Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XII

Industria Textil e do Vestuário - Textile Industry - Ano XII

 

 

                                               

 

 

                                                RALPH DOS JARDINS

        Para o Amigo Francisco Chagas Feitosa Pessoa, também conhecido por Ralph.

                              “É que Narciso detesta o que não é espelho” – C. Veloso

 

Eu confesso gostar de ordem e continuidade. Também confesso que quando alguma coisa me tira fora desta bitola de organização eu me sinto um tanto quanto
inquieto.

Também confesso não ter sido assim no passado, mas à medida que me aproximo da velhice, gosto mais de ter as coisas arrumadas, previsíveis e dentro de minha área de
conforto.

Creio que me tornei adepto dessa corrente de continuidades organizadas, talvez de tanto me decepcionar com surpresas: a maioria delas me é ou se tornam
proposições trabalhosas e algumas até mesmo dores de cabeça. A minoria delas,
as que eu qualifico de “boas”, as tomo como um precioso bônus. Mas, de modo
geral, prefiro ficar com as coisas conhecidas, esperáveis e com um mínimo de
imponderável. Como o tal adágio que diz: “Sem noticias; boa noticia!”

Nessa medíocre área de conforto ando bem, obrigado - e prefiro continuar nela, a me aventurar ao desconhecido.  Quanto aos
meus amigos mais arrojados, com um sorriso matreiro os saúdo, respeitosamente,
levantando a minha cartola – e já sabendo que a maioria deles, de um modo ou de
outro, mas cedo ou mais tarde, estarão chorando no meu ombro amigo: E eu sempre
os consolo dizendo - “bem, a experiência pelo menos valeu”.

Sim, geralmente eles são mais jovens, arrojados e as quebradas de cabeça são parte do aprendizado da vida, igualzinho como eu o fiz no passado, eles também
necessitam vivenciar isso, agora no presente, para se calejarem para o futuro.
O bom aprendizado sempre é doído.

Mas, a minha fase mais arrojada, a do Marco Pólo, já se encolheu bastante. Sim, esta fase foi ampla, longa e certamente e em decorrência dos jatos, dos novos navios,
os ônibus e carros, freeways e autobahns, eu creio até já ter
ultrapassado, pelo menos em quilometragem, as viagens do Marco dezenas de
vezes.  

Agora estou chegando à etapa onde o grande excitamento será a “viagem mais longa”, onde farei à passagem bem distante da “terra a vista” – mais afastada da costa do
que todas as outras do passado – e essa viagem me assusta e me fascina.

Nesta minha etapa madura tenho gostos mais brandos, e não abro muito mãos do toque doméstico: Gosto de cidades conhecidas onde ainda posso reconhecer ruas e alamedas
percorridas há anos atrás - e ver nelas uma cara conhecida, sempre é um bônus.
Nas grandes metrópoles desconhecidas, em contínuas metamorfoses, prefiro
orbitar nas velhas praças, nos velhos restaurantes de conhecidos bairros, e já
passei até a conviver bem com velhos assombros, imagens conhecidas, anúncios
amarelados, bares perdidos e gente e fantasmas de boa índole.

Esse gosto adquirido por uma segurança e conforto além do físico, não significa que sou tacanho e refratário a mudanças. Ele simplesmente denota a minha preferência na escolha de mudanças aceitáveis.

Por exemplo, na parede lateral do meu escritório há um grande relógio de parede de quartzo.  Ele é implacável com o tempo. Sempre
na hora, de prontidão e no exato minuto. Ele parece ser um instrumento militar,
correto, frugal, competente e de poucas nuances. Só que há um problema: sempre
me esqueço de ver as horas nele, o que de tempo em tempo me causa algum
problema.

Mas na parede em frente a minha escrivaninha, há um velho relógio de corda. Em idos tempos a sua corda durava mais ou menos trinta dias, dependendo do arrocho que
dava na chave. Mas este belo instrumento de madeira agora parece andar com a corda
meio fraca e a sua duração de trabalho diminuiu. Por um tempo ele aguentou
firme trabalhando uns vinte e cinco dias, depois caiu para somente umas três
semanas e como eu tenho medo de arrochar bem a sua velha corda, agora, por via
das duvidas, lhe dou corda a cada quinze dias.

Também, como eu, o velho relógio de parede apresenta outros problemas: Por mais que ajuste o comprimento do seu pendulo, quando recém dou corda nele, parece que
ele adianta um ou dois minutos por dia. Mas, já no começo da segunda semana,
ele marca tempo quase exato - para fraquejar no final da corda, onde ele começa
a “arrastar o pé” e se atrasar.

