Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XIII

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É um Erro Dar Ouvidos a Funcionários Que Estão de Saída

Por Lucy Kellaway

Os ataques de Greg Smith no "The New York Times" fizeram de sua entrevista de despedida uma das mais brutais que se tem notícia. Mas a coisa mais bizarra nela é que se você desconsiderar a raiva e o barulho, o que ele disse sobre o Goldman Sachs foi perfeitamente normal. Suas acusações não são só do tipo que trabalhadores descontentes fazem contra ex-patrões, mas são acusações que a maioria de nós, feliz e empregada, poderia igualmente fazer.

Smith bateu no Goldman Sachs com três sarrafos. Primeiro, ele disse que a cultura do banco piorou desde que ele entrou para a instituição uma década atrás, e que os atuais chefes a corromperam. Em seguida, disse que o banco rouba seus clientes. Finalmente, ele revelou que seus colegas zombam dos clientes pelas costas e os xingam. Não sei quanto a você, mas isso me faz lembrar muita coisa. Posso dizer seguramente que a cultura da maioria das companhias está em um processo de declínio de longo prazo, uma vez que se tornam mais competitivas. Isso significa que elas tendem a ser menos complacentes e paternalistas do que antes.

Mas o mais importante é que sempre deturpamos o passado, pois é assim que nosso cérebro funciona. Não tenho ideia de como era a cultura do "Financial Times" quando comecei a trabalhar nele. O que me lembro é que na época, inexperiente e entusiasmada, eu a achava maravilhosa. A visão que tenho do presente é a de uma profissional velha e cansada.

Agora, pegue a denúncia do roubo a clientes. Certamente não há um empreendimento comercial no mundo que não faça isso. O propósito de ser uma empresa lucrativa é que você cobra o máximo que pode sem perder clientes para a concorrência, sem burlar a lei e sem atrair as atenções indevidas das autoridades reguladoras. A tragédia do meu setor é que não temos sido bons o suficiente em roubar os clientes. Na verdade, nos últimos anos esquecemos até mesmo o básico e estamos dando nossas coisas de graça.

E na acusação final, de xingamentos contra os clientes, concordo que isso não fica bem quando sai escrito nas páginas do "The New York Times", mas certamente é uma coisa que a maioria de nós faz de vez em quando. Na semana passada, sucumbi a acessos de palavrões tão selvagens contra leitores que fariam os banqueiros do Goldman Sachs parecerem cavalheiros quando chamam seus clientes de fantoches. "Idiotas! Retardados! Loucos!", declarei, ao ler os comentários irados e sem sentido abaixo da coluna de um colega.

Tive uma segunda explosão, quando recebi um e-mail de um leitor que fez objeções à minha aparência. "Seus cabelos não têm vida nem elasticidade", escreveu. "Seus cabelos refletem sua personalidade, amarga e vingativa. Além disso, você é baixa... um problema que afeta seu pequeno cérebro". O cliente pode ter sempre a razão, mas também pode ser difícil. Quando ele está sendo excessivamente cansativo, não é crime nenhum os funcionários comentarem isso uns com os outros.

Portanto, se Smith fez três reclamações que são comuns, por que ficamos todos tão irritados? O motivo é que o Goldman é o Goldman, suspeitosamente bem-sucedido, suspeitosamente fechado e, desse modo, passível de ser mais ou menos suspeito de tudo. Devemos dar importância a isso? Se agíssemos de forma racional, a resposta seria não.

A ideia de dar ouvidos a funcionários que estão de saída é tola. Nunca entendi a razão de as companhias darem tanta importância às entrevistas de despedida. Elas dizem a si mesmas que os ex-funcionários estão de certa forma livres para dizerem a verdade, quando na verdade eles estão tão coagidos quanto os atuais funcionários - mas as restrições são diferentes.

Quando você está empregado, não diz o que realmente pensa porque quer continuar recebendo seu salário. Mas quando você está indo embora, também falha no teste da verdade. No caso de Smith, ele decidiu abrir o bico com o interesse pessoal em infligir o máximo dano: quanto mais virulento, maior o suposto contrato com uma editora para escrever um livro.

Pela lógica, não deveríamos dar atenção a declarações de atuais ou ex-funcionários. Teríamos o mesmo desprezo tanto por entrevistas de despedida quanto por pesquisas com os colaboradores. Mas não somos lógicos e nos agarramos a tudo que nos dê suporte àquilo em que queremos acreditar.

Os chefes do Goldman estão se confortando com as pesquisas internas que pretendem mostrar que todo mundo no banco está delirantemente feliz - exceto Smith. Já para o resto de nós, o Goldman é um local de procriação de gente arrogante e gananciosa. Desse modo, pegamos as palavras de Smith, esquecemos que elas são vazias e duvidosas, e as aceitamos sem questionamento.

Lucy Kellaway é colunista do "Financial Times". Sua coluna é publicada às segundas-feiras na editoria de Carreira

Fonte:http://www.valor.com.br/carreira/2586346/e-um-erro-dar-ouvidos-func...

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Comentário de Oscar da Silva em 29 março 2012 às 21:45

Lucy Kellaway. Nunca tinha ouvido falar dela.

Mas o que li acima, me deixou profundamente arrependido de ser um monoglota. Adoraria passar a ler alguns artigos dela no Financial Times. Devem... devem não: só podem ser artigos lúcidos, honestos, críticos, auto-críticos, verdadeiros. E fundamentalmente inteligentes.

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