Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XIII

Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XIII

Posted by Clavel Rojo in Não há fuso sem roca - telemaquia.blogspot.com

O simbolismo do fio é essencialmente o do agente que liga todos os estado da existência entre eles e ao seu Princípio (Guénon). Este símbolo exprime-se sobretudo nos Upanixades, onde se diz que o fio (sutra) liga este mundo e o outro mundo e todos os seres. O fio é ao mesmo tempo Atma (o eu) e prana (o sopro). A ligação ao centro principal, por vezes representada pelo Sol, necessita que o fio seja seguido à risca em todas as coisas. O que não pode deixar de evocar o simbolismo do fio de Ariadne, que é o agente da ligação do regresso à luz. A este propósito deveríamos também referir aqui os fios que ligam os fantoches à vontade central do homem que as anima, como no teatro japonês.

No plano cósmico, há que distinguir o fio de uma corrente e o fio de uma trama: a corrente liga entre si os mundos e os estados; o desenvolvimento condicionado e temporal de cada um desses mundos e desses estados é representado pela trama. O conjunto desta tecedura é designado como sendo os cabelos de Shiva. O desenrolar do fio da trama é simbolizado pelas Parcas, pela fiação do tempo ou do destino.

Para regressar ao sopro, notemos ainda que, para os taoístas, ele está associado ao vaivém da lançadeiras sobre o bastidor: estado de vida, manifestação de morte, expansão e reabsorção da manifestação. A ideia do tecido feito de dia e desfeito de noite (reencontramos aqui o mito de Penélope) é utilizado pelo Rig-Veda para simbolizar, mais uma vez, o ritmo vital, a alternância indefinida da respiração, igual à do dia e da noite.

No mito japonês da Deusa Solar, a tecedura de Amaterasu é destruída por Susano-wo-no-Mikoto. Diversas iniciações femininas, principalmente na China, implicam um tecer ritual associado à reclusão, à noite, ao Inverno, pois a sua participação na tecelagem cósmica torna-o perigoso e obriga-o a ser secreto. Por outro lado, os trabalhos feitos de dia, no Verão, são os do campo, trabalhos masculinos. O encontro celeste da Tecedeira e do Boieiro é o equinócio, o equilíbrio e a união do yin e do yang.

Já indicámos mais acima que o sentido de fio se aplicava ao termo sutra, que designa os textos budistas. Temos de acrescentar que a palavra tantra deriva igualmente da noção de fio e tecelagem. Em chinês, o caracter king, composto de mi (fio grosso) e de king (curso de água subterrâneo), designa ao mesmo tempo a urdidura do tecido e os livros essenciais; wei é, ao mesmo tempo, a trama e os comentários desses livros. Urdidura e trama são, respectivamente, aquilo que na Índia se denomina shruti e smriti, os frutos da faculdade iniciativa e discursiva. No caso dos tantras, a tecelagem pode ser a da interdependência das coisas, das causas e dos efeitos. Mas o fio tântrico é também o da continuidade tradicional, o fio de Ariadne no labirinto da busca espiritual, ligação ao Princípio de todas as coisas.

O enfiamento da agulha é, aliás, o símbolo da passagem pela porta solar, isto é, da saída do cosmos. É também - mas o sentido é o mesmo - o da flecha a atravessar o centro do alvo. O fio aparece aqui como a ligação entre os diferentes níveis cósmicos (infernal, terrestre, celeste) ou psicológicos (inconsciente, consciente, subconsciente).

Para voltarmos ao nível elementar, à noção de fio do destino, vejamos que no extremo oriente o casamento é simbolizado pela torção, entre os dedos de um génio celeste , de dois fios de seda vermelha: os fios do destino dos dois esposos tornam-se um único fio. Noutros países do sudeste asiático, amarram-se os pulsos dos recém-casados com um fio de algodão branco: o fio do destino comum.

Na bacia do Mediterrâneo, e em particular em todo o Norte de África, fiar e tecer são para a mulher aquilo que lavrar é para o homem: associar-se à obra criadora. No mito e nas tradições, a tecelagem e a lavoura encontram-se juntas, mas a tecelagem é também uma lavoura, um acto de criação de onde saem, fixos na lã, os símbolos da fecundidade e a representação dos campos cultivados. Porfirio, no Antro das Ninfas, dizia: Que símbolo condiria melhor com as almas que descem à geração do que a arte de tecer?

Chevalier, Jean; Gheerbrant, Alain, "Fio", Dicionário dos Símbolos, trad. de Cristina Rodriguez e Artur Guerra, Lisboa, Teorema, [s.d.], pp. 325, 326.

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