Por conta desta preguiça quase perdi alguns negócios, mas tal não aconteceu. Sabendo das vicissitudes do velho relógio, eu confio e desconfio dele: Daí, eu
sempre comparo o seu tempo, com o meu correto relógio de pulso - que felizmente
não depende de sol, cordas ou pilhas, mas somente do movimento do meu braço. Aliás,
também voltei aos relógios automáticos: seus mecanismos cinéticos estão interligados
a movimentação do meu braço, indicando-me, além de horas, que eu estou vivo e
me mexendo.

Mas, confesso ser o velho relógio de parede o de mais amo: Acho que ele se parece mais comigo. Gosto de sua “quase” precisão e até de suas limitações. Porem, o
que mais me aproxima dele é que ele me indica, de modo quase palpável, como uma
ampulheta, como uma musica final do Cazuza, é que “tempus fugit”, que a vida
passa. Ele sempre me exorta, urge com os seus audíveis tiques e taques a estar
mais atento ao momento e a vida.

Além de “falar” em tiquetaquenês que o tempo voa, o velho relógio move o seu pendulo dourado em brilhantes arcos, como
se fosse um “solzinho” meio bêbado que me mesmeriza de tal maneira que por
vezes eu até tiro uma mini ferias de meus afazeres, flertando com o dourado
pendulo que fielmente balouça com um mínimo de energia acumulada nas espiras de
sua corda... Ah, eu gosto muito de ver como aquele velho instrumento horolόgico emula o bater do coração, o
passar da vida.

Também sou assim, meio sonhador com as pessoas que conheço, locais que visito e com hotéis onde me hospedo. Sou fiel aos meus amigos, aos locais onde sou bem
tratado, aos lugares limpos, bem iluminados e de gente atenciosa e retorno
sempre a eles. Não sou muito afetado com propaganda, descontos, modernismos,
piscinas, bajulações e salas de musculação.

Por exemplo, em São Paulo fico sempre no velho e dignificado Mercure Augusta, localizado a esquina da Alameda Santos e a Rua Padre João Manoel. Há uns vintes anos atrás
ele se chamava pomposamente de Parthenon
Saint-Germain
. Ah, que nome lindo, simbiose da Grécia Antiga e do Santo
Parisiense. Mas o grupo hoteleiro Frances Accor,
num espírito de marketing - a meu ver, barato - e de uniformidade a sua rede de
hotéis, resolveu descaracterizar o nome do velho Parthenon, mudando-o para esse
tal “Mercure Augusta”. Em realidade o nome deveria ser mudado para “Mercure
Padre João Manéu”, mas concordo que é melhor marketing capitalizar na rua
paralela, a Augusta.

Mas devo também dizer, por conta da honestidade, que esses franceses devem entender de hotelaria, pois me mantém como cliente. Malgrado o novo nom de guerre, o serviço do hotel permaneceu bom, e os antigos standards
de cordialidade e respeito foram mantidos.

Neste hotel ainda trabalham vários funcionários que conheço ha décadas: O Ronaldo (para mim ainda o guri “Nanau” que conheci como Bell Boy) ainda está na
recepção, agora com 42 anos, com umas ruguinhas aqui e ali e uns cabelinhos
brancos espalhados pela cabeça. Posso ficar seis meses sem aparecer, mas,
quando o Nanau me vê descendo do taxi, ele corre solicito para me ajudar com as
malas e com um amplo sorriso sempre pergunta: -- Seu Sam, como foi à viagem?

O mesmo tratamento eu recebe da Cleidinha, da “Reserva”. Ao chamar o hotel para fazer a reserva, estando ela no telefone, a Cleide reconhece a minha voz. Os
anos passaram também para ela, mas a Cleide quase não tem rugas: Deve ser os
cremes hidratantes que sempre minha esposa manda para ela. Cleide também faz
milagres: Da ultima vês que estive no... No Parthenon, foi durante o Festival
de Cinema de São Paulo em Outubro. Não havia vaga em lugar nenhum. Nem no
Parthenon. Perguntei se a Cleide estava lá e ela estava. Rumei para o hotel,
mesmo sabendo que não havia quartos disponíveis. Lá chegando a Cleide me
admoestou: -- Seu Sam, Seu Sam! Porque não me chamou com um pouco de
antecedência?

