Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XVI

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SENAI CETIQT: 1º Simpósio de Economia Circular traça panorama sobre projetos em prol do desenvolvimento sustentável

Para o diretor-executivo do SENAI CETIQT, Sergio Motta, “essa capacidade de resiliência é uma necessidade para a sobrevivência das empresas. E a pauta de economia circular relacionada a uma agenda ESG torna-se algo importantíssimo. O CETIQT, como agente promotor das indústrias, tem que compartilhar com a academia, empresas, alunos, institutos de pesquisa, institutos de educação”. Entre os temas discutidos: Engenharia de Polímeros e Circularidade, Avaliação do Ciclo de Vida, Reaproveitamento de Catalisadores da FCC, Escolas de Pensamentos e as Práticas Industriais, Moda e Sustentabilidade, Políticas Públicas e Economia Circular e Modelos de Negócio.

O 1º Simpósio de Economia Circular do SENAI CETIQT, painel bastante amplo sobre o assunto, teve como norte a “Inovação Sustentável para um Futuro Resiliente“. De acordo com Sergio Motta, diretor-executivo do SENAI CETIQT, “Essa capacidade de resiliência é uma necessidade para a sobrevivência das empresas. E a pauta de economia circular relacionada a uma agenda ESG torna-se algo importantíssimo para a sobrevivência e a manutenção das empresas. O CETIQT, como agente promotor das indústrias, tem que compartilhar com a academia, empresas, alunos, institutos de pesquisa, institutos de educação”. Ele lembra, ainda, que o conceito e a prática de economia circular chegaram para o desenvolvimento sustentável. A ideia é, basicamente, desenvolver soluções que promovam a sustentabilidade e a economia circular como parte integrante das estratégias de negócios e operações das empresas, promovendo a transição para um modelo circula focado na manutenção do valor de produtos e materiais durante o maior período de tempo possível no ciclo econômico (com minimização da extração de recursos, maximização da reutilização, aumento da vida útil dos materiais de base biológica como fonte de regeneração constante do ecossistema).

Sergio Motta aproveita para anunciar quem são os palestrantes do evento: “Nós temos a presença do professor José Carlos Pinto, do programa de engenharia química da COPPE, da UFRJ, que falará sobre Engenharia de Polímeros e Circularidade; da professora-adjunta Suzanne Hoffmann, da Escola de Química da UFRJ (Avaliação do Ciclo de Vida); de Camila Costa, coordenadora do Núcleo de Sustentabilidade e de Economia Circular do SENAI CETIQT (Reaproveitamento de Catalisadores da FCC); de Aline Tavares, co-autora do livro “Catalisando a economia circular: conceitos, modelos de negócios e sua aplicação em setores da economia” e agente de Inovação do INOVA, da UFRJ (Escolas de Pensamentos e as Práticas Industriais); do professor João Victor Azevedo, coordenador-administrativo do Rio Design Lab da PUC-RJ; do professor Pedro Azevedo, sócio da Maré Relógios, empresa especializada em upcycling de materiais (Moda e Sustentabilidade); do doutor Fabricio Soler, consultor da ONU, da Confederação Nacional das Indústrias e do Banco Mundial (Políticas Públicas e Economia Circular);  e do professor Diego Iritani, fundador e CEO da consultoria Upcycle Brasil (Economia Circular e Modelos de Negócio)”.

O professor José Carlos Pinto (UFRJ-COPPE) abre a palestra lembrando a associação às circularidade e sustentabilidade com ênfase na área de materiais: “O tema da circularidade é central, como temos acompanhado ao longo da última década, em particular sobre o impacto que os materiais plásticos podem ter sobre o ambiente. Diferentemente do que a sociedade percebe, esses materiais têm vantagens competitivas, inclusive do ponto de vista ambiental. Ele são biocompatíveis em grande parte. É por isso que são muito usados na medicina, na farmácia, nos campos da biologia. A leveza e a resistência desses materiais permite, por exemplo, produzir veículos automotivos mais leves, que consomem menos combustíveis, reduzindo a pegada de carbono de uma série de meios de transporte”.

De acordo com o professor, estima-se que até 2030 a sociedade terá produzido cerca de 15 bilhões de toneladas de material plástico desde a década de 1950, sendo que cerca de 30% desse material ainda está em uso. A sociedade percebe a degradabilidade como uma propriedade intrinsicamente boa dos materiais. “Isso não é necessariamente verdade. Eles estão em uso exatamente porque não se degradam com velocidade”, diz José Carlos Pinto.

A despeito disso, porém, cerca de 70% tem sido sumariamente descartados no ambiente, nos lixões, nos aterros sanitários, o que nos causa problemas como o acúmulo de rejeitos, de resíduos, material inservível no ambiente causando todo tipo de problema ambiental e interação inadequada com a fauna e a flora.

“Em grande parte, isso é resultado da estratégia linear usual da cadeia produtiva. Independentemente do material que estejamos tratando, existe uma fonte do planeta que é explorada, o insumo é removido e refinado. Esses materiais refinados são, então, transformados em peças que são utilizadas e, no final, são sumariamente descartadas”, diz o professor José Carlos Pinto. “Ao final do ciclo de vida de uma determinada peça, uma garrafa, uma sacola, uma peça de geladeira, esse material não tem que ser descartado. Ele tem que ser reintroduzido como uma fonte de matéria-prima para resultar em novos produtos e continuar circulando no ambiente”.

