Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XIII

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Via Ápia: A Visconde de Pirajá da Rocinha é Palco de Ensaio de Moda

Editorial é feito na rua que não podia ser fotografada antes da pacificação

Modelo usa vestido Byron R$ 79,99 O Globo / Alexandre Sant'Anna. Tratamento: André Mello

RIO - A Rocinha, assim como a Roma Antiga, também tem uma Via Ápia. Centro comercial da favela, ela reúne multimarcas com roupas que copiam grifes famosas, vitrines que exibem o visual periguete da personagem de Carolina Dieckmann, restaurantes, farmácias, bancos e, até duas semanas atrás, uma das principais bocas de fumo da região. Proibida pelo tráfico de ser fotografada, a rua vira cenário para nosso ensaio de moda depois da pacificação, comandada pelo secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame.

 

— A Via Ápia era onde se vendia a droga. Não era permitido fotografá-la — diz o historiador Milton Teixeira.

— Eu não podia, de jeito nenhum, andar com uma câmera aqui, como faço agora. Havia restrições impostas pelo tráfico — conta o fotógrafo Leandro Lima, do site FaveladaRocinha.com.

Há três meses, O GLOBO tentou fotografar este ensaio na Via Ápia, sem sucesso. Com a implantação da UPP, a equipe reuniu profissionais da comunidade (modelo, maquiadora e assistente de fotografia) na segunda-feira, para, enfim, fazer da rua o cenário. As roupas foram garimpadas pela produtora Zizi Ribeiro na Via Ápia, a Visconde de Pirajá da Rocinha, e arredores.

O nome Via Ápia foi dado à rua comercial da Rocinha nos anos 60 pelo italiano Pompeu Feltrin, que foi morador da Travessa Palmas, na comunidade. Foi uma homenagem à Via Ápia de Roma, uma das principais estradas do Império Romano batizada em memória do político e escritor Appius Claudius Caecus.

Construída em 312 a.C, o caminho se estendia de Roma a Brindisi, numa distância de trezentos quilômetros, e era conhecida como regina viarum (rainha das estradas). A rua da Rocinha, uma ladeira visível da Lagoa-Barra, é bem menor. Tem cerca de 500 metros. Segundo José Martins, fundador da associação de moradores do Barcelos, bairro localizado na parte mais baixa da favela, Pompeu teria dado este nome após o loteamento da área pela Cia. Cristo Redentor, a partir de 1960.

A Via Ápia reúne da sex shop Sedução à Cinderela Bijuterias. Da multimarcas Top Mania ao restaurante japonês Via Japa, que vende sushi, sashimi e... sorvete. Da loja de surfwear masculina Usuthu à Barraca das Baianas, que oferece o melhor... estrogonofe da região. Do Bradesco à Ortobom. E ainda tem a grife de moda praia Ridy (não é a famosa Rigy, não), onde se vende o biquíni perfeito para fazer marquinha — o de lacinho é péssimo para isso, avisa o vendedor.

— A Via Ápia é o coração da Rocinha — diz Ágatha dos Santos, conhecida como "A Gatinha", a modelo de 18 anos que mora na Rocinha e protagoniza o ensaio.

— A rua é um dos points de lá, um verdadeiro polo gastronômico e econômico — afirma o subprefeito da Zona Sul, Bruno Ramos.

Vestido periguete e marca de biquíni

Com um traçado regular de travessas perpendiculares que cruzam a Via Ápia, a região do Barcelos é a área menos íngreme e mais comercial da Rocinha. A rua, sem calçada, parece um corredor de shopping ocupado por consumidores, carros e frenéticos mototaxistas. Por ser próxima à Autoestrada Lagoa-Barra, é acesso importante à parte alta da favela.

— Esta área lembra o bairro de Barceloneta, com ruas estreitas e perpendiculares. É a parte mais valorizada da Rocinha — diz o mestre em Urbanismo Marat Troina, que fez um estudo sobre a favela.

