Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XIII

Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XIII

O aumento dos custos de energia fóssil, de matérias-primas minerais e agrícolas e de alimentos se propaga pelo sistema produtivo mundial e produz, em um mundo de globalização financeiras e hegemonia do câmbio flutuante, ressurgências e ativações inflacionárias.

O aumento dos custos de energia fóssil, de matérias-primas minerais e agrícolas e de alimentos se propaga pelo sistema produtivo mundial e produz, em um mundo de globalização financeiras e hegemonia do câmbio flutuante, ressurgências e ativações inflacionárias. As respostas nacionais podem se desdobrar das crises institucionais, com movimentos políticos importantes, até a inação. Porém, quase sempre, o temor da inflação inspira políticas contracionistas. Apesar de o desemprego alto persistir na economia americana, a inflação começou a subir. O presidente Obama falou de redução de déficits ao longo da próxima década.

Parece que os Estados Unidos necessitam gerar uma redução do gasto potencial de US$ 4 trilhões. Essa é a projeção para que a dívida pública americana não supere o Produto Interno Bruto (PIB). A situação é tão delicada que o Fundo Monetário Internacional (FMI) diz que os Estados Unidos estão perdendo credibilidade. Em sua imensa maioria, as reservas internacionais que lastreiam os bancos centrais são formadas por títulos do tesouro americano. O Banco Central brasileiro está todo nesse papel.

O Banco Central Europeu (BCE) prioriza o combate à inflação, que dá sinais de ressurgência na Europa. No Velho Mundo, a situação de crise aberta de sua parte meridional convive com a inflação e cortes nos gastos dos países prósperos (Alemanha e França). É possível que a cadeia Grécia-Portugal-Islândia progrida como dominó. A Espanha já prepara um "Proer gigantesco" para 13 bancos. A China está preocupada com a inflação interna do último trimestre, de 5,4%, e falou em reduzir seu crescimento dos 10,3% de 2010 para 9,0% em 2011.

Uma miniousadia seria acabar com o painel de indexações que dá sobrevida e realimenta a inflação passada

A crise mundial que a presidente Dilma não debateu, quando candidata no segundo turno, com o candidato Serra, é um fato devastador para as perspectivas para o Brasil. É hora de dissolver qualquer ilusão com sustentação de um crescimento de 5% em 2011. Na melhor das hipóteses, ficará um pouco acima de 3%. A inflação brasileira reativou-se está próxima do limite superior admitido pelo BC. A presidente Dilma, que, quando candidata, afirmou que não teríamos ajuste fiscal, fez, na abertura de seu mandato, a proposta de um grande corte fiscal, a suspensão de novos concursos públicos e a paralisação de contratação de qualquer brasileiro já concursado. Foi inteiramente convencida pelo BC e declarou, enfaticamente, que não teria "complacência com a inflação".

Lendo nas entrelinhas do que é dito pelo BC, verifica-se que já deslocou para 2012 a meta central de inflação de 4,5% ao ano. Isso significa que a mediocridade persistirá. Por outro lado, na queda de braço com a taxa de câmbio, continua a valorização crescente do real, que atingiu a taxa de R$ 1,54 por dólar. O BC continua comprando dólares excedentes, tendo neste ano adquirido quase US$ 30 bilhões. Obviamente, nossas reservas crescem e são aplicadas em títulos do tesouro americano. Em consequência, cresce a fatura que o BC apresentará ao Tesouro Nacional, por conta da perda brutal entre dinheiro nacional captado à taxa Selic e o rendimento do título do tesouro americano.

Com o neologismo de "macroprovidências", o BC está freando a venda a prazo. O leitor deve saber que o endividamento familiar maciço tornou possível fazer crescer nossa frota de autos, a 9% ao ano, de 1998 para cá. No caso das motos, foram 400%. Evidente que o não investimento em infraestrutura urbana desqualifica o viver na metrópole e na cidade média mas, ao invés de pensar em metrô, o governo insiste no trem bala, porém também há cortes no programa Minha Casa, Minha Vida.

Tivemos a visita de Barack Obama, quando a sutileza impôs a revista de ministros de Estado brasileiros. De volta aos Estados Unidos, Obama disse que fará um plano para reduzir em um terço o consumo de petróleo dos Estados Unidos até o fim desta década, e que quer o Canadá, a Venezuela e o pré-sal brasileiro. O quintal substituirá o Oriente Médio.

A diplomacia brasileira foi à China e colheu como vitória a perspectiva de um imenso investimento de US$ 12 bilhões para produzir componentes eletrônicos - promessa de um empresário de Formosa. A China continental sinalizou que procuraria adquirir alguns bens mais sofisticados. Enquanto isso, as importações de têxteis cobriram 47% do consumo brasileiro nos últimos 12 meses, enfraquecendo o setor. Não vi nenhuma menção a fornecimento preferencial ao Brasil de coque metalúrgico.

Continuaremos vendendo minério de ferro e importando aço chinês. A China não cumprirá o que havia sido pactuado com a Embraer, anos atrás. Não comprará o EB-145, pois já estão produzindo um equivalente totalmente chinês; em troca, a Embraer ficaria com o fornecimento de outros modelos - que serão, igualmente, clonados.

A vocação de República Velha está na plenitude. O ministro Mercadante estimou que a tonelada exportada média brasileira vale US$ 163 e a importada vale US$ 3 mil. Com cortes na infraestrutura e a atrofia dos programas de ciência e tecnologia, confirmaremos a vocação.

A presidente Dilma tem que se esforçar para bloquear a ressurgência inflacionária. Afinal, a estabilidade nos custou três décadas de estagnação do crescimento. Concordo com sua prioridade, porém me pergunto por que não ousa, em um mundo em crise. Uma miniousadia seria aplicar imposto aos produtos exportáveis que estejam causando perdas no poder de compra popular. O imposto reduziria os preços no mercado interno. Outra miniousadia seria acabar com o painel de indexações que dá sobrevida e realimentação à inflação passada. Outra, ainda, seria abrir a discussão sobre o controle real de entradas de capital do exterior. Para esse tema, poderia, inclusive, convocar uma reunião dos Brics e dos irmãos sul-americanos. Afinal, quem fala de perda de credibilidade dos Estados Unidos é o FMI.

 

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Carlos Francisco Theodoro Machado Ribeiro de Lessa é professor emérito de economia brasileira e ex-reitor da UFRJ. Foi presidente do BNDES

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