Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XIII

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SENAI CETIQT: O upcycling como criação de moda em sinergia com integração do beneficiamento têxtil

Primeiro número do ano da ‘Revista Design, Inovação e Gestão Estratégica’ (‘REDIGE’), publicação gratuita em formato online, já está disponível na rede. Nesta edição, destacamos o artigo sobre o ‘case’ proposto a oito alunos da graduação em Design de Moda, que já tinham cursado as disciplinas de beneficiamento têxtil e de padronagem, que, ao longo de seis meses, enfrentaram o desafio de criar uma coleção-cápsula seguindo 100% os princípios do upcycling, técnica que torna a busca pela sustentabilidade muito eficiente, a partir de peças de vestuário pós-consumo, originadas de brechós, ou que seriam descartadas e seguindo utilizando técnicas de beneficiamento têxtil integradas.

No futuro, o ano de 2020 será considerado um divisor de águas da História. Para começar, foi o ano em que a devastação de biomas bateu recordes na Amazônia e no Pantanal brasileiros, onde o fogo veio com força redobrada em relação aos anos anteriores. A pandemia de Covid-19, por sua vez, serviu para nos lembrar até que ponto estamos submetidos às forças da natureza. Esses e outros fatores corroboram cada vez mais para se colocar a sustentabilidade como pauta diária na indústria têxtil e de confecções. Lançada recentemente, a primeira edição 2021 da “Revista Design, Inovação e Gestão Estratégica” (“REDIGE”), em formato online e com acesso gratuito, traz, entre seus destaques, a prática do upcycling como alternativa altamente sustentável na criação de coleções de moda.

Criada há pouco mais de dez anos por iniciativa da Faculdade SENAI CETIQT, a “REDIGE” foi transformada em versão online no ano passado. A publicação traz artigos e ensaios com foco no que há de mais novo em questões essenciais ao desenvolvimento do Setor Têxtil e de Confecção, contribuindo para informar as empresas da área sobre tecnologias e inovações estratégicas. O artigo “Outra possibilidade de criação de coleções de moda: integração do beneficiamento têxtil com o upcycling”, de Breno Tenório Ramalho de Abreu, professor de desenho de moda, design de superfície e produção de moda no curso de Design de Moda da Universidade Federal de Goiás, fez uma conexão no seu trabalho com a explicação da pesquisadora e professora de moda especializada em sustentabilidade Alison Gwilt: ““Upcycling” é  o termo usado para descrever uma técnica de se aprimorar e agregar valor a um produto ou material que, de outra forma, seria jogado fora. Diferente da reciclagem, que pode resultar em depreciação e redução do valor de um material ou produto, o upcycling permite que você aumente o aproveitamento e o valor de um material, prolongando a sua vida. A técnica pode ser aplicada no design e na confecção de uma nova peça de roupa ou ser usada para reformar ou remanufaturar uma roupa já existente”.

A ideia é fazer com que peças que seriam descartadas ganhem vida nova através da modificação de suas formas e funções (calças se transformam em saias, camisas sociais em vestidos etc) e do beneficiamento têxtil: técnicas de tingimento, estamparia e bordados incrementam os valores sintéticos e simbólicos de uma coleção criada 100% com base em upcycling. Partindo deste contexto e justificativas, o objetivo deste projeto realizado em uma iniciação científica no SENAI CETIQT foi criar uma coleção de moda partindo de peças do vestuário pós consumo, utilizando técnicas de beneficiamento têxtil integradas ao upcycling, de maneira a pensar e discutir um método de trabalho que originasse uma coleção com unidade e alto valor agregado. Recomenda-se cautela, pois quanto mais processos, menos sustentável será a prática – basta pensar no aumento do consumo de água, energia e novos insumos no processo.

O artigo frisa que toda matéria-prima é nutriente, como nos ciclos de vida da natureza. A proposta do upcycling  é criar novasroupas a partir de roupas antigas e fora de uso, desta maneira a matéria prima utilizada para criar a peça de roupa original é otimizada e prolongada antes de ser descartada em definitivo, evitando também, em consequência, a exploração e produção de novas matérias primas. É fazer com que este material cumpra seu ciclo e volte a ser nutriente e jamais parar no lixo. “Para que isso aconteça, é necessário incentivo à ciência e à pesquisa para criação, desenvolvimento e popularização de materiais e materiais biodegradáveis ou de maior facilidade de reciclagem integral e sem depreciação do material na cadeia têxtil e de vestuário”. Só para se ter uma ideia da dimensão do problema, em 2018 o Brasil produziu nada menos que 8,9 bilhões de peças de vestuário, cama, mesa, banho, meias e outros itens, de acordo com a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (ABIT). Somente de peças de vestuário foram 5,1 bilhões. Sabendo que o fim da vida destas peças será em aterros sanitários e incineração, faça as contas….

Criar roupas a partir de peças pós-consumo evita a exploração de novas matérias-primas. Existem diversas formas de se beneficiar os têxteis, como, por exemplo, as técnicas de tingimento, estamparia e bordado que valorizam muito uma coleção criada a partir do upcycling. A questão é que, quanto mais processos são empregados no enobrecimento dos tecidos, menor será a sustentabilidade, pois as práticas demandam gastos de mais água, energia e insumos. A saída é adotar técnicas que proporcionem maior economia de água e energia, uso de matéria-prima orgânica e processos menos impactantes.

Neste número, “REDIGE” acompanha a experiência prática de se criar uma coleção de moda baseada completamente no conceito do upcycling. Os oito alunos da graduação em Design de Moda foram orientados semanalmente em laboratório para as atividades práticas (experimentações em beneficiamento têxtil). Uma vez por mês, recebiam orientações sobre modelagem e costura.

