Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XIV

Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XIV

Está nas nossas mãos sermos cúmplices da dita normativização social ou dizer “já basta”. Nem cores, nem papéis, nem tópicos onde nos encaixamos desde crianças.
Foto de Set/Flickr

E se vestíssemos as meninas de azul e os meninos de rosa, o que aconteceria? Por que nos obcecamos em realçar o sexo dos nossos bebés? É menina ou menino? É assim tão importante? Às crianças, por enquanto, parece que isso não lhes importa. A “obsessão” da sociedade por nos identificar e associar a cada um dos sexos determinados padrões de comportamento, marca-nos desde o primeiro minuto da nossa vida. De facto, a pergunta mais repetida a uma grávida é: É menino ou menina? E em função de seu sexo pode ser que lhe ofereçam roupinhas de um tipo ou outro e acessórios de umas cores ou outras. Também, muito provavelmente, as expectativas associadas a esse novo bebé serão diferentes.

Normativizadas desde o útero materno

A sociedade heteropatriarcal atribui-nos uma série de papéis e funções dependendo dos nossos genitais. Normativizam-nos desde muito pequenos, eu diria inclusivamente desde o útero materno, construindo um ideal de masculinidade e de feminilidade, com uma clara diferença e desigualdade entre os sexos. Aos homens é atribuído um papel masculino, às mulheres um papel feminino, com toda a carga social e cultural que ambos implicam. Não há liberdade para poder sentir, explorar, escolher e decidir. Estamos condicionados socialmente, e frequentemente da maneira mais subtil. A norma é a norma também no que diz respeito ao género. Pensamos nós, com esperança, que seremos capazes de o combater. Não é assim tão fácil.

A nossa sociedade está mais interessada em estabelecer as diferenças entre um género e outro, com as desigualdades consequentes, do que em fomentar a equidade e a liberdade.

As meninas e os meninos não só socializam e constroem as suas identidades a partir do que vêm em casa, o que nem sempre é perfeito nem coerente por mais que se tente, mas também a partir das suas vivências na escola, com familiares e amigos ou vendo televisão. O nosso decálogo “impoluto” da igualdade entre os sexos, desfaz-se em fanicos quando se encontra com a realidade. Comentava-mo recentemente uma amiga: “A minha filha pede-me para se vestir de rosa. Diz que é a cor das meninas”. E acrescentava: “E olha que em casa nunca lhe comprámos roupas dessa cor”. Não é a primeira vez que ouço uma história parecida. A nossa sociedade está mais interessada em estabelecer as diferenças entre um género e outro, com as desigualdades consequentes, do que em fomentar a equidade e a liberdade.

Embati contra esta quotidianeidade mesmo antes de parir, quando fui comprar roupa para o bebé que esperávamos. Qual foi a minha surpresa ao ver que muitas lojas e centros comerciais dividem a roupa entre meninas e meninos. E não me refiro só à secção de uns poucos anos para cima, quando talvez se pode começar a identificar à primeira vista, ou não, o sexo da criança, mas ao vestuário de recém nascido. Assim nos tamanhos de 50 a 80 cm, dos 0 aos 12 meses de vida, talvez possas encontrar um babygrow, um body, uma manta ou um gorro de cor creme ou branca, mas o mundo da indumentária do bebé está dominado, sem dúvida, pelo rosa e pelo azul. A paleta de cores reduz-se a duas para que fique bem claro quem é menino e quem é menina. Apesar de, cada vez mais, a pouco e pouco, pequenas lojas tentarem combater esta dinâmica mainstream, dando uma alternativa às famílias que não querem reproduzir os estereótipos de género no vestuário infantil.

Do branco às cores por género

Mas, a distinção entre meninas e meninos com o rosa e o azul não sempre tem sido assim. A historiadora Jo B. Paoletti deixa-o claro no seu livro “Pink and Blue: Telling the Boys from the Girls in America” (Rosa e azul: distinguindo os meninos das meninas na América), onde conta como durante séculos nos Estados Unidos as crianças, até os seis anos de idade, vestiam, com saia incluída, algo impensável hoje em dia, e de tom branco. Tratava-se de uma “questão prática”, a roupa e as fraldas de algodão eram fáceis de branquear e ficavam mais limpas. Algo habitual na época, onde, ao contrário de hoje, se considerava de mau gosto vestir os recém nascidos como menina ou menino. Uma tendência que lhes permitia ter identidade própria, como bebés, além do seu sexo.

