Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XIII

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O homem que enxergou o futuro do agro e agora luta por um Nobel da Paz

O Brasil é peça-chave na tarefa de produzir e alimentar a população mundial, por conta de muitas inovações pensadas por Alysson Paolinelli. Ele foi um dos criadores da Embrapa e é um dos grandes responsáveis por levar produtividade ao Cerrado.

Alysson Paolinelli, pouco conhecido pela grande população, mudou o agro brasileiro e mundial – Foto: WASHINGTON ALVES/AE

Aos 84 anos, o engenheiro agrônomo Alysson Paolinelli não pensa em descansar. Nem mesmo aos domingos. A cada um deles, religiosamente, ele se reúne (virtualmente, direto de sua fazenda em Baldim, Minas Gerais) com um grupo de líderes do agronegócio nacional – entre eles seis ex-ministros da Agricultura, assim como ele – para falar do futuro. E, sobretudo, ajudar a construí-lo.

Não é um bate-papo qualquer e a turma do tal Fórum Futuro também não quer vê-lo sossegado. Sabem que Paolinelli é uma espécie de Pelé do agro, um homem com uma obra de impacto global e de palavras firmes que ainda podem render frutos para o setor, o Brasil e, sejamos ambiciosos, a humanidade.

Trata-se, no entanto, de um Pelé ainda pouco conhecido e, sobretudo reconhecido. Por isso, os “amigos” domingueiros resolveram prestar-lhe uma homenagem. Iniciaram, no fim de 2020, uma mobilização para que Paolinelli fosse indicado ao Prêmio Nobel da Paz, uma honraria que dispensa apresentação.

Em pouco mais de dez dias, entre o Natal e o Ano Novo, coletaram 119 cartas de apoio, vindas de mais de 100 diferentes instituições em 24 países. Anexaram todo o material em um dossiê e enviaram, em meados de janeiro passado, ao comitê norueguês do Nobel. Se a ideia deu certo ou não, saberemos em 8 de outubro próximo, data prevista para o anúncio do eleito em 2021.

“Estamos plantando uma semente e esperamos colher autoestima para o agronegócio brasileiro”, afirma Ivan Wedekin, agrônomo, ex-aluno de Paolinelli, ex-secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura e coordenador da campanha ao Nobel.

“A indicação, mais do que honrou, me comoveu”, responde o mestre ao NeoFeed, ciente de que junto com a homenagem está embutida uma missão: “Com ela, vem a obrigação de assumir a responsabilidade e defender o que entendemos ser o principal em termos de estratégia, para manter o Brasil como forte player na produção e oferta de alimentos”.

Por que Paolinelli

A defesa de uma indicação ao Nobel exigirá empenho de todos e terá maior chance de sucesso se, ao menos, sensibilizar parte da sociedade brasileira, não muito ligada a nomes e trajetórias do agronegócio, embora seja esta a atividade econômica mais relevante no País, responsável por cerca de um quarto do PIB segundo o IBGE.

Por isso, é fundamental que tudo comece por contar a trajetória desse mineiro de Bambuí, pequeno município da região centro-oeste do Estado, e graduado em Agronomia pela Universidade Federal de Lavras, também em Minas.

Desde muito jovem Paolinelli se interessou em buscar na pesquisa e na ciência a solução para problemas que via na prática da produção rural brasileira, ainda incipiente quando frequentava os bancos escolares. E entendeu que, sozinha, também a ciência não resolveria tudo. Por isso, também desde cedo aproximou-se da política e passou a ocupar cargos que lhe permitissem influir na definição de planos de desenvolvimento para a agricultura.

Seu trabalho começou a aparecer, é claro, em Minas. Em 1971, com apenas 35 anos, assumiu a secretaria estadual de Agricultura, no governo Rondon Pacheco, e implantou uma gestão baseada em programas de incentivos e inovações tecnológicas.

Paolinelli, na época, também foi um dos responsáveis pela criação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a até hoje subvalorizada (pela sociedade, diga-se) Embrapa. Os resultados vieram rápido e chamaram a atenção em Brasília. Três anos depois, o general Ernesto Geisel o convidou para se tornar ministro em seu governo.


Paolinelli na década de 1970, quando era ministro da Agricultura – Foto: ALFREDO RIZZUTTI/AE

Tinha início, ali, uma revolução sem precedentes na economia, na geografia e na demografia brasileiras. Para começar, o jovem ministro desconstruiu o mito da fertilidade e da abundância de alimentos no Brasil, que existia desde que Pero Vaz de Caminha escreveu que nessas terras, em se plantando, tudo dá.

