Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XVI

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"Apenas 1% acaba reciclado com qualidade": eis o impacto dos resíduos têxteis

O poliéster, as fibras sintéticas e as microfibras não são fáceis de reciclar e, por isso, têm um grande impacto ambiental e na saúde das pessoas. Susana Fonseca, da associação ambientalista Zero, explica que o cenário é "bastante preocupante" e aponta a "responsabilidade quase total" à indústria da "fast fashion", que "produz sem qualquer preocupação em relação ao que vai acontecer à peça de roupa no final da sua vida". A especialista dá ainda uma sugestão: se o produto for usado mais nove meses, é possível reduzir "entre 20 e 30 por cento da pegada carbónica dessa mesma peça".


"Apenas 1% acaba reciclado com qualidade": eis o impacto dos resíduos têxteis

© Photo by Mel Poole on Unsplash

São milhares as toneladas de roupas deitadas ao lixo todos os anos, mas nem só de roupas se fazem os têxteis. Estão presentes em toda a vida quotidiana, como por exemplo, no mobiliário, nas tapeçarias ou até no equipamento médico e de proteção, nos isolamentos dos edifícios e no enchimento dos bancos dos veículos, sendo, assim, o quarto setor com maior impacto no ambiente e nas alterações climáticas. Para Susana Fonseca, da associação ambientalista Zero, o cenário é "bastante preocupante" tendo em conta que, a nível mundial, "apenas um por cento dos têxteis produzidos acaba por ser reciclado com qualidade", ou seja, "reciclados em fibras que podem voltar a ser utilizadas em fins semelhantes".

"Quando olhamos para o espaço europeu, o que os dados apontam é que há um consumo de 15kg per capita por ano. Cada europeu consome à volta da 15kg de têxteis e isso vai resultar em 5,8 milhões de toneladas de resíduos. Estamos a falar de cerca de 11kg por pessoa ao ano de resíduos têxteis que são produzidos na Europa. Cerca de 80% dos impactos que ocorrem relacionados com o setor têxtil e o ciclo produtivo ocorrem fora do espaço europeu, muitas vezes, a Europa importa produtos e todo o impacto que foi acontecendo ao longo da produção das fibras e da própria roupa acaba por acontecer noutros países, com grande impacto ambiental e saúde das populações", explica.




Já em Portugal, "os têxteis já representam 3,45 por cento do total de resíduos recolhidos", sendo que em 2021 foram recolhidas mais de 176 mil toneladas de resíduos têxteis pelos sistemas de gestão. "Estamos a falar de um fluxo que já tem um peso significativo e é algo preocupante", defende Susana Fonseca.

No âmbito da Semana Europeia da Prevenção de Resíduos, que se assinalou na semana passada, a Zero realizou uma "breve análise a algumas lojas online das 35 principais marcas de roupa" e "apenas seis referem ter algum tipo de iniciativa de recolha para reciclagem, o que quer dizer que a maioria das empresas não está ainda a fazer nada para resolver um problema do qual também são responsáveis".
"Eles, enquanto produtores, ao colocarem produtos no mercado, têm também aqui a responsabilidade de garantir que é feita uma boa gestão desse resíduo no final da sua vida útil e isso, neste momento, não está a acontecer."

Poliéster e libertação de microfibras: os impactos para o ambiente

A maioria destes têxteis é produzida com fibras sintéticas, incluindo também petróleo na composição e, muitas vezes, as pessoas deitam as roupas fora pouco tempo depois de as terem adquirido. Na passada sexta-feira assinalou-se a Black Friday, um dia em que as lojas fazem "grandes descontos" e em que as pessoas aproveitam para fazer compras. Susana Fonseca afirma que "uma das marcas do setor têxtil foi o seu crescimento muito acentuado nas últimas décadas".

"A produção global de fibras aumentou três vezes desde 1975, sendo que neste momento as fibras sintéticas representam já praticamente 70% das fibras produzidas. O poliéster é aquele que ocupa o maior espaço. Este crescimento acentuado aconteceu muito pelo acesso a mão de obra barata em países em desenvolvimento, mas também pelo aumento de disponibilidade de poliéster. Calcula-se que por ano cerca de 70 milhões de barris de petróleo sejam explorados apenas para este setor e o poliéster é também a fibra que mais tem responsabilidade na libertação de microfibras para o ambiente e que não é fácil de reciclar", adianta a especialista.

