Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XIII

Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XIII

Fonte:|jcrs.uol.com.br|

Para o setor produtivo, varejo e entidades, a estreia do selo Produto Orgânico do Brasil, em janeiro de 2011, deve
turbinar um mercado cujo faturamento cresce 30% a 40% ao ano

No mundo dos orgânicos, tudo é superlativo. Além do caráter sustentável que se multiplica pela cadeia produtiva, as taxas de crescimento se situam nos dois dígitos. Estima-se que o segmento
movimente por ano cerca de R$ 300 milhões, cifra considerada
subestimada. A adoção do selo Produto Orgânico Brasil, que chega com
mais de sete anos de atraso, já que a legislação do setor é de 2003,
deve organizar a casa: padronizar o uso da denominação - só quem seguir
as regras técnicas poderá utilizar o nome orgânico, o que dará mais
segurança a quem vende e a quem compra. Mas para especialistas e varejo,
o mercado de consumo precisa receber mais informação e ser educado para
perceber as vantagens e as razões de pagar mais caro, na maioria das
situações, pelos produtos.

O Ministério da Agricultura e do Abastecimento (Mapa) já tem três empresas certificadoras habilitadas
(Ecocert, IBD e Tecpar) a aplicar o selo em produtos que atenderem aos
quesitos de produção e uso de ingredientes com origem sem nenhum tipo de
agrotóxico e trabalho fora das condições consideradas socialmente
justas. Feiras e iniciativas diretas de produtores não precisarão ter
registro, já que a legislação contempla a venda direta do produtor a
consumidores. É a relação de confiança que assegura a procedência.

O coordenador do projeto na Secretaria de Desenvolvimento Agropecuário e
Cooperativismo do Mapa, Rogério Dias, diz que mais três estão sendo
analisadas. O controle será rígido. Para estar habilitada, a empresa
terá de ter acreditação do Inmetro. “Teremos assim segurança se
realmente todas seguem as regras”, ressalta Dias. Também servirá para
levantar o tamanho do setor. O Censo Agropecuário do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apurou que 90 mil
propriedades de declararam ter produção orgânica. “Os produtos
certificados hoje não ultrapassam 20 mil produtores”, confronta Ivo
Gramkow, presidente da Associação Brasileira de Orgânicos (Brasilbio).

O mercado brasileiro registra 85% dos itens na área de alimentação, que
ganha mais impulso com ampliação da oferta de industrializados. O
cardápio vai do grupo das frutas, legumes e verduras (os FLV), boi
verde, até hambúrguer de soja, açúcar, arroz, cereais, chás e sucos,
cosméticos (que não poderão usar o selo, pois se enquadram em legislação
da área da saúde) e confecções (1%). Para quem emite selo próprio
admite que a profusão de empresa gera confusão na mente do consumidor.
“O selo será garantia a mais sobre o que o consumidor está comprando”,
reforça José Santiago, diretor comercial do IBD, com mais de 5 mil
produtores certificados em seu cadastro.

O executivo também espera enxugamento das certificadoras ante maior controle de órgãos
oficiais. A nova fase de regulamentação permitirá que os segmentos se
cadastrem, o que deve abrir mais canais. Luiz Mazzon, diretor-geral da
Ecocert no Brasil, empresa francesa que lidera nas emissões de registros
no mundo, aposta no maior esclarecimento dos consumidores e
disciplinará a disputa com os importados. “Para atuar aqui terá de ter o
selo”, justifica Mazzon.

A Copa do Mundo de 2014 está na mira do setor, que vê no selo um ganho para organizar e preparar a produção. “O
País quer ser reconhecido pela sustentabilidade. Os visitantes,
principalmente europeus, valorizam estes produtos”, destaca Ming Liu,
gerente do projeto Organics Brasil, que tem ações com ApexBrasil no
Exterior, levando empresas a feiras, e organiza projetos com a
Confederação Nacional da Indústria (CNI) para preparar as empresas a
lançarem produtos.

