Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XII

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Miriam Leitão escreve sobre os dois lados da desvalorização do Real

No último sábado, a jornalista de economia Miriam Leitão escreveu sobre os vários aspectos da desvalorização da moeda brasileira em sua coluna no jornal O Globo.

No artigo que o Boletim Informativo Interface reproduz abaixo, cujo título é "Lados da moeda", Miriam lembra que nem mesmo em outros momentos de desvalorização mais intensa a indústria exportadora do País reagiu de forma rápida.

A desvalorização do real ajuda a indústria a exportar, mas encarece a importação de matérias-primas, componentes e bens de capital da própria indústria. Torna mais caros ao consumidor produtos de consumo diário, como pão francês, café e carne. Empresas que pegaram empréstimo em dólar viram a dívida disparar em um mês. Hospitais terão mais dificuldade de comprar equipamentos de ponta.

A visão binária que às vezes aparece em declarações de autoridades e líderes empresariais - como a de que se o dólar subir é bom para a indústria e o emprego; se cair, é ruim - é simplória. Há outros problemas que precisam ser enfrentados, como impostos altos, infraestrutura deficiente, mão de obra pouco qualificada, pouco investimento das empresas em inovação.

Culpar o câmbio é mais fácil do que lidar com problemas crônicos. A moeda americana subiu 18% em setembro, caiu 5,1% este mês, mas o que a indústria viu mesmo aumentar foram custos e dívidas. Durante o período do real forte, as empresas se acostumaram a importar equipamentos e insumos baratos e tomaram empréstimos em dólares. Pelos cálculos da Economática - já divulgados nesta coluna - a dívida subiu pelo menos R$15 bilhões no terceiro trimestre entre companhias que possuem capital aberto e divulgam balanços.

José Augusto de Castro, da AEB (Associação de Comércio Exterior do Brasil) calcula que o dólar teria que ir R$2,20 para compensar o alto custo de se produzir no Brasil.

- Na faixa de R$2,00, a moeda beneficia cerca de 70% dos exportadores. A R$1,80, beneficia no máximo 30%. Os custos em reais têm subido internamente, esse é o grande problemas de setores como calçados e confecções, então a ajuda no câmbio precisa ser muito forte para compensar isso - disse Castro.

O problema é se o câmbio deve "compensar" tudo. Nem mesmo em outros momentos de desvalorização mais intensa a indústria exportadora reagiu de forma rápida. Em 2001, por exemplo, o dólar começou valendo R$1,94, passou a maior parte do ano acima de R$2,00, bateu em R$2,93 em setembro e ainda fechou em R$2,34. As exportações naquele ano cresceram 5,7% sobre o ano anterior, mas não puxadas pela indústria de manufaturados, que exportou 1,1% a mais, mas sim pelos produtos básicos, que subiram 22,1%.

Luis Afonso Lima, presidente da Sobeet, lembra também do ano de 1999, quando o real passou a flutuar livremente. As exportações precisaram de pelo menos um ano para reagir. Ele acha que agora o benefício será mais lento porque os países ricos estão em crise:

- O contexto hoje é pior do que 1999. Naquele ano, o real se desvalorizou em um mundo pujante. Hoje, é o contrário. Se naquela época demorou um ano, a tendência é que agora demore mais porque os grandes compradores como Estados Unidos e Europa estão em crise. Com o real fraco, o empresário terá insumos e investimentos mais caros e encontrará demanda exterior fraca.

O economista Alex Agostini, da Austin Ratings, acha que a queda do real favorece uma pequena parte da sociedade, os exportadores, em detrimento da ampla maioria, em especial os mais pobres que não conseguem se defender da alta dos preços:

- Para a economia como um todo, a desvalorização cambial tem um ônus muito maior que o bônus, certamente. Com a desvalorização, há aumento muito forte de alimentos que estão no café da manhã do brasileiro, que são trigo e café. Há também influência nos preços da Soja, óleo de Soja, milho, que fazem parte da ração para a carne animal. O preço da carne tende a subir. Nessa hora, a população de baixa renda é a mais afetada, e ela é a maior parcela da sociedade.

A crise internacional derrubou os preços das commodities, mas a desvalorização do real foi mais intensa. Isso vai dificultar a tarefa do Banco Central de deixar o IPCA abaixo do teto da meta este ano. Esta semana, o BC divulgou o índice IC-Br, que mede os preços das matérias-primas aqui dentro, e ele subiu 7,83% em setembro. A elevação foi puxada pelas commodities agropecuárias (carne de boi, algodão, óleo de Soja, trigo, açúcar, milho, café e carne de porco), que tiveram alta de 8,80%.

A área de saúde sofrerá porque muitos remédios, insumos e equipamentos para exames são importados. A tendência é que os hospitais façam menos investimentos e se modernizem menos, com um câmbio mais fraco. O superintendente da Federação Brasileira de Hospitais (FBH), Luiz Fernando Silva, diz que os hospitais não estão preparados para lidar com a mudança. Ele diz que setores como de neurologia, ortopedia e cardiologia usam muitos equipamentos modernos e importados:

- A alta do dólar com certeza afeta a rede de saúde brasileira. Se o real se desvaloriza, há estagnação dos investimentos. O custo não poderá ser repassado, então a atitude mais natural será deixar de investir. O período do real forte foi aproveitado para comprar equipamentos. Para a rede hospitalar o real desvalorizado é prejuízo. Muitos aparelhos usam tecnologia importada e não há para onde fugir porque não são fabricados no Brasil.

É sempre múltiplo o efeito do câmbio, seja para onde ele for. Nunca foi panaceia.

Fonte: http://www.interface.eng.br/dicas-integra.asp?id=729

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Comentário de Edson Baron em 11 outubro 2011 às 10:46

Apesar do título (Lados da moeda) pelo contexto da matéria, Miriam Leitão, singelamente apelidada de "urubóloga" pelo jornalista Paulo Henrique Amorim, só vê um lado da moeda: o de que a desvalorização do real é uma catástrofe para o Brasil.

Será???

O mais engraçado é que a linha de defesa dela sempre enfatiza: para "o setor x" altamente dependente de produtos importados o preço subirá. Para o "setor y" altamente dependente de produtos importados o preço subirá.

A questão é:

- Com o câmbio mantido em R$ 1,47 quem continuará a produzir no Brasil ao longo do tempo ???

- O Brasil tem capacidade de abrir mão de seu parque industrial e ainda assim continuar gerando empregos, ou pior que isso, evitar desemprego em massa ???

DUVIDO!!! E não quero pagar pra ver.

Outra questão importante trata sobre empréstimos em dólar. Ora, se temos câmbio flutuante, qualquer empresário que tenha um mínimo de cérebro deve saber que a moeda poderá oscilar para baixo ou para cima também. Se fez empréstimo em dólar ignorando isso, paciência. Que pague por sua insensatez ou "disposição exagerada ao risco". Não há sentido algum em usar esse contexto como argumento.

Não tenho a menor dúvida de que as análises de Miriam Leitão são carregadas de conotação política, já que notadamente ela exala não aceitar o grupo que atualmente está no poder e aí fica difícil, porque não há imparcialidade, apenas um desejo de "quanto pior, melhor".

Prefiro um compromisso com o Brasil e não com grupos políticos, qualquer que seja a vertente, embora infelizmente precisemos deles.

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