“O rosa foi no passado um tom vinculado à masculinidade, era apreciado como sendo um “vermelho aguado” e considerava-se que mantinha a força desta última cor. Em 1914, o jornal norte americano Sunday Sentinel chegou a recomendar às mães “utilizar o rosa para os meninos e o azul para as meninas”, se queriam seguir as “convenções”.

As cores como identificadores do género não começaram a ser utilizadas até ao princípio do século XX, pouco antes da I Guerra Mundial, apesar de já no século XIX terem emergido alguns tons pastel, entre os quais estavam o rosa e o azul. No entanto, quando há cem anos se começou a vestir os meninos de uma cor e as meninas de outra, a tendência não era a atual. Às vezes inclusivamente era a contrária: vestiam-se os meninos de rosa e as meninas de azul. Explica-o o artista Sul Coreano JeongMee Yoon no seu projecto “The Pink and Blue Project” (Projeto azul e rosa), onde retrata de maneira extraordinária dezenas de crianças rodeadas pelos seus brinquedos de uma cor só: “O rosa foi no passado um tom vinculado à masculinidade, era apreciado como sendo um “vermelho aguado” e considerava-se que mantinha a força desta última cor. Em 1914, o jornal norte americano Sunday Sentinel chegou a recomendar às mães “utilizar o rosa para os meninos e o azul para as meninas”, se queriam seguir as “convenções”.

O mesmo descreve Jo B. Paoletti na sua obra ao citar um artigo de 1918 da revista Earnshaw’s Infants’ Department que dizia: “A norma geralmente aceite é o rosa para os meninos e o azul para as meninas. A razão é que o rosa, sendo uma cor mais forte e decidida, é mais adequado para os varões, enquanto que o azul, mais delicado e requintado, é melhor para elas”. Ainda que a mesma autora esclareça que a dita tendência não foi tão universal como a que existe atualmente e que “o rosa nunca foi considerado uma “cor de menino” como agora se considera o rosa para as meninas”. Outras publicações da época, segundo Paoletti, diziam que o azul era para os bebés com olhos azuis e o rosa para os que os tinham castanhos, ou que o azul favorecia mais as loiras e o rosa as morenas. Como vemos, a cor associada a um sexo ou outro não é nada mais do que uma convenção social e cultural e varia em função da geografia e do tempo.

A partir dos anos 40, o rosa e o azul ganharam o significado que têm na actualidade, como resultado daquilo que os fabricantes e lojistas consideraram ser as preferências dos compradores norte-americanos, ainda que a sua generalização entre os consumidores não tenha sido nem rápida nem linear. A partir de 1960, nos Estados Unidos, e com raiz no auge do movimento feminista, as coisas mudaram temporariamente. A moda infantil unisexo voltou a estar em voga, e durante poucos anos alguns catálogos comerciais retiraram a cor rosa da roupa para as mais crianças. Uma moda “unisexo” que não só incidiu no vestuário infantil, mas também no de homens e de mulheres. Segundo o artista JeongMee Yoo: “Como sociedade moderna entrada na correcção política do século XX, emergiu o conceito de igualdade de género e, em consequência, acabou-se com a perspectiva das cores associadas a cada género”.