Para se manter esse material circulando na economia, uma das estratégias básicas é que ele possa ser reciclado de diferentes maneiras. Os materiais plásticos são campeões de reciclagem: “Esse é um tema que tem sido pouco explorado na discussão técnica sobre os materiais, mas uma das muitas vantagens competitivas dos plásticos é que eles são recicláveis de várias maneiras distintas para se fazer outros produtos úteis. Não faz sentido mantê-los abandonados no ambiente, em lixões ou em aterros sanitários”.

Esses materiais podem ser, por exemplo, reutilizados, que é a reciclagem mais óbvia; podem ser reciclados mecanicamente, o que significa que a garrafa PET de hoje é a fibra de PET de amanhã, que vai constituir um tapete, um tecido. Mas pouca gente percebe que a maior parte dos plásticos não é reciclável. Estima-se que cerca de 70% deles não são por processos mecânicos, é preciso se fazer de outra forma: “Uma dessas outras formas é o que a gente chama de reciclagem química, que é o que estudamos com muita intensidade no nosso grupo de pesquisa e na atividade que a gente faz no Fundão, no Laboratório de Engenharia de Polímeros”.

A reciclagem química diz respeito, essencialmente, a usar esse material como se fosse uma fonte de átomos de carbono e hidrogênio. Você o desmonta e, a partir do material desmontado, cria outros de que a sociedade precisa. “No laboratório estudamos várias técnicas extremamente importantes para garantir, de fato, a implementação de uma química circular. Para termos uma cadeia circular, é necessário que, ao final da vida útil, esse material volte. E, para ele voltar, precisamos reprocessá-lo usando-o como insumo básico, da mesma maneira como fazemos com o petróleo”, afirma José Carlos Pinto.

A gente tem um laboratório no Fundão, algumas unidades onde estudamos o desenvolvimento de processos para testes junto com empresas parceiras, e estamos construindo nesse momento uma unidade de um projeto muito bonito na Cidade Universitária. É um projeto em que pretendemos reciclar todo o lixo plástico que chega na Ilha do Fundão, de maneira que a UFRJ possa se apresentar como espaço onde a emissão de lixo plástico é zero na cidade do Rio de Janeiro – José Carlos Pinto (UFRJ-COPPE)

“Temas associados a impactos ambientais são muito importantes, não basta fazer a reciclagem e o reuso: é importante mostrar que aquilo é benéfico para o ambiente, pois isso nem sempre é óbvio. As pessoas acham que uma coisa natural é boa, mas não se trata de uma verdade absoluta – se você tomar algo como a cicuta não vai te fazer bem. Não é porque é natural que é bom. Algumas pessoas pensam que, porque reciclou, é bom. Também não é verdade: se você usou muita água ou muita energia, vai ser pior reciclar do que não reciclar, e é importante compreender isso”, aconselha José Carlos Pinto.

E a indústria de materiais plásticos permite, também, um dado muito benéfico. A produção desses materiais e da química não depende necessariamente do petróleo. Você pode usar biomassa, planta, resíduos agrícolas para produzir materiais químicos e insumos para a produção de materiais plásticos, de maneira que, nessa ponta,  você pode capturar CO2 da atmosfera para que esses átomos de carbono que ficam circulando na cadeia química tenham origem em processos naturais – José Carlos Pinto (UFRJ-COPPE)

Destaca ainda o professor: “Nós estamos plenamente vocacionados para exercitar e implantar técnicas e procedimentos de química circular, mas temos que ter muito cuidado com o discurso da viabilidade econômica. É muito fácil dizer ‘Não vou fazer isso porque não é viável economicamente’. Ora, a missão da pesquisa e do desenvolvimento é justamente tornar algo estrategicamente importante em economicamente viável”.

Avaliação do Ciclo de Vida

Susanne Hoffmann, professora-adjunta da Escola de Química da UFRJ, compartilhou suas experiências sobre economia circular na União Europeia, colocando o foco no gap entre teoria e prática com olhar crítico e comparando as iniciativas dos europeus para cumprir o Plano de Ação para a Economia Circular (Circular Economy Action Plan) com o que acontece no Brasil.

A professora acredita que o estado da circularidade esteja muito mal.

Quando a gente olha o estudo feito por um consórcio de grandes consultorias, academia e indústrias, o grau de circularidade global estava abaixo de 10% há cinco anos (9,1%) e desceu para 7,2% em 2023. Quando se reduz circularidade quer dizer que a exploração aumentou mais do que está sendo recirculado. Isso pode acontecer não necessariamente porque jogamos mais fora, mas porque incorporamos mais ao nosso estoque de materiais. Não é o pior; pior seria se jogássemos muito mais fora. Não é isso que o dado diz. Ele diz que a circularidade está baixa e não está crescendo – Susanne Hoffmann, professora-adjunta da Escola de Química da UFRJ

Nesse estudo também se enfatiza que conseguimos organizar as nossas sociedades em três grupos principais: shift economies, grow economies e build economies. As build economies são aquelas com baixo IDH, baixo grau de desenvolvimento. São sociedades que não geram problema ambiental. São sociedades com muitas dificuldades, que precisam de desenvolvimento. Quando pensamos em relação a pegada ecológica, o nosso problema está nas shift economies.

Por que chamam de shift economies? “Porque precisam de mudanças radicais para se encaixar numa economia circular. A questão é: como chegamos na circularidade? Somente a partir de inovações tecnológicas? Em várias linhas de pensamento vamos ter que dizer que ‘não’, porque o consumo é tão alto que mesmo com tanta inovação tecnológica não vamos conseguir encaixar tantos fluxos, porque são muitos (estamos em 93% não circular. E esses 93% de consumo de material não acontecem nas economias mais pobres).

