Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XIII

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A Petrobras para de adiantar o pagamento a fornecedores e endurece na renegociação de preços e prazos. Já tem empresa quebrando

São Paulo - Desde que a executiva Maria das Graças Foster assumiu a presidência da Petrobras, em fevereiro, muitos funcionários passaram a ter medo de atender o telefone. O temor é ouvir, do outro lado da linha, o pedido de uma informação urgente da própria Graça, que passou a ligar para funcionários de patente mais baixa quando executivos não têm a resposta na ponta da língua.

Os telefonemas se multiplicaram nos primeiros meses após sua posse, enquanto Graça comandava um pente-fino na companhia e se preparava para apresentar o primeiro plano de negócios de sua gestão. Na apresentação do plano, em setembro, uma das primeiras páginas dizia: “Historicamente, os projetos da Petrobras atrasam”.

Na projeção seguinte, uma tabela revelava os problemas da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, que a Petrobras está construindo em sociedade com a estatal venezuelana de petróleo. Em vez de ficar pronta em 2011, a refinaria só deve ser inaugurada em 2014, com três anos de atraso.

Ao lado da coluna de adiamento de prazos, outra coluna mostrava que o custo inicial da obra, de 2,3 bilhões de dólares, já havia passado por cinco revisões. Agora está em 20 bilhões — nove vezes o original. Na mesma página, uma última linha diagnosticava o problema: “Falhas no acompanhamento físico e financeiro”.

O recado, ao final da apresentação, foi claro. Falhas em projetos como o da refinaria e das inúmeras plataformas que estão atrasadas e com orçamento estourado são consideradas por Graça responsabilidade tanto da Petrobras quanto dos fornecedores. E a ordem, agora, é acabar com o atraso de obras e encomendas e também com a renegociação de preço de contratos.

Com isso, as mudanças sentidas em primeira mão pelos funcionários começaram a chegar também à cadeia de fornecedores da estatal. Segundo fornecedores ouvidos por EXAME, eram aceitos no passado diversos procedimentos para rever preços de contratos. O mais usual: para ganhar uma licitação, uma empresa oferecia um preço artificialmente baixo.

Ganho o contrato, lá vinha o fornecedor pedindo aditivos que, no fim das contas, inflacionavam o preço. Na prática, isso fazia com que os custos se tornassem imprevisíveis e acendia, em muita gente, a suspeita de que as negociações não eram lá muito ortodoxas. Mas as coisas, segundo 14 fornecedores ouvidos por EXAME, estão mudando.

Sem acordo

Para alguns, de forma dramática. A falência da empresa baiana Tenace Engenharia é exemplo disso. Prestes a completar 26 anos na montagem e manutenção de refinarias e plataformas de petróleo, a Tenace fechou as portas em novembro, devendo dois meses de salário a seus 2 800 funcionários.

Antes de ter a falência decretada, a Tenace tinha 23 contratos em andamento com a Petrobras — em 26 anos, foram mais de 200. Segundo documentos da empresa enviados a credores, aos quais EXAME teve acesso, o problema começou com o contrato firmado em 2010 para a ampliação de uma refinaria em Guamaré, no Rio Grande do Norte, no valor de 163 milhões de reais.

Conforme a empresa, vários problemas foram aparecendo e, no final, o orçamento estourou em 72 milhões de reais — um senhor estouro de 44%. Como costumava fazer nesse tipo de situação, a Tenace entrou com pedido na Petrobras para receber a diferença do valor. Mas nada saiu como o esperado.

A Petrobras endureceu e mandou o pleito para análise de uma comissão que avalia esse tipo de obra. A resposta final veio 20 meses depois, agora em outubro. A comissão só encontrou justificativas para a Petrobras pagar 22 milhões de reais a mais. “A empresa foi inflexível”, diz um executivo da Tenace. “Antes, sempre chegávamos a um acordo.” A Petrobras não comenta.