O Rio Grande do Sul está no programa, que investirá R$ 300 mil basicamente em capacitação técnica. Outra razão
para melhorar o mercado interno vem das exportações em baixa, efeito da
crise mundial que comprimiu a demanda dos países mais ricos, justamente
os maiores clientes. Holandeses, suecos e americanos respondem por 60%
dos negócios. Dados oficiais revelam que as vendas de orgânicos somaram
US$ 3,6 milhões em 2009, ante US$ 11,9 milhões de 2007.

Gôndola deve fazer diferença no avanço das vendas

O maior potencial de avanço das vendas de orgânicos está nas gôndolas dos supermercados. Hoje 70% da produção deságua no setor. Pão de Açúcar,
Walmart e Carrefour lideram a oferta. A expectativa é que o selo traga
grandes fabricantes de alimentos para o nicho. Líderes do setor como Pão
de Açúcar e Walmart desenvolvem cada vez mais ações para mostrar à
clientela a diferença e vantagens de comprar os itens. A primeira lição a
ser assimilada é a da educação. “As pessoas ainda fazem muita confusão
entre orgânico e natural”, cita Elizabeth Salmeirão, diretora da área de
varejo da TNS Research International. “Quem compra mais é o consumidor
engajado. Público em geral é catástrofe.”

Pesquisa de 2009 da TNS com moradores de Porto Alegre indicou que entre adeptos dos “verdes” o
consumo é de 97%, que cai para 63% entre aqueles que são simpáticos ao
setor e desce a 23% para público indiferente. O Ibope apurou em
sondagens que 47% dos residentes aceitam pagar um pouco mais pelos
orgânicos. Pela TNS, a disposição abrange 83% de pessoas que pagariam
até 10% a mais. Portanto, baixar preços é desafio, reforça Sandra Caíres
Sabóia, gerente comercial de orgânicos do grupo Pão de Açúcar, que tem
hoje 750 itens orgânicos em sua operação e lidera nas iniciativas da
área. Oferta pequena perto dos 40 mil itens. “Com o selo, grandes
fabricantes devem começar a atuar”, projeta Sandra.

O grupo também criou marca própria para turbinar o ramo, a Taeq, que explora
conceito de bem-estar. Nos últimos dois anos, o faturamento subiu 40%
entre os produtos. “É crescimento sobre crescimento”, define Sandra. Em
categorias mais maduras do varejo, as taxas não ultrapassam 10%. Na
operação logística, o grupo formou rede de produtores para entrega de
pedidos in natura nas lojas. O desafio, com a chegada do selo oficial é
formar o consumidor. Nas lojas, o tratamento é especial, com conexão ao
quesito saúde.

No Walmart, o diretor comercial na Região Sul, Marcelo Mendes, garante que 30% do menu de hortigranjeiros já segue o
conceito sustentável. Nas marcas Big e Nacional da rede gaúcha, a oferta
cresce 18% entre 2008 e 2009. Para o grupo, o novo poder de compra da
classe C é prato cheio. No suprimento de produtos, a rede busca ampliar
oferta entre 880 participantes do clube de produtores. Metade dos
agricultores segue o modelo orgânico, no qual a venda cresce 50%. A
redução ou fim da diferença de preços já ocorre. “A escala não é mais
obstáculo. Os valores estão muito próximos dos convencionais”.

Para Roberta Cardoso, especialista em varejo na Fundação Getulio Vargas
(FGV), a popularização dos produtos está muito atrelada aos conceitos de
vida saudável que ganham adeptos em todas as classes de renda. “Há dez
anos era nicho e inacessível. Hoje em muitas áreas o preço é um pouco
acima ou quase o mesmo”, atesta. Roberta aposta nas marcas próprias de
redes, na formação no ponto de venda e na definição de estratégias para
ponto de venda. “A palavra é educar. O ponto de venda é ideal para
isso.”

Lojas especializadas se multiplicam e ganham consumidores


Liciane é cliente cativa da loja da nutricionista Simone
Liciane é cliente cativa da loja da nutricionista Simone
A nutricionista funcional Simone Zaffari percebeu que o conhecimento profissional aliado à carência de produtos e informação
resultaria em um negócio promissor. Daí nasceu a Semente da Saúde, loja
que prioriza itens orgânicos. “Sempre indicava a meus pacientes o uso
desses alimentos, mas a dificuldade para comprá-los era frequente”,
conta Simone. O jeito foi aproximar sua clientela da alimentação
sugerida. No local, cafés, lanches e outras guloseimas seguem o
receituário. O cliente leva dicas e explicações essenciais sobre o valor
nutricional de cada produto e como prepará-los.

