Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XIII

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No olho do furacão: o pós-Dilma e o Governo Michel Temer

Por qualquer medida das notícias que saem de Brasilia ou Curitiba, a crise política brasileira está entrando no olho do furacão.

O ato de desespero de Eduardo Cunha — delatado no mesmo enredo que envolveu o PT — acelerou a crise mas é um capítulo à parte; e, em algumas semanas, seu destino pessoal poderá ser apenas uma nota de rodapé em meio a uma transformação sísmica na paisagem política brasileira.Michel Temer

O melhor cálculo político hoje — aquele feito sem a paixão das torcidas — sugere que o Governo Dilma pode estar mesmo próximo de um fim antecipado.

Mas em vez do final dramático, palpitante e cheio de adrenalina em que a Presidente seria enfim implicada na Lava Jato (o roteiro com que sonham muitos eleitores da oposição), o fim poderia vir com a decisão fria, técnica e racional do TCU, ao decidir que a chefe do Executivo cometeu um crime ao violar a Lei de Responsabilidade Fiscal.

Na sexta-feira, o esfarelamento do quadro político e a consequente diminuição da capacidade preditiva de qualquer observador levaram o dólar, juros e a Bolsa a começar a botar a incerteza no preço.

“Está caindo a ficha de que mais instabilidade é ruim para a economia e por sua vez para as empresas,” diz um operador em um grande fundo nacional. “E, nessa discussão, o [investidor] gringo tende a vender mais do que o local, que, por sua vez, pode até enxergar uma oportunidade de mudança positiva.”

Em outras palavras: para o capital, não importa se um Cunha vai para a cadeia antes de um Dirceu. O dinheiro quer saber é se as instituições funcionam. (Sorry if you disagree.)

Não há pânico nos mercados até agora, e os volumes negociados seguem baixos, em parte graças às férias de verão no hemisfério norte e também à espera do Fed, um banco central que fica cantarolando: ‘vou apertar, mas não vou acender agora.’

Dilma RousseffMas se alguns investidores começam a se permitir imaginar o Brasil pós-Dilma, pós-PT, a dúvida é: que Governo teríamos então?

Pouco se sabe sobre Michel Temer, sua visão (orgânica?) de república, suas ideias sobre o tamanho do Estado e as liberdades individuais. Nos últimos 20 anos, enquanto convidado frequente de programas de entrevistas, o atual No. 2 sempre foi mais solicitado a comentar ‘como funciona’ a política do que o que ele quer para a Nação.

É certo que o vice-presidente é um homem cordial, de temperamento construtivo e com amplo tráfego entre as camadas mais estratosféricas do País, mas não possui carisma nem conteúdo programático que o credencie como intérprete da vontade popular por mudança — antes um sussurro tímido, em seguida um lamento, e finalmente um grito que demanda ser ouvido.

Sobre Temer, um pilar do PMDB, só se pode dar de barato que se trata de um homem pragmático, que fará as costuras necessárias para viabilizar um Governo que nos leve até 2018.

Tudo vai depender desta costura, e da oposição estar disposta a participar de um ‘governo de coalizão nacional’ que reduziria a pressão das ruas. (Não que os partidos tenham alguma representatividade, mas porque é mais difícil gritar contra o Governo quando TODOS estão nele — todos exceto o PT, que provavelmente já estará, de novo, posando de vestal.)

No proverbial frigir dos ovos, tudo dependeria do PSDB, um partido onde há pelo menos três cálculos politicos distintos: um de Geraldo Alckmin, um de José Serra, e o de Aécio Neves.

Eduardo Cunha - resizedAqui, o cenário-base da coluna: Alckmin quer que Temer assuma, mas não quer o PSDB no Governo. Quer se manter isolado no quadrado da oposição para se viabilizar como o candidato tucano em 2018. Serra quer que Temer fique, e sua recente aproximação com peemedebistas sugere que ele poderia se tornar um superministro num Governo sem personalidade. Aécio quer que Dilma vá e carregue Temer junto, porque é o maior beneficiário de um cenário no qual o País tem que convocar novas eleições em 90 dias.

Mas nem mesmo a costura mais elegante, com o material mais resistente, garante que Temer chegaria ao final do mandato, tendo em vista a recessão que ainda deve se aprofundar e a capacidade do seu partido de ficar com a mão entalada dentro do vidro de biscoito, ou melhor, dentro de algum fundo de pensão. Como se comportará o País quando, com três ou quatro meses de uma presidência Temer, algum peemedebista que não aprendeu nada com Sergio Moro for fotografado pegando um envelope de dinheiro e for parar na capa de VEJA? Talvez a leitura das ruas seja: ‘trocaram o sujo pelo mal lavado.’

O ideal para o País, o resultado à altura do ineditismo dos fatos e das demandas de uma população eletrizada, seriam novas eleições; mas isso vai depender das ruas.

Voltando a Eduardo Cunha, chamam a atenção duas coisas: o desespero do homem que parte para o tudo ou nada — um elemento que, na política e nas usinas nucleares, convém ser isolado — e a desconexão com a realidade em sua, digamos, não-defesa.

No exato momento em que a população exige transparência e honestidade num nível sem precedentes, o homem que, sabe-se lá por que, é frequentemente comparado a um Frank Underwood brasileiro, tenta mudar a narrativa e jogar areia nos olhos do público. O homem que, segundo um delator, disse que era “merecedor de 5 milhões de dólares” estaria, na verdade, sendo perseguido por um Governo incapaz de salvar sua própria pele. “Bom,” diria a Velhinha de Taubaté, “talvez todos os petistas acusados até agora sejam inocentes também.”

Cunha ameaça: “Vou explodir o Governo”, ignorando que é imposível explodir o que já foi pelos ares. Desde quando ‘derrubar’ um governo com 9% de popularidade é demonstração de força? Parafraseando meu colega Josias de Souza, o homem que se imaginava portador de um destino descobriu que era apenas uma fatalidade.

O Brasil está mudando para melhor. Está sendo uma caminhada entrópica e imprevisível, mas claramente na direção correta.

Noves fora o pedágio da volatilidade (e ele é alto), este processo é bullish para Bolsa, câmbio e juros.

Por Geraldo Samor

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Comentário de Romildo de Paula Leite em 21 julho 2015 às 10:38

   No exato momento em que a população exige transparência e honestidade num nível sem precedentes, o homem que, sabe-se lá por que, é frequentemente comparado a um Frank Underwood brasileiro, tenta mudar a narrativa e jogar areia nos olhos do público.

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