Não havia mais quartos disponíveis... A lotação era completa. Mas, havia um quarto com um vazamento de água, sem hospedes. A Cleide ativou o Antonio, o velho
chefe da manutenção, e as meninas da limpeza, e em duas horas eu estava alojado
num quarto limpo, sem vazamento de água - e com a parede cheirando tinta nova.
Como posso eu abandonar o velho Parthenon Saint-Germain e sua gente amiga? Nós
todos estamos envelhecendo em fraternidade, cumplicidade e carinho.

Também, ao lado da recepção há o restaurante do Francisco, que por razões de marketing se italianizou para o nome do estabelecimento para Da Franco’s. Concordo com ele: Acho melhor do que Da Chico’s. No Franco’s eles sabem como
eu gosto da carne, da salada mista com bastante azeite e um toque de vinagrete;
o espaguete e legumes sempre “al dente” e eles já não me oferecem sobremesas - e
o cafezinho vem sempre com adoçante. Este povo do Franco’s, já é família, e lá
me sinto com um gato velho perto de um fogão a lenha.

Em frente ao hotel tem um restaurante popular, O Bar Grill, de uns portugueses simpáticos e amigos com um batalhão de atenciosos garçons Paraíbas. Vez por outra eu como lá.

Também, quase a frente do hotel, há um ponto de taxi. No grupo dos taxistas todos são amigos. O Celinho é um intelectual mulato, que insiste em ser negro e detesta a
hipocrisia dos brancos. Ele prefere lidar com um racista declarado, a brancos
que ficam cheio de dedos com os negros e se justificando: “o meu melhor amigo
na escola era preto”. Celinho é um homem culto, bem informado e deu educação
universitária a todos os seus filhos - e sua esposa é Advogada. Já o Ivair é Maçom
, meio filosofo, largou o negocio de taxi, e abriu com sucesso uma pequena
indústria de chocolate em Guarulhos. O “Velho” é um idoso de ascendência
Italiana, cabelos mal tingido, simpático, mas meio ranzinza, que recusa reconhecer
a sua idade e parar de trabalhar. Já o Sergio se tornou economista, fala inglês
rudimentar, mas voltou “a praça” por ser mais bem remunerado dirigindo o seu
taxi. Já o Danielzinho andava com problemas com o trago, quase deixou “o
cachimbo cair”, mas com o suporte da turma, agora ele vai bem, obrigado; ele
“virou” evangélico, agora anda com sua bíblia descansando no painel do taxi - e
assim vai ele. A turma de taxistas do ponto do “Mercure Alguma Coisa” é uma
turma amiga, vez por outra discordando entre si em assuntos futebolísticos, mas
que genuinamente gosta de mim, e até me permitem a jogar porrinha entre eles,
quando as coisas andam devagar para todos nós.

Quando vou ficar por mais tempo no Parthenon, ando subo uns cinqüenta metros até a Alameda Santos e faço um rancho num pequeno e sofisticado supermercado, bem detrás do
Conjunto Nacional. Lá eu sempre compro minhas águas minerais, refrigerantes,
queijos, chocolates etc., e estoco a geladeira do frigobar com coisas que eu
gosto e no final da estadia, sempre sobra muita coisa para as arrumadeiras.
Isto já se tornou um ritual, bem como uma caixa de Bombons Garoto que sempre
deixo para a turma da recepção.

Isto tudo é parte de minha rotina, de minhas lembranças e este sentimento de quase estar em casa para mim é bom. A Rua Padre João Manoel é uma paralela próxima a
Augusta. Lembro-me nos anos sessenta passeando pela Augusta, onde comi o meu
primeiro Hamburgo ao sair de um cinema. Na Augusta também passei alguns medos
com o Roberto Andrade, hoje médico renomado em Atibaia. Ele – comigo de
co-piloto temerário - pilotava uma fusca verde voando ladeira abaixo, furando
sinais vermelhos, tirando rachas com os ”possantes” Karmann Ghias de então.
Entre os vários milagres acontecidos na Augusta, um deles foi o da nossa
sobrevivência.

Também no Conjunto Nacional há a Papelaria do Roberto, conhecido e amigo há quase duas décadas, quando eu tinha escritório nos Jardins. Também no Conjunto, há muitas
livrarias que são minhas companheiras de lazer aos sábados, onde sempre encontros
bons livros e ambiente aprazível a leitura. No Conjunto também há vários restaurantes
sendo o Café Viena, esquina de Alameda Santa e Augusta, o meu predileto. Na
sobreloja do Conjunto, por muitos anos funcionou o Consulado Americano em São
Paulo, que depois se realocou para a Rua Padre João Manoel, para baixo da Oscar
Freire, e agora se esconde numa chácara fortificada, lá no final do mundo, para
as bandas de Santo Amaro!