A Tenace apostou que a estatal fosse aceitar a renegociação do contrato. Enquanto esperava a decisão sobre o pleito, a empresa acabou se enrolando com empréstimos em bancos e, daí em diante, foi ladeira abaixo. O atraso no pagamento dos funcionários gerou uma greve em outra obra tocada para a estatal no Amazonas. Com a interrupção do serviço, a Petrobras rescindiu todos os 23  contratos da empresa baiana, que acabou falindo.

A WBS, com sede em Salvador e fatu­ra­mento de 40 milhões de reais por ano, enfrenta problemas parecidos. Um executivo próximo à empresa diz que ela teve dificuldade em renegociar contratos cujo orçamento foi estourado e que tiveram a qualidade do serviço questionada pela estatal.

Mais uma vez, a empresa gastou mais que o previsto no orçamento original, confiando que a Pe­trobras aprovaria um “aditivo” de preço. Desde julho a WBS briga na Justiça com a Petrobras e, em novembro, entrou com pedido de recuperação judicial — sua dívida é de 34 milhões de reais.

Outra mudança que vem afetando as fornecedoras da estatal é a restrição dos adiantamentos que a petroleira costumava dar às empresas com as quais fechava contrato. Até pouco tempo atrás, a Petrobras adiantava o pagamento de até 40% do valor do contrato, cobrando um desconto equivalente a 1% ao mês — menor, portanto, do que os juros pagos no mercado financeiro em operações semelhantes.

Neste ano, a Petrobras aumentou a taxa para 2% ao mês com o objetivo de forçar seus fornecedores a buscar crédito em outro lugar. O motivo do aperto é simples: a Petrobras está sem caixa. De um lado, tem de fazer investimentos colossais — mais de 47 bilhões de dólares por ano, o maior entre todas as petroleiras do mundo.

De outro, a companhia não consegue aumentar sua produção de óleo. Desde 2003, não atinge uma única meta de produção e, consequentemente, não consegue aumentar a geração de caixa no ritmo que precisa para sustentar os investimentos. Para piorar, os custos de produção e de refino de óleo só crescem. No segundo trimestre, a petroleira declarou um prejuízo de 1,3 bilhão de reais — o primeiro desde 1999.

A situação é ainda mais delicada porque a estatal não pode deixar os fornecedores na mão. Ela depende deles, hoje mais do que nunca — e a cadeia, formada em boa medida por empresas de pequeno e médio porte, não tem força para resistir a apertos significativos. No ano passado, a Petrobras criou um programa para baratear o financiamento de fornecedores, o Progredir.

O programa segue a mesma lógica do crédito consignado. Os juros ficam mais baixos porque os bancos têm menos risco, já que a garantia é o contrato da empresa com a Petrobras. Os fornecedores financiam até 80% do valor de seus contratos e, desde que o fornecedor direto da estatal peça o crédito, seus subfornecedores também podem acessar a mesma linha.

O custo médio das operações é de 1,2% ao mês, quase metade do das linhas tradicionais para capital de giro. A ideia é boa, mas ainda não decolou. Dos 5 600 fornecedores cadastrados na Petrobras, apenas 400 usaram o crédito. “A maioria das empresas ainda evita os bancos e espera o adiantamento da Petrobras, que é incerto”, afirma Eugênia de Melo, superintendente de óleo e gás da Caixa Econômica Federal. Eles não entenderam, aparentemente, que a mamata acabou.

Fonte:http://exame.abril.com.br/revista-exame/edicoes/1029/noticias/acabo...

Autores:Maria Luiza Filgueiras e Alexandre Rodrigues

 

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Comentário de paulo cesar pereira reboucas em 26 novembro 2012 às 23:51

parabéns, é só assim com pulso forte e o minimo de zelo pelo real nosso de cada dia. Que exemplos como esse se multipliquem......serve também para todos nós.....muito boa  materia.....

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