Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XVI

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Cursos de moda no Brasil e sua importância para o profissional de moda


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Após a leitura de uma matéria que falava sobre o problema de se formar em Design de Moda e a distância dos cursos do mercado, gostaria de elencar neste post algumas considerações importantes de esclarecer antes que um dano maior seja feito aos que estão amadurecendo a ideia de um curso superior na área de moda.


1. O autor do texto fala que os cursos de moda no Brasil estão longe da realidade de mercado. No entanto, ele deve se referir à universidade que ele cursou, e não generalizar. Existem cursos de moda no Brasil que pensam que estão na realidade europeia ou americana, mas isso não é regra, e sim exceção.

Não que tenha algo de errado pensar em ter a qualidade destes cursos de referência, mas o que não se deve é achar que temos um mercado aberto aos criadores nos moldes de lá. Podemos até ser mais criativos, porém, a realidade de nossa criação é outra. Coordeno um curso de moda e busco sempre ser referência de qualidade, o que não significa que acho que qualidade é apenas ensinar aos alunos como ser Alexander McQueen, Hussein Chalayan, Peter Piloto, Stella McCartney...

2. Ser designer não é ser estilista, apenas. No texto o autor diz para fazer um curso de desenho industrial, gráfico, etc., se quiser trabalhar com design. Desmerece a área que estudou e não compreende que o "design" significa desenho, mas não o desenho de gráfico, a representação gráfica, mas desenho de projeto.

Formar um designer de moda é preparar um profissional apto a atuar nas mais diversas áreas de trabalho, projetando desde uma coleção "conceitual" (como ele cita) até uma coleção real, que pode ser um fardamento. Quem melhor para fazer um fardamento do que um designer de moda que conhece ergonomia,modelagem, tecido e ainda tem uma visão estética diferenciada?

O designer não vai apenas desenhar uma roupa linda, mas vai saber porque a desenhou, como irá executá-la, qual será o custo dela, dentre várias outras variáveis que transformam um simples "fazer roupa" em um projeto de design. Não, o design industrial e o gráfico não terão a mesma destreza em fazer tal projeto. Estou certa disso.

Da mesma forma, estou certa que um curso superior dá uma visão do todo, porque se estuda história da arte para criar um projeto, porque é importante compreender a comunicação no processo de criação. Isso, não dá para aprender em cursos e oficinas rápidas, pois a visão será parcial e muito técnica e não envolverá a inter e multidisciplinaridade que um curso superior (que tenha uma visão de todo e de educação integral) pode ofertar.

3. No curso que coordeno, damos uma visão de business na moda. O aluno pode até querer ser estilista, mas tem que saber que não basta sonhar em fazer coisas lindas, tem que conhecer o mercado, a realidade, o que o espera e, sobretudo, aprender o valor de um projeto, coisas que talvez nem todos ensinem por achar que "arte" não tem preço.

Porém, moda está no campo do design e o design é feito para a indústria e para mercado, então tem sim um preço e todos tem que saber qual é antes de empurrar um projeto que nada tenha a ver com a empresa que o contrata. Hoje, o mercado guia a criação. Não significa que os profissionais tenham que se vender e nem que os cursos de moda no Brasil tenham que ensiná-los a serem medíocres. Mas ser designer de moda é entender anecessidade do mercado e do consumidor para criar produtos e serviços que irão satisfazê-los.

4. O autor se contradiz quando fala que a moda ensinada aqui não tem nada de conceitual e não é voltada para o mercado. Talvez não tenham lhe ensinado que conceitual nada mais é do que ser criada a partir de umconceito. Um designer sempre parte de um conceito, o fim para o qual se destina seu projeto é que irá determinar o seu formato e apresentação.

No Brasil não temos um mercado criador, mesmo porque não temos grandes semanas de apresentação de criadores, não temos grandes patrocinadores. Os estilistas internacionais se dão ao luxo de apresentar aquelas coleções conceituais naked (que estão brutas, sem adequação ao mercado consumidor) porque tem grandes conglomerados que pagam por elas e sabem que aqueles desfiles milionários não serão nada comparados à mídia que receberão.
Aqui, ao contrário, não há mídia espontânea, tudo é vendido, tudo é pago, não há incentivo e nem patrocínio, nem a grandes e muito menos a pequenos;,é briga por um carretel de linha, então não se pode fazer tal comparação.

5. Em geral, não há briga de egos no universo acadêmico da moda. Muitas vezes os alunos se frustram exatamente porque buscam isso, mas não encontram glamour, brilhos e purpurinas. Os que são maduros logo percebem que é uma profissão como qualquer outra. Quem pensa que será a próxima Chanel ou Gisele Budchen, e se depara com a realidade dos cursos de moda, pula logo fora. Talvez isso também tenha sido uma situação do curso do autor...

6. Para finalizar, devo dizer que as empresas, indústrias e empresários da moda, fariam muito bem em contratar designers de moda, mas a realidade dos cursos de moda é que a academia está longe do mercado muito mais porque o mercado rejeita os formados do que porque o curso mantém distancia do mercado. Hoje a tendência das universidades, sobretudo para cursos superiores de tecnologia, é que os docentes também atuem no mercado, e isso aproxima e não afasta como ele diz. No entanto, sem a crença de que um profissional trará benefícios, nada muda e o abismo se abre.

Não tem sido fácil conseguir estágios e até mesmo visitas técnicas para os alunos, pois muitas empresas estão acostumadas com sua produção familiar ou leiga, mas que funciona mesmo com prejuízos, vê no profissional uma ameaça, pois este às vezes muda e mudanças... Doem e incomodam.

Cursos de moda no Brasil formam profissionais que tenham visão do todo/ Fonte: site Unipe




Por Gabriela Maroja
Professora e Coordenadora da Graduação e Pós-Graduação em Moda no Unipê/JP

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Existem cursos de moda no Brasil que pensam que estão na realidade europeia ou americana, mas isso não é regra, e sim exceção.

Hoje, o mercado guia a criação. Não significa que os profissionais tenham que se vender.

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