Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XIV

Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XIV

Exclusivo: Em entrevista, Tavex explica nascimento de tendências nas principais feiras do denim

Foto: ©Divulgação.

Nenhum outro tecido conseguiu sobreviver a tantas mudanças estilísticas, sociais e culturais como o denim. Considerado o mais utilizado do mundo, entrou no guarda-roupa há mais de 150 anos graças a uma grande sacada de americano chamado Levis Strauss, que resolveu utilizar o pano, antes aplicado em coberturas de carroças, para criar uma calça que fosse mais resistente ao trabalho nas minas, na Califórnia, nos Estados Unidos.

Gilda Chataignier conta no livro Fio a Fio: tecidos, moda e linguagem, da editora Estação das Letras, que o nome antigo do denim era countil ou cutil e o artigo era fabricado em Nines, na França, em tom azul-índigo. Seu nome vem da composição ajustada de Nines (denines; logo, denim). Já o nome jeans é uma variação de Genes (em francês), identificando o tecido grosso, tipo lona, de algodão ou coutil, originário do porto de Gênova, na Itália, também muito utilizado por marinheiros.

O que acontece é que hoje existe uma grande confusão de nomenclaturas: denim, índigo, jeans, sarja; mas como ele é fabricado, o que é trama, urdume, de onde nasce uma tendência de lavagens, quais mercados ditam as regras nesse segmento, quais são as marcas mais inovadoras e os principais tradeshows de jeanswear?

Assim, convidamos a expert Maria José Orione, gerente de Marketing da América do Sul da Tavex, empresa multinacional resultante da união da Tavex (Espanha, 1846) e Santista Têxtil (Brasil, 1929), em 2006, para responder a essas e outras dúvidas que envolvem a produção e as pesquisas desse tecido, que promete encantar muito por várias e várias décadas. Confira:

Tramas da Moda: O que é denim?

Maria José Orione: Denim é um tecido originalmente 100% algodão, cujo tingimento se dá por meio de um corante índigo, ainda na fase de fio, sendo tecido posteriormente, por isso ocorre o contraste do urdume (fio no sentido do comprimento) azul com a trama (fio no sentido da largura) branca.

Uma das principais características desse tipo de corante (o índigo) é o de não ter resistência à abrasão, e o que poderia ser um problema tornou-se o grande elemento de sucesso desse tecido, visto que essa característica, a possibilidade de desbote, lhe confere grande versatilidade, possibilitando as diversas versões de lavagens. Atualmente utiliza-se o algodão com elastano para resultar em um tecido stretch.

Já jeans é calça pronta, a “Five pockets”, com reforço de rebites e linhas ocre contrastantes. Pode ser feita em denim ou em brins ou sarjas.

TM: E o que é sarja?

MJO: Sarja é um ligamento de tecido em que um fio passa sobre outros dois ou três, formando uma canaleta. Em sua versão 3×1, é o ligamento mais básico usado no denim. Porém, sarja é também o nome dado ao tecido de algodão ou algodão elastano tinto após tecido (não em fio como no caso do denim) e feito com esse tipo de ligação.

TM: O que é sistema de onça?

MJO: Onça é uma medida de peso no sistema inglês (no Brasil, usamos o sistema métrico e, portanto, nossa média de peso é o Kg). Quando dizemos 10 oz para um tecido denim, estamos querendo dizer que esse tecido pesa 10 oz/yd² (yd = jarda – medida de comprimento do sistema inglês que, no métrico, é o metro), que corresponde a dizer que o tecido possui 338 g/m² (o fator de correção é 33,7963).

TM: Como são feitas as pesquisas para as tendências do denim, com lavagens e cores para uma determinada estação?

MJ: Nosso processo de desenvolvimento é baseado em pesquisas de comportamento, que chamamos de signposts ou direções do mercado global, que analisam as macrotendências de comportamento do consumidor, sinalizando caminhos. Hoje, por exemplo, a individualidade e a originalidade são elementos fundamentais para os produtos denim, como uma reação instintiva à produção em massa e à uniformidade em geral.

O comportamento jovem e as tendências mundiais de moda também são analisados de acordo com os parâmetros do universo jeanswear e traduzidos em produtos associados ainda aos inputs tecnológicos vindos da cadeia produtiva de nossas equipes de P&D (pesquisa e desenvolvimento) e de Produto e, é claro, de nossas interações com os clientes, pois é sempre muito importante estar alinhado aos anseios e às necessidades deles. Buscamos incessantemente entender, mas principalmente antecipar, suas vontades.

TM: Quais são as lavagens mais usadas atualmente e quais são seus processos?

MJO: Existem diversos tipos, desde as que se utilizam de pedra para o desgaste (stone washed) como as que se utilizam de laser para se obter efeitos parecidos. As lavagens de estilo vintage são as que buscam os efeitos que se pareçam com os desgastes naturais provocados pelos desgastes dos trabalhadores, que foram os primeiros usuários do jeans.

TM: Existem laboratórios que testam a qualidade das cores dos tecidos? Como eles funcionam?

MJO: Sim, são laboratórios técnicos e durante o processo de fabricação dos tecidos há vários pontos de checagem da qualidade do produto durante seus processos industriais. Existem também laboratórios que vendem esses serviços, mas que são mais usados para produtos destinados às roupas de uso industrial que à moda.

TM: É verdade que o denim é verde e que durante seu processo ele fica azul. Como é isso?

MJO: Sim, o corante ao reagir com a fibra primeiro adquire um tom amarelado, que em contato com ar vai se oxidando e, por meio dessa oxidação (que é uma reação química), vai esverdeando até se tornar azul. Em uma comparação, é como se ele fosse “enferrujado”.

TM: Hoje, quais mercados são os maiores lançadores de tendências de jeanswear do globo?

MJO: Apesar de a Europa ainda ser uma referência em termos de inovação e moda e de Berlim ser uma referência para o mundo do jeanswear, principalmente em função de a Bread and Butter ocorrer ali e ser a feira mais importante desse segmento, com a globalização e a velocidade da informação, as influências hoje se cruzam de tal maneira que todos são influenciados e movimentos regionais tornam-se febre mundial em questão de segundos, com fenômenos como internet, twitter, facebook, etc.; e tudo isso obviamente passa a ter grande impacto sobre as tendências e a moda. Outra importante referência é o Japão, seja pela originalidade de seus jovens, que aliam à tradição de sua própria cultura uma leitura toda especial, seja pela tradição que possui no tingimento do índigo.

TM: Para os amantes da área, quais são as primeiras feiras e eventos que ditam as tendências de moda no mundo?

MJO: Além das feiras acima citadas, “Bread and Butter” em Berlim, e a Première Vision, em Paris, são as mais importantes para o mercado de tecidos. Há ainda a Única, em Milão, e a Blue Zone, em Munique, também importantes.

TM: Hoje, que trabalhos devem ser observados e por quê?

MJO: Existem várias marcas internacionais importantes mundialmente, desde as mais conhecidas no Brasil, como Diesel, Replay, Miss Sixty, Seven, True Religion, como as menos conhecidas, como G Star, referência em jeans mais conceitual e de modelagens elaboradas, e a Nude Jeans, que trabalha os vintage e as lavagens sustentáveis; mais uma infinidade de marcas menores, mas não menos importantes conceitualmente.

Fonte:|http://tramasdamoda.com.br/?p=525

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