Os discentes se dividiram em dois grupos de quatro alunos, de acordo com seus gostos e identificações. O grupo 1 se identificava com roupas fluidas, femininas, com acabamentos manuais, representações da natureza e cores claras ou vibrantes. Já o grupo 2 preferia elementos urbanos, geométricos, com estampas abstratas, modelagens sem especificação de gênero, com cores sóbrias e confeccionados com materiais mais pesados.

Cada aluno levou para o laboratório cinco peças de roupa que anteriormente seriam descartadas. Eles receberam, também, cortes de tecidos, retalhos e aviamentos descartados, doados por empresas locais. As peças foram divididas entre os grupos de acordo com o estilo de cada um, selecionadas também por tipo de tecido, cor, modelagem e estampa, já pensando no equilíbrio entre as partes de cima e de baixo. Em seguida, os grupos separaram as peças de acordo com a composição dos tecidos, principalmente o tipo de fibra (natural ou sintética) para, assim, saber qual seria o melhor tipo de beneficiamento usar: tingimento natural, estamparia botânica, estamparia manual com carimbo e estêncil utilizando tinta para tecido, bordado, tingimento reativo com ou sem shibori, sublimação e estamparia digital.

As aulas sobre upcycling estimularam os estudantes a repensar a maneira como as roupas são vestidas e a elaborar outras possibilidades de uso. Eles vestiam as peças ou usavam manequins de tecido, onde calças e bermudas eram vestidas como camisas, vestidos, jaquetas e camisas como tops etc. Essa experimentação serviu para definir os quatro looks que cada grupo apresentaria, além dos beneficiamentos a serem empregados, as cores do tingimento, as estampas e os estilos das estampas. Depois foram testados o tingimento natural e a estamparia botânica. Os grupos testaram como pigmentos a casca de cebola e hibisco com extrato de uva roxa para o tingimento, usando como mordente o alúmen de potássio e como fixador o sal de cozinha. Já para a estamparia botânica, apenas o grupo 1 utilizou a técnica, dispondo as cascas de cebola, flores, hibisco e urucum ordenadamente sobre retalho de tecido e camisa social.

O grupo 1 criou a coleção Era, definida como “força ativa, de origem, uma nova ordem para um novo tempo”. Os alunos acabaram produzindo cinco looks leves em cores como amarelo, rosa, lilás, roxo e azul claro. A transformação das peças é interessante: camisas sociais deram origem a um top e uma saia; um short jeans, camisa social e retalho de linho descartado se transformaram em camisa, cinto e saia; um body estampado e uma saia “nasceram” de camisa social e vestido de poliéster; calça social, camisa estampada e blazer originaram blazer, top e saia; e, last, but not least, tivemos o trio camisa social, calça de cambraia e retalho de tecido telado que colaboraram com o nascimento de um macacão estampado e um caftã.

O ensaio fotográfico foi feito na Quinta da Boa Vista, com seus jardins românticos, lagos e muitas árvores, que se identificam com o espírito da coleção.

A coleção “Noah: longa vida”, agênero, urbana, com modelagens diferenciadas, sem recorte de faixa etária, conceitual e com cartela de cor sóbria (preto, cinza escuro, azul marinho e roxo) foi a opção do grupo 2. Foi composta por quatro looks montados com peças intercambiáveis e sobrepostas: vestido e saia originados de calça chino, colete de moletom preto e colete de lã sintética; top sem alça e calça feitos de calça cargo e sobras de tecido; macacão longo “nascido” de uma calça cargo e duas bermudas cargo; e vestido e casaco confeccionados a partir de calça social e jaqueta.

O Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro foi a locação escolhida para fotografar a coleção, com a proposta de mostrar a arquitetura modernista e um ambiente mais urbano.

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Não se pode perder de vista, também, que o desafio da sustentabilidade impõe a invenção de métodos que permitam aos alunos criar suas coleções de moda. Aqui não se trata apenas de incentivar a inovação, mas também a construção de modelos de negócios inclusivos, que agilizem a entrada dos discentes no disputado mercado fashion.

Um dos grandes desafios propostos pelo upcycling, talvez o maior e mais importante deles, é a coleta e a triagem das peças pós-consumo. Especialmente quando recebidas de doações, pois chegam modelos muito diversos em estados diferentes de conservação. A habilidade do designer é posta à prova, pois é ele quem fará a seleção do material. Precisa ser certeiro ao escolher: peças muito degradadas ou feitas com materiais mesclados (com composição mista de fibras), por exemplo, são bem mais complexas de serem transformadas e renovadas.

Outro desafio é o que fazer para se obter melhor aproveitamento dos funcionários e oferecer melhor qualidade de trabalho, além de integrá-los a processos mais tecnológicos. O emprego de máquinas de corte a laser no corte e nos beneficiamentos têxteis evita que todas as peças sejam cortadas manualmente, reduzindo muito a quantidade de movimentos repetitivos pelo cortador, a saúde do funcionário sai ganhando. No beneficiamento têxtil, por sua vez, conta com as técnicas de estamparia digital, muito mais eficazes e adequadas às práticas sustentáveis.

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O fato é que o upcycling veio para ficar. E chegou mexendo com conceitos considerados dogmas até bem pouco tempo atrás. Os designers estão passando e enxergar as roupas usadas e desgastadas como matéria-prima. Hoje aquele vestido antigo e puído do qual você só agora tomou coragem para se livrar pode vir a ser parte de um look deslumbrante, de alto luxo, com imenso valor agregado.

É bom para o designer, para a natureza, para você, que adquiriu a peça e colaborou para tornar o planeta um lugar mais agradável de se viver.

 https://senaicetiqt.com/conhecimento/

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