração, a Misci é um bom exemplo do resgate nacional por meio da sofisticação e do design autoral. Criada por Airon Martin em 2019, a etiqueta se destaca ao contar, por meio de roupas, acessórios e mobiliário, a história de um país plural, que vai muito além dos grandes centros urbanos.

Desde o algodão orgânico até projetos envolvendo mães solo, a marca busca fomentar a produção nacional. Airon credita a popularidade da Misci à transparência e à verdade. Para ele, após os recentes períodos de turbulência pandêmica, só narrativas verdadeiras terão destaque.

A grife abre o diálogo para o consumo de um luxo nacional, mostrando possibilidades de um produto inteiramente brasileiro, da matéria-prima à mão de obra. Mesmo nos piores momentos da pandemia, Martin destaca as oportunidades oferecidas por parceiros e patrocinadores para o fortalecimento da marca. “Crescemos mais de 400% no último ano e dobramos nossa equipe. O crescimento da Misci tem sido uma resposta ao novo olhar do consumidor para o mercado”, pontua.


MISCI
MISCI
MISCI
MISCI
MISCI
MISCI
MISCI
MISCI
MISCI


NERIAGE
NERIAGE
NERIAGE
NERIAGE
NERIAGE
NERIAGE
NERIAGE

NERIAGE


A Neriage nasceu em 2017 como o trabalho de conclusão de TCC de Rafaella Cannielo, idealizadora da marca. Seu trabalho se destaca pelos processos feitos a muitas mãos e observações cotidianas do coletivo – algo recorrente em todas as novas marcas atualmente no mercado. A soma de design original, criatividade e alta qualidade fez com que a estilista e sua grife garantissem, desde cedo, a presença nas semanas principais de moda nacional: primeiro na Casa de Criadores e depois na SPFW.

A trajetória, contudo, nem sempre foi fácil. Rafaella lembra que, em 2020, quase teve de fechar a empresa devido à queda nas vendas e a interrupções impostas pela pandemia. No ano seguinte, conseguiu se reerguer depois de algumas ações internas, créditos e a uma nova sociedade com Laura Cerqueira Leite.

Juntas, elas são responsáveis pela expansão da Neriage, num projeto de longo prazo e baseado em pilares sociais, econômicos e ambientais, pautando uma cadeia de produção consciente. “Abrimos a nossa loja física e não nos focamos só no online. O espaço físico viria a criar o lifestyle da Neriage sem necessariamente depender exclusivamente de roupas que, atualmente, nem temos muito onde usar. Estamos caminhando para ser uma marca, além de apenas um produto”, afirma.




OLÊ RENDEIRAS


O Olê Rendeiras surgiu como um braço social da Catarina Mina, grife de acessórios fundada por Celina Hissa e conhecida nacional e internacionalmente por suas tramas bem desenvolvidas de crochê e palha. Aqui, porém, o foco é no resgate de saberes manuais, como renda de bilro, labirinto e filé.

“Em 2014, passamos a refletir sobre a vontade de conversar com o consumidor, de uma forma mais aberta, sobre tudo que envolve os processos criativos e manuais”, fala Celina. A estilista acredita haver pouco entendimento do consumidor em relação aos processos de produção e ao tempo necessário para a fabricação de uma peça.

O projeto teve início com apenas 12 rendeiras e, hoje, é fortalecido por uma rede de mais de 230 artesãs da região do Trairi, no Ceará. “Temos ainda a Oficina de Fazer e Escuta, onde ouvimos as dificuldades e os desafios, além de aprender as peculiaridades em relação a cada tipo de artesanato e entender como direcionar cada estilo para mercados de trabalhos diferentes”, completa Celina.

Segundo a estilista, a ideia é fazer uma imersão nas comunidades e, a partir daí, entender suas necessidades e seus desejos para melhor viabilizar projetos. “Tudo é uma troca muito fluida e genuína com todas as artesãs”, fala Celina.


OLÊ RENDEIRAS
OLÊ RENDEIRAS
OLÊ RENDEIRAS
OLÊ RENDEIRAS
OLÊ RENDEIRAS
OLÊ RENDEIRAS
OLÊ RENDEIRAS
OLÊ RENDEIRAS
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