"Atualmente nós temos uma indústria que produz sem qualquer preocupação em relação ao que vai acontecer à peça de roupa no final da sua vida. Isso é uma preocupação que devemos ter e é uma situação que temos que alterar rapidamente e, se tivermos em conta a durabilidade, até antes de se tornar um resíduo, se nós utilizarmos mais nove meses, conseguimos reduzir entre 20 e 30 por cento da pegada carbónica, da água e de resíduos dessa mesma peça, o que demonstra como é importante cada vez mais conseguirmos ter roupas de qualidade para podermos diminuir o impacto ambiental da sua produção", sustenta.

A responsabilidade da indústria de "fast fashion"

Apesar de haver a "colaboração dos cidadãos", a indústria de moda ou de "fast fashion", ou seja, a "moda rápida", tem uma "responsabilidade quase total" na produção de resíduos têxteis.

"Quem instigou o modelo, quem o implementou, quem o diariamente tenta através de diferentes estratégias de marketing mantê-lo ou até acelerá-lo são as marcas. E não só nos países onde estão instaladas, mas vemos que, em termos de progressão para novos mercados as estratégias são sempre as mesmas, querem vender o mais possível sem se preocuparem se os países têm ou não infraestruturas próprias para tratarem estes resíduos", sublinha Susana Fonseca.

"A indústria da moda, em particular aquela que alimenta esta 'fast fashion', estas roupa de menor qualidade, com vida muito curtas, são marcas com muitas coleções durante o ano, estão sempre a bombardear os consumidores com as novidades e a necessidade de comprar mais roupa. Têm um papel fundamental para resolver este problema, tendo que assumir a sua responsabilidade enquanto produtor e poluidores."

A estratégia europeia para os têxteis e a responsabilidade alargada do produtor

Já existem estratégias e metas europeias para a reciclagem de têxteis e uma aposta maior na economia circular. Susana Fonseca destaca a estratégia europeia para os têxteis, que foi conhecida em março deste ano e que "percebe que o modelo atual não se pode manter". "Esta ideia de estarmos constantemente a produzir e a consumir não é sustentável e não é através da reciclagem que vamos torná-la sustentável, é preciso agir a outro nível."

A estratégia da Comissão Europeia propõe "trabalhar ao nível do ecodesign, promovendo a durabilidade e a sustentabilidade das fibras, reduzir a pegada química dos têxteis e proibir a destruição de têxteis que não são vendidos ou que são devolvidos"

"As pessoas, muitas vezes, compram sem se preocupar e depois devolvem. Essa roupa que é devolvida não volta ao circuito de comercialização, é considerada como um refugo e acaba por ser destruída. As pessoas podem ser mais conscientes nas encomendas e encomendar aquilo que realmente precisam", considera Susana Fonseca.

A poluição por microplásticos e a garantia de que as empresas são responsáveis pelas suas cadeias de produção, respeitando os direitos humanos e ambientais são outros dos elementos referidos na estratégia europeia para os têxteis.

A responsabilidade alargada do produtor é também um dos elementos-chave, isto é, "garantir que quem coloca os produtos no mercado, neste caso, as marcas, pagam um 'ecovalor', que depois é utilizado para assegurar que, quando aquele produto se torna um resíduo, é tratado da melhor forma, sendo encaminhado para reciclagem".

"É fundamental ir um bocadinho além deste modelo e modernizar a responsabilidade alargada do produtor, garantindo a reutilização. No caso dos têxteis, trabalharmos a questão da durabilidade através da 'ecomodulação', ou seja, as marcas pagarem mais ou menos 'ecovalor' consoante a durabilidade das peças que colocam no mercado, as fibras que utilizam nessas peças. Perceber todo o ciclo daquele produto e, tendo essas características em conta, criar um sistema que permita que as marcas que investem mais em termos de sustentabilidade sejam beneficiadas."

"Menos é mais." Como ajudar na reciclagem dos têxteis?

Além das marcas, também o consumidor tem um papel fundamental para a reciclagem de resíduos têxteis e a promoção de uma economia mais circular. A máxima de Susana Fonseca é: "Menos é mais." Ou seja, "devemos usar os produtos o máximo que conseguimos, ver se é possível atualizá-los se já estiverem fora de moda, criando novas peças a partir das mais antigas, doar, vender, trocar, e no caso de comprar, preferir artigos de qualidade e que não passem de moda facilmente".

A especialista dá ainda outras dicas: "Quando misturamos fibras numa mesma peça dificultamos a reciclagem, por isso preferir também peças só com uma fibra ou fibras de origem renovável. E exigir mais das marcas no que toca à qualidade, ao tipo de fibras que usam e em assumir a responsabilidade enquanto agentes que colocam este produtos no mercado."

https://www.tsf.pt/programa/verdes-habitos/apenas-1-acaba-reciclado...

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