Num esquema para a circularidade, a professora Susanne Hoffmann destaca quatro blocos que podem possibilitar a economia circular:

Estratégias de reciclar e reutilizar: claramente, a economia circular precisa dessas estratégias. Mas isso não vai resolver o nosso problema como um todo. Vamos necessitar de estratégias de regeneração: precisamos repensar materiais, de uma forma geral. Estratégias para desacelerar o consumo: como eu consigo, de forma eficiente, fazer um redesign para durabilidade e reparabilidade. E, finalmente, estratégias de redução: como a gente consegue resultados sociais semelhantes usando menos.

“Cada ser humano vai ter sua percepção sobre o que é um resultado semelhante. Na área de estudos e avaliação de ciclo de vida, a gente discute isso bastante, porque precisa pensar o que realmente eu posso comparar quando eu faço um cotejamento entre dois produtos. O carro é equiparável à bicicleta?, pergunta Susanne Hoffmann, já dando a resposta: “Em alguns casos sim, em outros, não. Em quais casos serve e em quais não serve vai depender do olhar de quem observa. Um ciclista pode dizer que para ir da Zona Sul até a Barra de bicicleta serve e outra pessoa vai achar uma loucura”.

Ela contou o que aprendeu na União Europeia. “O primeiro exemplo interessante destacado pela professora é o sistema de logística reversa da indústria de bebidas na Dinamarca. “Eles pagam uma taxa que depende do grau de reciclabilidade da garrafa. Uma garrafa PET transparente , com alta reciclabilidade, tem a taxa menor. Quando se tem uma garrafa PET com alguma coloração, que é um pouco mais difícil de ser reciclada, tem que se pagar uma taxa maior. Assim eles dão um incentivo muito claro para a reciclabilidade. Esse design for recycling é bem interessante e a adesão é obrigatória”, conta Susanne Hoffmann.

O pagamento de uma taxa alta não foi o único incentivo criado no país para a reciclabilidade. Eles também criaram um  sistema muito sofisticado de caução. Quando compra uma garrafa ou uma lata, o consumidor paga uma caução bastante cara que o incentiva a retornar. Até na Dinamarca, onde é difícil encontrar um catador de lixo, o valor é suficiente para muitas pessoas pegarem na rua e entregarem. É diferente do Brasil, onde essa parte não é tão difícil de resolver: uma lata sem caução alguma é incentivo suficiente para um catador ajudar na logística reversa.

“Com esse sistema, esse país rico consegue garantir logística reversa e a reciclagem é realmente circular: garrafas viram garrafas e latas viram latas. Mas isso não acontece internamente; eles precisam de parceiros como a Alemanha e a França para realmente fazer a reciclagem”, revela a professora. “A Dinamarca reconhece que o problema em relação à circularidade não está resolvido. Eles precisam dessas indústrias externas que não trabalham com energia regenerativa, mas muito fortemente ainda com energias fósseis. A circularidade não é tão perfeita, afinal”.

O próximo sistema vai interessar quem é da área têxtil. “Visitamos um lugar de triagem, uma empresa que faz triagem de materiais para encaminhamento. Na Dinamarca, eles têm um grande problema de resíduos têxteis por conta de overconsumption. O consumo é tão alto lá que eles jogam fora muitas roupas em perfeito estado”, afirma Susanne Hoffmann.

Eles entendem que é preciso fazer uma triagem sofisticada desses têxteis. Uma parte vai para a incineração (os têxteis realmente degradados e os que molharam em algum momento. Quando uma peça chega molhada, ela também vai para a incineração). Há têxteis que vão para reciclagem, que vão, normalmente, gerar tecido não tecido (em alguns casos, como o do poliéster, eles recuperam a fibra). Tudo isso não na Dinamarca, mas em fábricas basicamente na Alemanha. O que acontece com a maior parte é o encaminhamento para lojas de segunda mão ou encaminhamento para países majoritariamente no Continente Africano.

No Brasil a situação é totalmente diferente, porque a gente tem um metabolismo interno, a gente tem isso dentro da nossa própria economia. Precisamos da discrepância social para ter alguém que receba as roupas. A dinâmica é completamente diferente.

Mas tem algo de que não conseguimos escapar: todo mundo precisa do catador. Existe uma certa automação, mas ela nunca é perfeita. “No final, sempre tem a mão de obra humana para realmente fazer a triagem mais fina. A gente perguntou muito sobre a perspectiva de utilizar a Inteligência Artificial, mas, de fato ninguém aposta muito nisso para substituir tão rapidamente a mão de obra humana”, observa a professora.

Outro ponto foi com as Olimpíadas de Paris. Eles têm um plano ambicioso de retirar tudo que é plástico de uso único: “Achei bem interessante essa ambição. Nas Olimpíadas, nem lata vai ser permitida, porque tem um verniz, que é um polímero. Então eles entendem que é uso único, que é um plástico de uso único, e lata não pode também. Eles trabalharam fortemente para o sistema de reuso. Claro que não se sabe qual vai ser o sucesso disso, está tudo no mundo do planejamento, mas a visão é muito rígida. Eu achei interessante e promissor – Susanne Hoffmann, professora-adjunta da Escola de Química da UFRJ

Em sua viagem de conhecimento pela União Europeia, a professora e a equipe que a acompanhava tratou muito da questão do lobby. “O pessoal que nos falou sobre esse return system na Dinamarca e em Paris também mencionou o quanto foi difícil discutir com as empresas. A Coca-Cola não faz isso de forma voluntária, faz porque tem que fazer, porque os políticos tinham a palavra firme. Em Paris, falaram que brigaram muito com a Coca-Cola. Tem muito lobby das empresas e a política tem que bater o pé firme, senão não acontece”, opina. “No Brasil o lobby tem muita abertura e as empresas são muito bem recebidas pelos políticos. Aqui ninguém força a Coca-Cola a fazer. A gente precisa forçar as empresas a sair da zona de conforto”.