A tendência generalizou-se especialmente a partir de mediados dos anos 80 com o desenvolvimento das técnicas de diagnóstico pré-natal que detectam o sexo do feto. Uma técnica que indirectamente abriu grandes oportunidades de negócio, já que ao saber antecipadamente o sexo da criança se podem individualizar mais as compras

Hoje, o rosa e o azul, como cores vinculadas ao feminino e ao masculino, impõem-se como nunca antes. Segundo Jo B. Paoletti, fazendo referência aos Estados Unidos, a tendência generalizou-se especialmente a partir de mediados dos anos 80 com o desenvolvimento das técnicas de diagnóstico pré-natal que detectam o sexo do feto. Uma técnica que indirectamente abriu grandes oportunidades de negócio, já que ao saber antecipadamente o sexo da criança se podem individualizar mais as compras e aumentar as vendas, perante uns pais ansiosos por decorar o quarto infantil. A partir de então, e no auge do consumismo, não só começamos a encontrar roupa de cor azul ou rosa mas todo o tipo de utensílios, desde biberões passando por berços até chupetas, cadeirinhas, trocadores, banheiras, carrinhos… que não deixam dúvidas sobre qual o sexo do bebé graças a sua cor.

Moda sexista

No entanto, a moda infantil não se limita só às cores. Sabias que a roupa às bolinhas é para meninas e às riscas é para meninos? Eu não sabia, contou-me a minha sogra que sabe imenso de moda. A isto junta os clássicos de fadas, laços, princesas e flores para elas e dinossauros, carros, super-heróis e barcos para eles. O fervor por identificar o género da criança com a roupa não tem limites, chegando inclusive a recusar o que gostamos se não é “catalogado” como suficientemente masculino ou feminino. Conto-vos o caso de uma senhora que vi numa loja de roupa. A mulher tinha uma t-shirt nas mãos, não lembro agora nem a cor nem o que tinha estampado, aproximou-se a uma empregada da loja e perguntou: “Desculpa, esta roupa é para menina?”. A empregada, de forma serviçal, respondeu-lhe: “Não, é para menino. A roupa de meninas está mesmo em frente”. A mulher suspirou e com ar pesaroso deixou o tecido ao lado da empregada e disse: “Que pena, gostei mesmo dela”.

De facto, a moda é sexista e contribui para criar o estereótipo da “mulher autêntica” e do “homem autêntico”, onde temos de nos encaixar. A sociedade patriarcal normativiza-nos, quer queiramos quer não, desde a mais tenra infância e descrimina-nos segundo o género. 

De facto, a moda é sexista e contribui para criar o estereótipo da “mulher autêntica” e do “homem autêntico”, onde temos de nos encaixar. A sociedade patriarcal normativiza-nos, quer queiramos quer não, desde a mais tenra infância e descrimina-nos segundo o género. Algumas marcas consideram-no normal. Assim, no ano passado, a cadeia de supermercados Hipercor vendia, sem nenhum pudor, uns bodies infantis com o seguinte slogan: “Inteligente como o pai” (na versão masculina e, obviamente, azul) e “Bonita como a mãe” (na feminina… e rosa). A Zara também, neste mesmo ano, lançou no mercado unsbodies para os mais pequenos onde estava escrito “Pretty & perfect. It’s what daddy said” (Bonita e perfeita. É o que disse o pai) para as meninas e “Cool & clever. It’s what mummy said” (Fixe e esperto. É o que disse a mãe) para os meninos. Felizmente, a mobilização e as denúncias através das redes sociais fez que as empresas se vissem obrigadas a retirar os produtos dos seus catálogos.

Os brinquedos também não escapam à cor única. Um simples passeio pela secção de brinquedos de uma grande superfície demonstra-o. Para além do sexismo que encontramos em muitos dos jogos infantis (cozinhas, bonecas e cabeleireiros de um lado; carros, heróis e computadores do outro), a sua cor deixa claro a quem são dirigidos. Até empresas como a Lego, que desde sua fundação em 1934 se tinham caracterizado por tratar indistintamente os meninos e as meninas, lançou em 1971 uma linha destinada exclusivamente às raparigas: Lego homemaker, com figuras de mães extremosas, avós e filhas a cuidar dos homens da casa. A versão moderna foi lançada em 2012 com o nome de Lego friends, onde, com um sexismo mais subtil, muitas de suas peças estão pintadas de rosa.

