Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XII

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Inovação em Modo Pandemia

Era uma vez um tempo em que inovar era difícil, não havia tempo, não havia competências, não se sabia por onde começar. O mundo vinha num ritmo de transformação acelerada há anos, com novas tecnologias associadas a novos modelos de negócio provocando disrupções e transformando dramaticamente indústrias e cadeias de valor. Ainda assim continuava difícil, havia as metas do mês, do quarter, do ano, o imperativo da eficiência da máquina corporativa e a otimização de custos. Inovar continuava difícil.

Ainda assim, inovação virou “moda”. Tema fácil em qualquer reunião C-level há um bom tempo, omnipresente em qualquer publicação de negócios em qualquer parte do mundo. Nunca foi tão fácil para garotos mal saídos da adolescência estarem diante de grandes nomes dos negócios apresentando suas visões de futuro. E nunca foi tão fácil levar uns trocos da “velha-guarda” (com exceção talvez do boom das “.com”, que culminou com o estouro da bolha). Gurus surgem em cada esquina para mostrar o “segredo” da inovação de sucesso, como se, de repente, do nada, alguém houvesse criado uma formula magica, algo nunca visto, e inovação não fosse uma realidade de sucesso em um número relevante de empresas, longevas, com alto valor de mercado e enorme sucesso empresarial. E haja “labs” de inovação, pufes coloridos, tobogãs corporativos, nerds, startups e post-its, usados como se fossem “causa” e não “efeitos” de uma cultura inovadora. Sem falar nas excursões as mecas da inovação no mundo. Não me entendam mal! Tudo isso pode ser muito importante e criar muito valor, se estiver no lugar certo, numa cultura com o mindset adequado. Lembrei agora de um artigo do Gary Hamel intitulado “Os 5 Requisitos de Uma Empresa Verdadeiramente Inovadora” que avalia razoes de insatisfação de empresas com seus programas de inovação e fala muito bem dessas questões. Vale a leitura.

Mesmo com todos os anticorpos corporativos em pleno vapor, prontos para matarem qualquer ideia que desafiasse o status quo no minuto em que ela surgisse, sempre houveram “os rebeldes, os que não se encaixavam, os encrenqueiros” (parafraseando Steve Jobs) que combatiam as regras e ortodoxias que ancoravam os negócios, que não tinham respeito pelo status quo e conseguiam fazer a inovação vingar nos seus negócios. Nunca tiveram vida fácil. Durante palestra no Websummit 2019, o Alex Osterwalder (criador do Business Model Canvas) perguntava à plateia se alguém havia assumido posições de liderar a gestão e cultura de inovação nos negócios, para concluir com a pergunta: “Vocês sabem que isso é suicídio de carreira em muitas empresas, não sabem?”. Steve Jobs sabia disso (e sofreu na pele com isso) e conclamava, no discurso com trecho parafraseado há pouco, os negócios a abraçarem seus encrenqueiros e a criarem espaços para que crescessem e levassem os negócios juntos, para mares que jamais pensariam navegar.        

E de repente... pandemia. Tragédia de escala mundial. Devastadora. Disrupção absoluta nas nossas vidas, relações, negócios, trabalho, estudos, mobilidade e tantos outros temas que são parte da nossa vida cotidiana. De repente os anticorpos corporativos que limitavam a inovação nas organizações caíram por terra, as ortodoxias, as crenças “imutáveis” mudaram e abriram as portas para novas possibilidades, “impossíveis” e “inviáveis” passaram a acontecer todos os dias. 

De repente o home-office, visto com desconfiança por tantas empresas, por tantos gestores, vira realidade universal, e se mostra mais produtivo do que o modelo tradicional. De repente podemos pensar num futuro com mais teletrabalho, escritórios menores, com novos formatos e funções, menos deslocamento, trânsito e poluição, ao tempo que teremos operações mais eficientes e com custos menores.

De repente a educação a distância, ainda uma realidade distante para os alunos de ensino básico e fundamental, passa também ao novo normal e se mostra perfeitamente viável. De repente podemos pensar num futuro onde a tecnologia leve educação a todos, em qualquer parte, com muito mais qualidade e a custos infinitamente menores. De repente a escola física pode ser repensada como um local para exercitar mais habilidades sociais, relacionais e esportivas, e menos conteúdo.

De repente caíram as barreiras à telemedicina, de repente não precisamos mais de receitas médicas originais carimbadas e assinadas para adquirir medicamentos. De repente confiamos nas pessoas e o digital serve, e podemos pensar num futuro onde cuidados médicos podem alcançar muito mais gente.

De repente os serviços públicos aprendem que filas não são bem-vindas e podemos pensar num futuro com menos burocracia e muito mais serviço ao cidadão.

De repente o varejo aprendeu que o fluxo de clientes na loja não é a única forma de gerar receita, que a relação digital com seus clientes é vital, e podemos pensar num futuro com muito mais conveniência e abundância também para as nossas necessidades materiais.    

Voltando a falar de inovação que funciona, o exercício de cenários com restrições é uma técnica amplamente utilizada para descobrir oportunidades de inovação de alto-impacto. Imagine se os negócios, hoje fechados, já fossem habituados a trabalhar com cenários de restrição e já tivessem claramente a reposta a perguntas como: “E se não pudéssemos receber os clientes ou usuários fisicamente? Como os atenderíamos?”. Talvez já vivêssemos num mundo bem diferente, para melhor, claro.

             Podemos dizer que a pandemia criou “a mãe de todas as restrições”, tamanho o seu impacto, e deitou por terra obstáculos outrora intransponíveis para inovar. Mostrou que a inovação não precisa de gurus, de soluções mágicas ou de ciência de foguete. Precisa acima de tudo do olhar certo para as pessoas, seus problemas e necessidades. Aí estão as verdadeiras oportunidades de criação de valor.

De repente aprendemos que inovar não é tão complicado e quero deixar aqui o desafio para que, passada a crise, o mindset para inovação permaneça em “modo pandemia”, e que possamos pensar num futuro onde as organizações e governos inovem muito mais para o bem de toda a humanidade.

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