Reaproveitamento de Catalisadores da FCC

Coordenadora do Núcleo de Sustentabilidade e Economia Circular (NuSEC), Camila Costa lembra que foi criado em 2020 pelo SENAI CETIQT em parceria com a Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção) porque sentia-se a necessidade de um espaço com essa temática para o setor de têxtil e de confecção. Trata-se de um núcleo, um centro de inteligência voltado para a realização de estudos e o levantamento de dados para impulsionar a materialização de iniciativas da sustentabilidade da economia circular dentro do setor. Sua missão é conceber, estruturar e executar projetos voltados à materialização da sustentabilidade e da economia circular no setor têxtil e de confecção

Do final de 2022 para cá, o NuSEC passou a ser alocado dentro do Instituto SENAI de Tecnologia Têxtil e de Confecção. Foi feita uma revisitação de todas as atividades e decidiu-se dividi-lo em três pilares. O primeiro pilar é o Observatório, que cuida do monitoramento de dados do setor, publicações de estudos, reports, conteúdos diversos dentro da temática da sustentabilidade e da economia circular. Há ainda o pilar de Projetos, em que são desenvolvidas iniciativas de consultoria, inovação e educação junto a essas temáticas para o setor, e o Advocacy, que seria a representação do setor em grupos de trabalho, fóruns, eventos e tudo o que estiver relacionado a essa temática.

Então qual foi o estudo do Observatório? “Nós visitamos contextos internacionais, nacionais e o contexto da Indústria Têxtil e de Confecção. No quesito internacional, estudamos muito a EFFAS, que é uma federação europeia voltada para a temática ESD, que está vindo forte para todos os setores – todo mundo está tendo que se adequar; a Textile Exchange, que desenvolve indicadores de sustentabilidade para a área têxtil; e a MSCI (Morgan Stanley Capital International), que é um órgão relacionado a finanças e investimento dos Estados Unidos que também tem essa temática ESG”, revela a engenheira ambiental.

No contexto nacional, visitou-se a PR 2030, lançada pela ABNT, que é uma prática recomendável com todas as diretrizes para as indústrias se adequarem a esse tema ESG; e o Guia da B3 (a Bovespa), que incorporou o ESG para quem é acionista.

Desenvolvemos indicadores voltados à temática ESG. Para o meio ambiente (E), indicador relacionado a eficiência energética, a consumo de água, a resíduos e a emissões de poluentes (gases do efeito estufa). No contexto social (S), combate ao trabalho escravo, combate ao trabalho infantil, desenvolvimento profissional, saúde e segurança ocupacional. E na parte de governança (G), estrutura e composição da governança corporativa, propósito e estratégia em relação a sustentabilidade – Camila Costa, coordenadora do Núcleo de Sustentabilidade e Economia Circular (NuSEC)

O pilar Projetos é voltado para iniciativas de consultoria, educação e inovação junto à indústria. “Hoje temos uma parceria com a nossa consultoria têxtil na qual desenvolvemos uma consultoria de ZDHC (substâncias restritas químicas muito solicitadas pela União Europeia que está chegando no Brasil). As indústrias estão tendo que se adequar a diretrizes ZDHC, fazer a eliminação de algumas substâncias químicas que são proibidas lá fora e são utilizadas em nossos materiais têxteis ou diminuir o uso delas ao longo de sua cadeia produtiva”, afirma a engenheira ambiental.

O Programa Vista Brasil, do Sebrae, que está com uma parceria com a Abit para desenvolver estudos para ajudar as micro e pequenas empresas. O NuSEC está participando dando oficinas de PGRS (Programa de Gerenciamento de Resíduos) e de substâncias químicas restritas para micro e pequenos empreendedores. “A gente realiza alguns trabalhos junto com a Abit. Tem o Agenda Tech, que vamos começar a desenvolver a partir de novembro. A ideia é ampliar a circularidade dentro da cadeia têxtil e de confecção, especificamente para a cadeia de poliamida”, detalha Camila Costa.

Aqui vale um spoiler, segundo Camila: existe um projeto, que será lançado no Congresso da Abit em 8 de novembro, que é um guia de descarbonização específico para o setor têxtil e de confecção. Esse guia foi construído a várias mãos, com a participação da indústria e do varejo.

“O pilar Advocacy, por sua vez, é estruturado para que a gente consiga permear dentro do setor através de interação com stakeholders, com agências de fomento – os principais atores da temática de sustentabilidade e economia circular não só da área têxtil, mas também das outras áreas”, afirma a professora.

Hoje, o SENAI CETIQT está sendo representado através do NuSEC nos comitês da ABNT, Comitê de Economia Circular. Inclusive agora em outubro está acontecendo uma revisão pela União Europeia da série ISO 59.000 sobre economia circular. “A gente teve algumas premissas, algumas discussões sobre o assunto porque, infelizmente, a União Europeia não quer considerar biomassa como uma energia renovável. Nosso grupo tem um estudo para provar que é uma energia renovável. Não só o nosso país foi um dos reclamantes, mas o Japão, a Holanda, o Canadá, a Austrália também tiveram suas particularidades. Mas elas não foram aceitas, estamos na expectativa da revisão textual. Eles devem lançar essa nova ISO a partir de novembro”, acredita Camila Costa.