Mesmo o ovo Kinder Surpresa, tão popular entre as crianças, não escapa às ditas cores. Em 2013, a companhia italiana Ferrero, proprietária da marca, lançou na Grã-Bretanha uma série limitada de ovos kinder em rosa, com bonecas em seu interior, e em azul, com carros. A companhia defendeu-se das acusações de “sexismo” alegando que desta maneira se facilitava aos pais a compra em função dos interesses dos seus filhos. Mas se isto não é sexismo, alguém me diga o que é. O que é claro é que para muitas empresas, o unisexo já não vende e é mais rentável consolidar os papéis e as consequentes desigualdades de género.

Está nas nossas mãos sermos cúmplices da dita normativização social ou dizer “já basta”. Nem cores, nem papéis, nem tópicos onde nos encaixamos desde crianças. Crescer em liberdade implica fazê-lo à margem das imposições de uma sociedade heteropatriarcal que nos dita o que e como ser. Nem rosa nem azul, mas livres e únicas. Sim, é possível.

Artigo publicado no Publico.es, a 19 de novembro de 2015, tradução de Joana Campos para o Esquerda.net.

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O LOUCO, O DIFERENTE E O MELHOR

 

Caminhando com a tranqüilidade de quem é normal, por uma rua movimentada de Campinas, ia um rapaz com cabelos penteados para cima, tinto com faixas coloridas: Laranja, azul e vermelho. Mais diferente de todos seria quase impossível, mas um brinco, tipo argola de torturar escravo, na orelha e outro brinco com correntinha no nariz, não deixava dúvida: ali estava um exemplar de ser humano diferente.

Num manicômio público havia um interno muito antigo. Ninguém sabia ao certo quando ele por lá apareceu. Não era violento, sorria com facilidade e até demonstrava certa coerência no que falava. Andava solto, quase não sofria tratamento ou tomava remédios. Era mais um hóspede do que um paciente. Devido a liberdade que desfrutava chegava a manter uma conversa, cheia de sentido, com alguns visitantes. Mas tinha uma mania: Assim que conseguia a confiança ou um mínimo de amizade, procurava mostrar ao interlocutor um pequeno caroço que trazia no alto da cabeça. Era algo parecido com um pequeno cisto sebáceo, duro e fixo, mas coberto por um pouco de pele. Ele dizia ser um prego, que ele mesmo pregara bem no meio da cabeça. Entre risos disfarçados e expressões de simpatia, surgia a certeza de um desperdício irreparável: Um homem sem o perfeito uso da razão.

O tempo foi passando, a história do louco sendo contada e um dia a morte por causa natural acabou com a existência de alguém que quase nada produzira na vida, a não ser a história absurda do prego pregado por ele mesmo na cabeça.

Como de praxe foi feita a necropsia no corpo do velho louco. E os médicos, incrédulos e surpresos, encontraram fincado entre os dois hemisférios cerebrais, um prego de quase 5 centímetros. Milagrosamente não afetara nenhuma ramificação nervosa vital ou de importância. O organismo se incumbiu de isolar o corpo estranho e a vida foi preservada, junto com a história inacreditável.

Há algo em comum entre o louco e o diferente, de cabelos coloridos e brincos extravagantes: Ambos procuraram fazer algo que ninguém, em perfeita sanidade mental, faria. E aí está o sentimento impulsionador: A vontade de se destacar. Parece que todos os outros seres humanos se tornaram tijolinhos de uma construção banal chamada, sociedade, e eles, o louco e o diferente não são quadrados como os demais.

Mas uma construção exige tijolos adequados, perfeitos e quadrados. Você, jovem, que está batendo de frente com o “sistema”, conhecendo um pouco da dor na sociedade que lhe espera, pode se tornar apenas o melhor. Um tijolinho de arestas bem definidas, de superfície lisa e perfeita, uma peça confiável, o melhor entre os bons e o único entre os ideais.

O louco é destacado pela sua loucura. O diferente é destacado pela sua ridícula forma de ser. O melhor é destacado por ser perfeito e útil. Pinte os seus cabelos, fure seu nariz, pregue um prego na cabeça ou, estude muito para ser o melhor. Em qualquer um dos casos você será um destaque. Pense nisso!

 

Eliseu M. Magalhães

 

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