Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XII

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A entrada de Xi Jinping e a saída de Bo Xilai

Na semana passada, David Pilling escreveu no jornal Financial Times que a eleição na China no final do ano será a mais importante no mundo em 2012 e não a nos EUA, com a disputa entre o democrata Barack Obama e o oponente republicano. O assunto de Pilling não é o declínio americano ou a ascensão chinesa, mas o fato de que a troca de guarda no comando do Partido Comunista na China (Xi Jinping no lugar de Hu Jintao) tem implicações mais importantes do que a reposição (ou manutenção) do inquilino na Casa Branca.  Em uma eleição que obviamente não é democrática, a China terá uma transição que supostamente deve consagrar uma liderança que ficará uma década no poder,  em meio a alertas de que são necessárias mudanças, não apenas econômicas, mas também sociopolíticas.

O plano do partidão é fazer uma transição suave (os chineses adoram o termo “harmonia”), em que o caminho da economia de mercado continue pavimentado pelo bulldozer do partido único (que suavidade!), com algumas reformas, basicamente econômicas ao longo da jornada. Terrível para o partidão perder o controle do processo político, inconcebível que a obra não esteja a cargo de uma cinzenta liderança coletiva.

Nada mais de culto a personalidade maoísta, expurgos e reabilitações. A meta é uma ditadura eficiente e profissional. Mas, surpresa, a orquestração tem desafinações. Eleição chinesa nem se compara ao espetáculo de uma primária eleitoral americana, mas tem suas emoções, especialmente quando revela, como escreve Pilling, que o drama do partido está longe de ser monolítico.

Tudo está aparentemente acertado para a coroação de Xi Jinping como secretário-geral do partidão e, na sequência, como presidente, fruto do acordo entre facções. Mas aí apareceu Bo Xilai no meio do caminho. Como Xi Jinping, Bo Xilai é filho de um herói da revolução comunista de 1949. No jargão do partido, é um príncipe, mas se mostrou um príncipe espalhafatoso demais para estes tempos cinzentos.

Bo Xilai acaba de ser expurgado da chefia de Chongqing, a cidade que mais cresce no mundo. Ele vagamente pode ser rotulado como integrante de uma “nova e velha” esquerda do partidão. Carismático e populista (sempre autoritário, é claro), Bo Xilai inclusive recorreu ao kitsch maoísta de slogans e cantorias (ele está mais para vermelho do que cinzento), em sua campanha de reformas para minorar desigualdades sociais que se agravaram com a abertura econômica (antes a penúria era mais igualitária). Ele também combateu o crime organizado (máfias de prostituição, jogo e negociatas de alguma forma associadas a funcionários do partido), num combate agilizado por métodos extrajudiciais e execuções.

Com seu estilo brusco e popular, Bo Xilai fazia campanha para ganhar uma das nove cadeiras do comitê permanente, a instância máxima do partidão. Ser tão popular já é um pecado, ainda por cima falando diretamente às massas. Quer dizer que a linha oficial ganhou? A linha que tenta abafar as rivalidades e assegurar que a única fonte de legitimidade seja a burocracia em si do partidão? Não necessariamente. O expurgo de Bo Xilai lembra que nada sobre a transição de liderança no final do ano está tão garantido como se estimara.

O establishment ganhou esta rodada dos insurgentes, mas Bo Xilai mostrou que os fantasmas maoístas ainda circulam pelos opacos corredores do poder, ameaçando a própria unidade (de fachada) do partido forjada desde a repressão ao movimento pró-democracia em 1989. O avanço das experiências de Bo Xilai em Chongqing confirma a dificuldade do sistema para conter, tanto experiências liberais mais ao agrado ocidental, como estas aventuras populistas que lembram os delírios ultraesquerdistas dos anos 60 e 70. Bo Xilai se apresentava como uma alternativa, talvez um big brother mais sofisticado, sem a túnica maoísta e os banhos de sangue.

Bo Xilai foi encostado, mas a China comunista tem esta marca registrada de reabilitações. Se o desempenho econômico nos próximos anos tiver um declínio mais acelerado e a instabilidade social se acentuar, talvez haja espaço para líderes carimáticos e autoritários como Bo Xilai, arautos da ação direta das massas, emergirem do ostracismo. Muito complicado e remoto acompanhar esta saga chinesa, né?

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