O NuSEC também participa, como ouvinte, da Rede ACV, que é a Rede Empresarial Brasileira de Avaliação do Ciclo de Vida. A ideia deles é construir um núcleo focado na área têxtil, por isso o CETIQT está participando para desenvolver esse núcleo. E faz parte do Hub ODS do Rio de Janeiro do Pacto Global da ONU. “Estamos participando das reuniões, levando as particularidades para poder, também, trazer essa temática de ODS para dentro do setor”, finaliza.

Escolas de Pensamentos e as Práticas Industriais

A co-autora do livro “Catalisando a Economia Circular“, Aline Tavares, agente de Inovação do INOVAR, da UFRJ, levou para a sua palestra, um recorte do estudo que vem desenvolvendo no Núcleo de Estudos Industriais e Tecnológicos (Neitec), que fica localizado na Escola de Química da UFRJ. Esse recorte trata dos modelos de negócios e dos impactos da economia circular nos setores da economia.

Hoje, porém, olhando para os setores, as iniciativas, ainda vemos um engatinhamento. Como as empresas podem agregar esses princípios da economia circular com uma visão de longo prazo? Como gerar esse valor no longo prazo com foco na inovação e na geração de valor? A partir daí, uma forma de as companhias, de as organizações pensarem é nos modelos de negócios, justamente como a organização cria e entrega valor ao longo da sua cadeia produtiva e, traduzindo esse conceito para a economia circular, surgem os modelos de negócios circulares – Aline Tavares, agente de Inovação do INOVAR, da UFRJ

Como seriam esses modelos de negócios circulares? Como as empresas vão capturar e entregar esse valor tornando esse fluxo contínuo dos componentes ao longo da cadeia produtiva? “Ao longo desses anos, já desde 2016, a gente vem buscando esses cases, estudando esses modelos de negócios. Na literatura, vemos hoje várias definições de modelos de negócios. Ainda não é um conceito totalmente fechado”, relata Aline. “A gente pôde reunir esses conceitos como modelos de negócios, como as empresas estão capturando e entregando esses valores, sendo o primeiro deles a agricultura regenerativa e, também, a logística reversa, a simbiose industrial, o chemical leasing (voltado mais para a indústria química), a economia colaborativa e criativa, o produto como serviço e o waste-to-energy”.

“Temos uma expectativa de, até 2050, o aumento das temperaturas reduzir o cultivo de café em até 50%. E 80% das famílias de cafeicultores podem viver numa linha de pobreza. O que a gente vê de apelo, de aquecimento global não é mais futuro, é real. As estimativas mostram que o aquecimento não vai trazer somente enchentes (como se fosse pouco), mas pode trazer também mudanças dentro da própria agricultura com consequências sociais, dentro das cadeias produtivas, ocasionando, ainda mais, a linha de pobreza.

Outro modelo é a logística reversa, que trata justamente desse sistema de gestão que faz o que seria resíduo voltar para a cadeia produtiva. Está dentro do Plano Nacional dos Resíduos Sólidos desde 2010 e somente agora, em 2023, foi tornada obrigatória através de um decreto. A gente tem um longo caminho a percorrer até se tornar uma logística reversa mais efetiva.

“Temos também a simbiose industrial. Esse modelo trata do intercâmbio de resíduos e insumos entre várias empresas em um mesmo parque industrial, compartilhando dentro de uma mesma área física ou virtual”, conta Aline Tavares. “E há o chemical leasing, mais voltado para a indústria química. É uma nova forma de comercializar produtos químicos. A gente tem esse costume de comprar os materiais por volume, por quilo. Nesse modelo, a unidade de pagamento não é mais o preço por volume, é o preço pelo desempenho do produto”.

A economia colaborativa e criativa, que busca trabalhar em rede reaproveitando resíduos e capacitando trabalhadores, artesãos que estão trabalhando nessa rede, é outro modelo interessante. Uma empresa de Bangladesh que transforma resíduos têxteis em produtos de higiene feminina é um exemplo importante. Eles têm uma questão com o fato de as mulheres ainda serem um tabu quando estão no período menstrual. Por não terem acesso fácil a esses produtos, elas faltam aos trabalhos. Essa empresa tem a iniciativa de capacitar as funcionárias para produzir para elas mesmas e a não mais faltarem.

A economia circular é protagonista de grande impacto na economia brasileira. Sabemos dos conceitos, do potencial. Temos hoje um apelo forte pela transição energética. Nós temos uma matriz energética aumentando a sua quantidade de fontes renováveis. O petróleo e seus derivados ainda são a maior, mas a biomassa da cana já é a segunda maior fonte da nossa matriz energética – Aline Tavares, agente de Inovação do INOVAR, da UFRJ

Outro modelo é o produto como serviço, em que o produto se torna um serviço e o consumidor se torna o usuário. A gente tem o exemplo bastante clássico do compartilhamento das bicicletas. O aluguel de carro hoje também já é uma realidade: a gente pode não mais comprar o carro, mas usar o serviço de aluguel, como no caso do uso de lâmpadas led no aeroporto de Schiphol. A Philips fornece essas lâmpadas, o aeroporto paga pela manutenção e, ao final da vida útil, elas podem retornar à reciclagem através da própria empresa.