“O Brasil, na verdade, tem poucas terras férteis e precisávamos ampliar a produção”, recorda Paolinelli. O Cerrado, por exemplo, tem solos pobres e coube à ciência torná-lo produtivo, com o uso de tecnologias desenvolvidas especialmente para esse fim.

“O grande desafio era ter as respostas da ciência e a Embrapa foi um esteio nessa área”, conta. “Precisávamos buscar mais competência e, por isso, mandamos mais de 1530 técnicos para os principais centros de ciência do mundo. Eles tinham de ir lá, ver o que se fazia de melhor, mas tinham compromisso de voltar e desenvolver aqui a tecnologia e a inovação para o bioma tropical brasileiro”.

Se o dinheiro público era insuficiente para bancar seus projetos, ele buscava apoio na iniciativa privada ou mesmo em convênios com governos estrangeiros. Do Japão, por exemplo, ele obteve apoio fundamental para o desenvolvimento do Centro-Oeste brasileiro.

Conseguiu também que o governo federal reservasse US$ 3 bilhões (o equivalente a cerca de US$ 15 bilhões em valores atuais) para financiar a ocupação, por agricultores, de 3 milhões de hectares de Cerrado, como parte do projeto Polo Centro, um dos marcos de sua gestão. “Acabou que o resultado foi muito maior. Esse projeto foi apenas um indutor, porque o agricultor tem faro. Se ele vê o vizinho fazendo e dá certo, ele faz também”.

Esse muito mais é praticamente imensurável. Os 1.530 técnicos enviados ao exterior e os bilhões do Polo Centro estão nos alicerces de toda a transformação ocorrida nos últimos 40 anos no interior do Brasil. Cidades surgindo e se tornando prósperas, negócios se multiplicando, fluxos migratórios sendo redirecionados, a riqueza florescendo em recantos que pareciam fadados ao esquecimento.

Para não retratar esse impacto apenas em palavras, vamos a alguns dados:

Desde 1960, graças às novas tecnologias disponíveis, a área plantada no Brasil aumentou em mais de 14.000%. Hoje ocupa cerca de 67 milhões de hectares, sendo 35,7 milhões apenas com soja, nossa principal cultura, que era incipiente na década de 1970.
Nos anos 50 anos, nossa produtividade agrícola cresceu 207%, recorde mundial.
Para cada 10 hectares de soja plantada são gerados dois empregos, um direto e um indireto. Apenas o grão, portanto, gera atualmente mais de 7 milhões de vagas, a imensa maioria no interior do Brasil.
De 1970 a 2018 a produção global de soja cresceu 7,9 vezes. No Brasil, esse crescimento foi de 79 vezes.
Com apenas 34 anos de fundação, o município de Sorriso (MT), maior produtor de grãos do país e um dos novos polos de desenvolvimento do agronegócio, já figura entre os 200 mais ricos do Brasil em PIB per capita.

Comida e paz

Pode-se fazer uma farta colheita de números como esses. A maior entrará, pelo menos parcialmente, na conta de contribuições de Paolinelli ao País. Pode-se também olhar mais longe e dimensionar o que essa transformação brasileira representou para o fornecimento de alimentos ao redor do mundo.

Quando ele assumiu o ministério, o Brasil tinha déficit na sua conta de comércio exterior de alimentos. “A partir dos anos 1980 começamos a competir internacionalmente, graças a uma agricultura tropical altamente sustentável desenvolvida aqui”, diz Paolinelli. “Hoje exportamos para mais de 200 países e participamos diretamente na nutrição de mais de 1 bilhão de pessoas ao redor do mundo”.


Plantação de soja no Cerrado – Foto: Flickr/CNA

Outro ex-ministro da Agricultura, o também agrônomo Roberto Rodrigues, coordenador da FGV Agro, há anos repete, como um mantra: “A produção de alimentos é um instrumento de paz”. Integrante do grupo dos domingos de Paolinelli, ele é um antigo defensor da tese de que o primeiro Nobel brasileiro deveria estar justamente associado à nossa capacidade de fornecer ao mundo as proteínas, fibras e energia que ele precisa para manter populações crescentes em situação de segurança alimentar, reduzindo assim a incidência de conflitos e os imensos movimentos migratórios.

Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), a fome severa atinge hoje mais de 690 milhões de pessoas. As migrações internacionais, mais de 250 milhões. Outras 760 milhões migram dentro de seus próprios países.

Paolinelli tem os números na ponta da língua. “As projeções indicam que temos de manter, na agricultura, um crescimento 10% ao ano até 2050. Isso porque o Brasil é responsável por dois terços de todo o crescimento da demanda por alimentos prevista até la. Se o Brasil não conseguir atender à demanda, o mundo vai ter ainda mais fome”.