Desde que a região foi pacificada e, assim, foi encerrada a boca de fumo que ficava na altura da Travessa da Liberdade, empresários da região da Via Ápia e entorno estão preocupados com o preço dos aluguéis. Ricardo Soares, dono da multimarcas Byron, é um deles.

Na vitrine, Ricardo exibe vestidos estilo periguete, ou seja, justos, curtos e drapeados na altura dos quadris. Todos copiados de marcas como Botswana, Ágatha, My Place e Colcci.

— Na moda, todo mundo copia um do outro, não é? Aqui tem lançamento de dois em dois dias — diz.

O vestido estampado rosa que aparece na capa do ELA é de lá: uma cópia do tubinho da Panicat Juju. Ricardo fatura, em média, R$ 30 mil por mês. Sua loja é uma das 344 empresas que atuam no ramo de confecção, costura e calçados na favela, segundo dados do Censo Empresarial da Rocinha, uma ação da Secretaria de Estado da Casa Civil. De aluguel, o empresário e copiador assumido paga mensalmente R$ 3 mil, mais luvas trienais de R$ 30 mil. Reclama tanto quanto os empresários do Leblon.

— Essas luvas são um absurdo. Vamos ver como vai ficar daqui para frente — queixa-se Ricardo.

À noite, a Via Ápia ganha contornos de Dias Ferreira da Rocinha. É onde se localizam os restaurantes mais badalados. Tem o Social Trapiá, cujo carro-chefe é uma picanha para seis pessoas (R$ 72,90). O Via Japa é frequentado pelos "vipizinhos" e, segundo Àgatha, tem o melhor yakisoba da região. Na Barraca da Baiana, da baiana Ana Márcia, que "já foi ao programa da Ana Maria Braga", todos os pratos custam R$ 4,50. E ainda tem o quilo Amarelinho, com nome igual ao bar da Cinelândia.

Para andar na moda nos pagodes e bailes da Rocinha é preciso seguir um dress code. O vestido tem que ser "mara" (de maravilhoso), quase sempre de viscolycra. O do momento é o estilo periguete drapeado ("aumenta o bumbum e disfarça as gordurinhas", explica uma vendedora). Os saltos são vertiginosos — o escarpim rosa é hit. A maquiagem destaca os olhos com muito lápis e rímel preto, inspiração em Amy Winehouse e Claudia Leitte. Na boca, gloss. No cabelo, chapinha. E o esmalte pode ser azul Bic ou rosa chiclete. Este era o uniforme das meninas na festa da academia R1, no dia 18.

— A escolha por peças com viscolycra aponta duas direções. Uma é da ordem da sexualidade, com maior liberdade e menos culpa e patrulha em relação ao corpo. A outra passa pela noção de que este corpo ultrassexualizado, que se oferece como objeto de desejo explícito do olhar masculino, é um valor máximo — observa Joana de Vilhena Novaes, autora do livro "Com que corpo eu vou?", para o qual entrevistou moradoras da Rocinha.

Seguindo o padrão de beleza da região, que não sofre qualquer influência de ícones magérrimos como Gisele Bündchen, para fazer sucesso na Via Ápia é preciso ter o binômio cabelão e pernão x cinturinha e marquinha de biquíni.

— Ivete Sangalo, seguida de Viviane Araújo, é a campeã na preferência estética, segundo os moradores da Rocinha — afirma Joana.

Em janeiro, os jurados terão que levar em conta medidas fartas para eleger a Miss Rocinha. O concurso que vai escolher a musa da comunidade deverá ser realizado em janeiro. O idealizador do projeto, Jean Ribeiro, dono da agência de modelos Studio Libra, pretende construir uma passarela em plena Via Ápia, onde as concorrentes irão desfilar com roupa de festa e look moda praia. E as modelos, promete Jean, serão de parar até o frenético trânsito de mototáxis da Visconde de Pirajá da Rocinha.

Fonte: http://oglobo.globo.com/rio/via-apia-visconde-de-piraja-da-rocinha-...

 

 

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São bastante temerosas tais comparações, não podemos nos arvorar a colocar as coisas nos mesmos tapamares.

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