A  agente de Inovação do INOVAR fala sobre o último modelo, o waste-to-energy que, como o próprio nome diz, é a obtenção de energia a partir dos resíduos de diferentes setores industriais: “Resíduos da agricultura, como o da Raísen, em que já há o projeto de transformar resíduos da produção de cana em energia elétrica, adubo e biogás. Resíduos orgânicos como óleo de cozinha e resíduos gordurosos de alimentos: essa empresa, por exemplo, os transforma em biocombustíveis, em biodiesel, faz tratamento de água residual. Você consegue extrair esses componentes e transformar em biocombustível”.

Moda e Sustentabilidade

Os próximos palestrantes foram os irmãos empresários João Victor (designer e também professor da PUC-Rio) e Pedro Azevedo, sócios na Maré Relógios, que contaram a trajetória para o público que assistia o Simpósio. “Nós temos a Maré e estamos buscando entender esses descartes e como a gente os traz para uma nova vida. Essa lógica toda começou na Rio 2016, na verdade entre a Copa do Mundo e a Olimpíada, quando a nossa cidade estava um canteiro de obras”, lembra João Victor Azevedo.

Os irmãos entenderam que não só as madeiras sobravam, mas os tecidos também, assim como o plástico. Eles estão procurando dar um novo tempo para o descarte. “A nossa lógica é entender que o descarte nada mais é que uma matéria-prima que não serve mais para alguém mas pode muito bem servir como início de um novo ciclo. E fazemos isso juntando materiais sustentáveis, inovação, Indústria 4.0 e acabamento artesanal”, explica João Victor Azevedo. “Chegamos nos relógios de pulso, que foram os produtos com que a gente iniciou. Um relógio de pulso é feito com jeans descartado, inclusive a caixa dele”.

A caixa, que é a parte do relógio que fica em torno do dial, os irmãos conseguiam fazer de tecido e madeira. Mas e o próprio dial? “Fomos buscar quem podia fabricar as outras partes de uma maneira que fizesse sentido dentro dessa lógica, entendendo a caixa, o dial, as pulseiras. E vimos que não tem. A gente teve que internalizar esses processos e como fazer isso aqui dentro buscando soluções que estivessem à mão e fossem mais simples conseguir colocar esse produto no mercado”, conta João Victor, enquanto Pedro se lembra de outra característica da indústria de relógios: “Independentemente do lugar do mundo, todos são montados a mão. Cada montagem de relógio ainda é feita assim, não existe um maquinário específico para isso”.

Se as caixas dos relógios da Maré são feitas com material reciclado, as pulseiras seguem a mesma lógica: “Já o dial chegamos na solução com papel reciclado e tinta orgânica”, revela o professor da PUC.

Uma pergunta que os rapazes ouvem muito é “Por que ´relógios tão normais?”, pois eles são o tipo de utensílio que se vê em qualquer lugar. Segundo os irmãos, independentemente do que vão fazer, eles tentam que fique o mais próximo possível de algo feito com material virgem, para provar que conseguem fazer coisas utilizáveis e com bom design com matéria-prima retirada, literalmente, do lixo: “O objetivo principal é conseguir mostrar que é possível, assim como com os óculos e outros produtos que a gente vem desenvolvendo”.

Atualmente os irmãos Azevedo têm uma série de relógios: os que começaram, feitos com madeira; os de jeans e de tecido de quimono; e uma série um pouco mais barata, que é feita com bioplástico impresso em 3D. As pulseiras seguem a mesma lógica. Tem o couro de sobra de produção, a câmara de pneu de bicicleta reutilizada e as lonas e os plásticos que são reutilizados ou reciclados.

Políticas Públicas e Economia Circular

Fabrício Soler, consultor Jurídico da ONU, lembrou que dos 5.570 municípios brasileiros, cerca de 2.800 ainda encaminham tudo que é gerado nos seus territórios para lixões.

O Brasil tem o desafio tremendo de cumprir o marco regulatório do saneamento eliminando os lixões do território nacional, assegurando o tratamento de esgoto. Só para se ter uma ideia, hoje o país tem 100 milhões de habitantes cujo esgoto é lançado sem tratamento. Isso equivale à população da Espanha e da França somadas lançando esgoto diariamente. E ainda se apresenta com 35 milhões de brasileiros que não têm acesso a água tratada. Tudo isso além do resíduo – Fabrício Soler, consultor Jurídico da ONU

Dentro da discussão de economia circular, segundo ele, é importante trazer um conceito que acaba de ser aprovado na ISO: trata-se de um sistema econômico que usa abordagem sistêmica para manter o fluxo circular dos recursos. “Nosso desafio é ainda não termos uma política nacional de economia circular. Nós temos hoje dois Projetos de Lei no Senado. Um que trata especificamente de economia circular e outro que se refere ao plástico. “Eu, particularmente, sou do pensamento de termos uma política nacional de economia circular para, depois, entrarmos nos tipos de materiais. Nós precisamos da economia circular aplicada aos têxteis, aos plásticos, às embalagens, aos veículos, aos novos modelos de negócio. Precisamos de um marco regulatório para todo o território nacional”, defende o consultor jurídico da ONU, Fabrício Soler. “Mais alguns exemplos de quando foi publicado o Plano de Economia Circular na União Europeia, que além desses produtos que eu comentei ainda tem eletrônicos, baterias, construção e edifícios, alimentos, água e nutrientes”.