E o discurso também está afiado. Há dois anos, em uma reunião na Europa com investidores e representantes da política agrícola no continente, ele questionou os interlocutores: “Quanto estão gastando os países industrializados para conter os fluxos migratórios e financiar a não existência de guerras que têm em sua base a deficiência de alimentos?”, indagou.

Logo em seguida, prosseguiu: “Donald Trump meteu US$ 3 trilhões para fazer o muro da vergonha. A Europa está gastando outro tanto para policiar a sua periferia, desde o Mediterrâneo ao Atlântico Norte, para evitar migrações que causam desajustes sociais em seu território. O corolário desse movimento todo é o terrorrismo. Quanto eles estão gastando para conter o terrorismo? Não seria melhor que eles reconhecessem que temos a solução para esses países famintos?”

Ele questiona e responde: “Todos estão na área tropical do globo e nós desenvolvemos uma tecnologia adequada para produzir alimentos lá. Mas o Brasil, sozinho, não pode fazer. Ao invés de ficarem apenas reclamando da fome e da miséria, devem fazer um esforço conjunto conosco para que essa população imensa tenha pelo menos a barriga cheia”.

A arma primordial da segurança alimentar é a inovação. Foi ela também que justificou a concessão do Nobel da Paz de 1970 a Norman Burlaugh (1914-2009), agrônomo americano considerado pai da Revolução Verde, como ficou conhecida a expansão da agricultura permitida pelo desenvolvimento científico do melhoramento genético de plantas no pós-guerra.

Estima-se que a contribuição de Burlaugh tenha salvado a vida de algo entre 250 milhões e 1 bilhão de pessoas, potenciais vítimas da inanição. Burlaugh foi também um dos criadores do World Food Prize, considerado o Nobel da Agricultura, prêmio que Paolinelli conquistou em 2006.

Não é improvável que a revolução tropical brasileira liderada pelo mineiro tenha resultados ainda mais expressivos que a do americano e talvez tenha mesmo a hora de o comitê do Nobel voltar a olhar para o campo produtivo ao invés de os campos de batalha. Reconhecer a obra de Paolinelli seria dar um novo impulso às ciências agrárias, justamente em um momento em que o mundo precisa, mais do que nunca, valorizar os cientistas.

Reconhecer a obra de Paolinelli seria dar um novo impulso às ciências agrárias, justamente em um momento em que o mundo precisa, mais do que nunca, valorizar os cientistas

Foi justamente o campo científico o que, na largada da campanha, manifestou maior apoio ao agrônomo brasileiro. “Mais de 50% dos apoios recebidos vieram de universidades e instituições de pesquisa”, comemora Paolinelli, “um afirmacionista da ciência”, segundo Wedekin.

“Estou muito preocupado com as dificuldades que estão vivendo as nossas instituições científicas, como a Embrapa e universidades, que estão sendo dizimadas e transformadas em coisas fora da pesquisa pela falta de visão dos governos” diz Paolinelli.

“O Brasil está chegando próximo a um risco muito grande pelo endividamento e isso vai nos atrapalhar. Sei que o governo vai ter de apertar o cinto, mas a minha expectativa sincera é de que haja líderes que reconheçam que ciência e tecnologia são a base de todo o desenvolvimento, especialmente em países jovens”.

O legado do seu trabalho comprova o discurso. Paolinelli sabe que a indicação, antes mesmo do prêmio, é uma plataforma para seja ouvido ainda por mais gente. Ele acredita que estamos diante de uma oportunidade, às portas de uma terceira revolução, a da biotecnologia, e que precisamos de investimentos para que lideremos essa nova transição. “A agricultura que somos campeões é a de massa, de produção e de exportação de commodities. Essa já ganhamos.”

Para os governos e para quem pretende investir no agronegócio nacional, Paolinelli indica um caminho: “Temos agora de produzir o que os novos consumidores querem, alimentos mais naturais, com maior sanidade mais nutritivos. Produzimos até três safras no ano e barateamos a cesta de alimentos em todo o mundo. O Brasil tem biotecnologia 12 meses por ano. O homem que vai consumir o produto brasileiro sabe que aqui o produto é mais natural porque temos as condições de clima. Calor, água, terra sol nos dão essa vantagem competitiva. Podemos buscar aqui as grandes soluções que eles não têm lá fora”.

O que não temos, hoje, são recursos e Paolinelli pretende continuar na briga para que eles surjam. “Essa é a vertente que eu me entusiasmo e que essa indicação me obriga a ir buscar com mais força”, diz. “É a grande obrigação que estão me dando. Organismos como a Embrapa têm de ter recursos, seja de que fonte for, para não parar. Pesquisa objetiva, séria, que tenha foco, não é custo. É investimento dos melhores”.

Luiz Fernando Sá Luiz Fernando Sá

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