Situada em um ponto movimentado da avenida Nilo Peçanha, na Capital, o Semente da
Saúde já atraiu consumidoras cativas como a engenheira de produção
Liciane Carneiro Goettems, que faz “rancho” semanal no entreposto. Ela
gastaria até 30% a 40% mais se fosse comprar no supermercado itens
convencionais, mas conta que consome menos porque a satisfação alimentar
é maior. “Como bem menos e qualidade é maior”.

Para um dos donos da Prodezza, especializada em distribuir orgânicos, Emerson
Munhoz, lojas especializadas como a da nutricionista são mercado
emergente. Na Capital, elas se multiplicam. Hoje a empresa virou um dos
grandes fornecedores a segmentos, que incluem de redes como Zaffari e
Walmart a lojas como a Semente da Saúde, com distribuição de 140 tipos
de mercadorias e mais de 200 clientes. “Minha missão é levar canais de
oferta de produtos ao varejo”, resume Munhoz. O sócio da Prodezza
informa que ajuda a fomentar a adoção de orgânicos em segmentos como
lancherias de escolas a fast food de shopping centers.

Algodão alimenta confecções e gera empregos

Atrás da camiseta, da bolsa e do vestido da marca Justa Trama há um exército de trabalhadores. São mais de 700 associados a seis cooperativas, desde
agricultores a costureiras em diversos estados, que se envolvem na
cadeia para garantir que o fio usado nas unidades de tecelagem e
confecção seja orgânico, livre de manejo com agrotóxico e trabalho com
relações desiguais ou até escravo.

“Uma camiseta de algodão produzido de forma convencional tem 160 gramas de defensivos”, contrasta
Nelsa Nepolo, presidente da Univens, associação que fica em Porto
Alegre e faz a confecção de roupas e acessórios. A outra unidade está em
Santa Catarina.

A estreia da iniciativa ocorreu no Fórum Social Mundial de 2005. Em quatro anos, foram processadas 30 toneladas
de algodão, que é colhido por 300 agricultores em propriedades situadas
em nove municípios do Ceará. Para garantir maior suprimento e colheita
em período alternativo, começa nova base de plantio no Mato Grosso do
Sul. O mercado dos produtos são feiras e pontos de venda alternativos.

Restaurantes tradicionais levam pratos ‘verdes’ para a mesa

No prato, a rúcula, a feijoada, o entrecot e o quindim são orgânicos. O restaurante porto-alegrense Riversides Madero, situado na zona Sul da
Capital, incluiu os itens em 2009 e pretende alcançar 40% do cardápio em
2011 com ingredientes da área. A meta nos próximos anos é chegar a 100%
de orgânicos. Ao apostar no conceito, a grife colabora para ampliar o
alcance dos alimentos fora de casas identificadas como vegetarianas.

Na apresentação dos quitutes no bufê, os clientes já se acostumaram com
plaquinhas indicando a origem do alimento. O cozinheiro Rubens de
Oliveira Zuuse é o interlocutor das vantagens do menu “verde” e também
da tática para preparar desde o macarrão a um prato mais sofisticado.
“Exige cuidado todo especial. Mas quem experimenta não deixa mais de
comer”, comenta Zuuse.

Para facilitar a absorção da ideia, os valores seguem os mesmos da refeição convencional. Rosi Dalbosco,
coordenadora de compras do Riversides, aponta que a oferta de itens por
fornecedores é a maior dificuldade. Ela também tem tentado mostrar mesmo
a concorrentes que o caminho do orgânico tem vantagens e é aprovado
pela clientela. A atitude ajudaria a evitar que alguns itens faltem.
Isso ocorre eventualmente com a carne, indispensável na mesa dos
gaúchos. Hoje o grupo JBS (Friboi) é principal fornecedor do chamado boi
verde e, muitas vezes, cortes mais demandados não chegam na velocidade
exigida.


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