Para Soler, o país precisa de um marco regulatório e, naturalmente, dispor de instrumentos fiscais e econômicos. Significa que não dá para tributar produtos que já foram tributados na origem, que são novos recursos, geram uma nova economia – é uma nova dinâmica, um novo serviço, um novo produto. Isso devidamente alinhado com a economia circular: “O principal pleito dentro da política pública é estabelecer instrumentos fiscais e econômicos de estímulo. Isentar de tributação, estimular e fomentar essa cadeia. Tem-se que dar mais competitividade ao setor, estimular a economia. São novos negócios, novos modelos surgindo. O Brasil precisa prestigiar”.

Minha mensagem principal é que a regulação seja aderente ao que se está trabalhando globalmente, que a gente possa transformar a economia circular num diferencial competitivo para o setor privado brasileiro de serviços, da indústria, desenvolvendo novos produtos, fomentando novos negócios. Isso, preferivelmente, com um olhar fiscal e tributário que permita impulsionar essa cadeia cada vez mais. Acho que tem todo o empenho, a veia empreendedora do brasileiro, da brasileira – Fabrício Soler, consultor Jurídico da ONU

Na opinião do consultor jurídico da ONU, o Brasil precisa desse impulsionamento na educação também, no fomento à capacitação de profissionais para a agenda da economia circular. Ela é muito vasta, extremamente completa. Ele acredita, também que esse processo de sensibilização, educação, informação que o SENAI CETIQT promove por intermédio desses encontros contribua para que possamos, de fato, aderir à agenda da circularidade e promover os movimentos corretos, organizados. A economia circular tem que avançar e tem que ter uma competitividade diferenciada.

Modelos de Negócio

Diego Iritani, CEO e criador da empresa de consultoria Upcycle Brasil e desenvolveu com a CNI um programa para promover e construir essa ferramenta, rota de maturidade para economia circular, reforçou que, nos tempos em que vivemos, não faz mais sentido o modelo econômico linear no qual extraímos, produzimos e descartamos sabendo que o mundo tem recursos finitos.

Essa lógica da economia circular é muito impactante, não só por esgotar os recursos mas também por ter um conjunto de emissões, gerar muito resíduo e muito impacto. E aí surgiu a economia circular com uma nova proposta. Há várias estratégias: podemos remanufaturar, reciclar, recuperar, reutilizar, compartilhar, existem muitas possibilidades nesse universo – Diego Iritani, CEO e criador da empresa de consultoria Upcycle Brasil

Cada tipo de contexto ensina às empresas que podem se adaptar, explorar algumas dessas estratégias que fazem mais sentido para o setor em que ela se encontra, para o tipo de material, para a região onde está localizada. A gente tem que levar isso em conta nos projetos, se tem parceiro próximo para conseguir executar, por exemplo, a logística reversa, e também porque faz sentido para o negócio.

E o que tem de diferente nesses dois modelos não é só o fluxo de material, mas também uma questão sobre o valor. Nessa discussão, no início, quando surgiram as primeiras publicações, não era muito explorada a questão do valor. Hoje é um dos princípios e temas que estão sendo discutidos no comitê da ISO para a formação das Normas 10 da economia circular da ISO/TC 323, que é a questão do valor.

“Nós observamos com os nossos clientes, na prática, nos projetos de consultoria, que as coisas começam a funcionar, a engrenar quando conseguimos capturar de fato o valor. E aí faz sentido aquele fluxo reverso. No modelo linear existe o crescimento e o declínio de valor ao longo do ciclo de vida do produto, em que eu tenho, na entrega para o usuário, o pico do valor e, pós-uso, pós-consumo, eu tenho o declínio de valor. Eu destruo, perco, não capturo valor”, lamenta o CEO da Upcycle Brasil.

Segundo ele, economia circular não é só fechar o ciclo através de alguma estratégia, mas é uma questão de prototipar, desenvolver o produto, operações, o modelo de negócio para ter um fluxo reverso em que eu consigo capturar valor. “Então eu já penso e desenvolvo meu modelo de negócio para reter esse valor. Fica muito mais fácil, gera valor para a empresa e é muito atrativo, porque além de ser uma estratégia de negócio, ela também reduz muito o impacto ambiental, seja em escassez de recursos, seja em emissões (muitas estratégias circulares reduzem emissões de carbono). E ainda gera benefícios também para a sociedade, com geração de emprego e renda, dependendo de como essa estratégia é construída”.

É uma nova forma de fazer negócios e isso requer novas ferramentas, novas práticas e uma nova mentalidade (ou mindset) para promover essa transição: “A gente observa na prática, em muitas empresas, o projeto não avançando quando começa a testar uma dessas estratégias circulares, não por uma questão da operação em si, mas pelo fato de o produto não ter sido pensado, não ter sido desenvolvido para facilitar aquela circularidade, aquela determinada estratégia”.

Temos cinco tipos de modelos de negócio. O modelo mais completo e mais complexo é o produto como serviço, que muda totalmente a forma de a empresa desenvolver o produto: ela não vende produto, que fica sendo sua propriedade, ela vende serviço.

Diego Iritani lembra que há outros modelos: “Temos recuperação de recursos, em que recuperamos através da reciclagem, principalmente esse material; temos insumos circulares, em que eu olho a minha cadeia de suprimentos para fazer melhores escolhas dos materiais (reciclados, renováveis, energias limpas); temos distensão da vida útil, em que buscamos estender período de uso do produto através de manutenção, de upgrade, de editar partes sobressalentes; e, por fim, temos o compartilhamento, em que eu instalo plataformas nas quais um único produto fica acessível para várias pessoas e elas fazem uso dele compartilhando”.

Quando se fala de modelo de negócio estamos falando de como a empresa faz o negócio, de como ela faz a sua oferta de produto, a sua proposta de valor. “E quando a gente começa a falar em maturidade em processo de transição nós temos esses níveis de maturidade, essas características que nos apoiaram também para o desenvolvimento da ferramenta de Rota de Maturidade da CNI, onde eu tenho a empresa, no primeiro momento, com foco em processo e operação, depois em produto, depois em modelo de negócio e depois em ecossistema”, explica Diego Iritani.

“Existem metodologias, processos e cada uma vai ter que entender essa jornada para construir o seu modelo de negócio em economia circular. A gente identificou nesse projeto quatro fases, quatro estágios – na verdade, cinco, pois nós temos o estágio zero, que é o estágio em que as empresas não fazem nada, nem conhecem economia circular. É o ponto zero, de partida”, determina o fundador da Recycle Brasil.

O primeiro estágio é quando a empresa já adota muitas práticas ou está adotando práticas dentro da fábrica, dentro das suas operações: “Provavelmente é uma empresa que começa a reciclar internamente, já busca uma certificação lixo zero dentro da empresa, tem as normas da ISO de gestão ambiental, mas o foco dela é muito em operação. Ela ainda não olha muito para o produto, é tudo focado em operação. Ela já adota muitas práticas e estratégias, mas num nível que está sob seu controle direto”.

Nós temos um salto quando a empresa já faz isso e começa a olhar para o produto. É quando começa a entender o ciclo de vida do seu produto (matéria-prima, a exposição final, o uso – todos os estágios do ciclo de vida). Ela começa a rever o design para otimizar e reduzir esse impacto, começa a trabalhar com logística reversa, foca mais no pós-consumo, começa a ter essa visão mais ampla.

A gente encontra a maior parte das empresas nesses três primeiros estágios: zero, operação e ciclo de vida do produto.

“Para o próximo estágio, temos um grande gap. Quase nenhuma ou poucas empresas estão no estágio modelo de negócio. Eu digo empresas já estabelecidas, que não são startups. A lógica é um pouco diferente para startup, em que se começo o negócio em branco e já posso pensar de cara no meu modelo de negócio, no meu produto com essa lógica da economia circular”, dispara Diego Iritani.

A última fase é quando a empresa já tem o modelo de negócio e vai para o estágio mais avançado, quando começa a construir um ecossistema de parceiros ao redor  para acelerar e escalar ainda mais o negócio, entregar mais valor, recuperar valor e, inclusive, explorar outras estratégias de economia circular.

Diego Iritani conta que também observou, durante seu trabalho com a CNI, práticas que fazem sentido em cada etapa para poder classificar e entender em que estágio aquela empresa está. E aí surgiu a Rota de Maturidade, pensada para ter quatro fases de avaliação (estratégia da empresa, planejamento da solução, gestão de recursos e entrega da solução). “Dentro dessas práticas, você avalia várias questões, como a estratégia da empresa, a cultura organizacional, a relação com stakeholders, a parte de pesquisa e inovação, proposta de valor, design de produto, toda a parte de custo, investimento, gestão de materiais e energias, e a parte de operação para entrega do serviço e das operações”,

Empresas estabelecidas são uma folha já preenchida. Já está tudo feito. Tem departamentos, cultura organizacional, práticas já estabelecidas. Tem uma forma de comprar, uma forma de oferecer opções para os meus fornecedores. É preciso entender muito bem para modificar essa lógica, modificar a mentalidade para esse processo de transição. E essa ferramenta vem para apoiar – ela não faz tudo sozinha mas dá uma boa visão de como a empresa está dentro dessa jornada. .

“Nesse processo eu tenho a questão da consciência. O primeiro passo é ter consciência de que eu preciso avançar nessa agenda de economia circular, que ela traz benefícios não só na circularidade do material e do resíduo. Vários dos nossos clientes já observaram isso, os projetos de economia circular melhoraram a pontuação no ranking ESG e estão ali, muito conectados com vários objetivos do ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável)”, destaca Diego Iritani.

Depois de ter a consciência, é necessário entender o que é economia circular, entender a visão de futuro. Para onde eu quero ir? Conhecer os tipos de modelos de negócio, entender qual faz mais sentido, ter minimamente uma visão. Aqui a empresa ainda não sabe como vai fazer, mas ela tem uma visão do que seria interessante. Uma questão que sempre provoca é “Como seria o seu negócio, que já está estabelecido, se a economia fosse circular?” “Essa questão provoca as empresas e as pessoas a pensarem sobre o que seria a sua empresa num futuro circular”.

Aí sim entra o diagnóstico. Aqui poderia entrar, por exemplo, a Rota de Maturidade. Eu aplico a ferramenta para entender o que faço, o que tenho em estágio piloto, o que não tenho e, então, trazer esse bom diagnóstico. “A partir disso, dessa visão de futuro que na fase 2 se implementou e fez o diagnóstico, você tem um gap. Deve começar a saltar aos olhos algumas práticas que a sua empresa precisa desenvolver”, afirma o consultor. “Por exemplo: se vou trabalhar com o modelo de recuperação de recursos ou extensão da vida útil de produto, que não tem nada de logística reversa, preciso resolver essa operação, preciso desenvolver competência nessa área, parceiros para apoiar nesse processo”.

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