Todas estas pessoas e locais conhecidos me dão, como disse no inicio, um sentido de familiaridade, organização, conforto e continuidade. Sempre que eu retorno aos
estados Unidos, recapitulo nas primeiras horas do vôo toda a viagem e me
detenho com carinho neste meu micro-universo emprestado lá da paulicéia.

Bem, quase lhes relatei uma experiência bem verdadeira, mas omiti o meu relacionamento com um amigo meio singular, o Francisco Chagas Feitosa Pessoa,
carinhosamente chamado por todos os mencionados nesta como Ralph.

Conheço o Ralph, das vizinhanças do hotel, ha quase vinte anos. Ele, apesar de humilde, insiste a viver nos Jardins e todos nós entendemos a sua coragem e bom gosto.

Conheci o Ralph quando ele ainda era um guri de uns vintes anos: Era alto, atlético, moreno de olhos esverdeados e cabelos cacheados. Ele falava pouco com estranhos
e demorou muito para ele se abrir comigo.

Depois de uns anos, sempre o cumprimentando debaixo de uma marquise onde vivia, ele começou a dialogar um pouco comigo. No começo gaguejava muito e falava
rapidamente entre longas pausas.  E me
disse ser do Rio, de Belford Roxo, e que apanhou muito da policia para falar
algo que ele não sabia.

Não sei como foi bem o começo da vida dele em São Paulo, mas o Ralph bateu com os costados na Rua Oscar freire, foi acolhido e por lá ficou. Ele era, e é muito honesto.
Pagava as contas para os amigos do ponto de taxi e trazia o recibo e o troco
correto. A noite observava, vigiava as vizinhanças e os portugueses do Bar Grill,
que sempre o retribuíam com fartas refeições.

Os armários de Ralph estão improvisados em um arvoredo a frente de “sua” marquise e, de algum modo, num armário debaixo da caixa de força do hotel. Debaixo da
marquise o Ralph guarda suas roupas, cuidadosamente dobradas, junto com seus
cobertores, os seus papelões que são o seu colchão, umas garrafas de água,
comida enroladas em sacos plásticos e alguns pertences pessoais. Discretamente,
nos invernos frios de São Paulo, sempre há uma garrafa de cachaça barata entre
as suas coisas. Aparentemente, com o passar dos anos, o Ralph começou também a
usar a pinga também no verão, talvez para aquecê-lo da frieza dos transeuntes.

A turma do ponto do taxi sempre é e sempre foi solidaria ao Ralph. Informaram aos policiais das redondezas que ele “era do bem” e se não aceito, Ralph não é
perseguido pela lei, e na Padre João Manoel ele vive, como um fantasma, não
existente aos olhos da lei e da maioria dos transeuntes que por ele passam.

A turma do Ponto de Taxi, por duas vezes tentou internar o Ralph num hospital psiquiátrico, mas ele não sofre de nenhuma patologia da mente que justifique a
sua internação. Também fizeram com que ele chegasse a sua família em Belford
Roxo, mas imediatamente ele rumou de volta para os Jardins.  Aparentemente ele não é lá muito diferente de
você e eu. Simplesmente ele está satisfeito com o seu estilo de vida em São
Paulo e gosta de onde vive. Isso me disse ele: de maneira racional e em bom
português, bem conjugado e com um vasto vocabulário.

Claro, que também como nós, como o meu velho relógio, há algumas coisas no Ralph que não se moldam ao que nós convencionamos ser o comportamento ideal. Por exemplo,
ele e muito territorial. Eu mesmo já o vi exaltado, pela madrugada adentro,
gritando com fumadores de crack e
fazendo um verdadeiro escândalo para defender o seu território. Obediente a lei,
ele não entrou em luta física, mas a ele se juntaram motoristas de taxi,
segurança do hotel e até eu comecei a gritar em sua defesa do quarto andar, e
mais uma vez o território do Ralph foi mantido, livre de indesejáveis.

Ralph também é vaidoso e orgulhoso: Não pede nada a ninguém. Graciosamente aceita roupas velhas e discretamente as joga fora. Ele gosta de roupas bonitas, novas
e de tênis de grife. O tênis pode até estar um pouco usado, mas nada de porcaria:
tem que ter grife. Ele usa as suas roupas até que elas se sujem ao ponto de se
tornarem emprestáveis. Imprestáveis, mas de grife.

Treze anos atrás, quando fechei o meu escritório em São Paulo, retornando aos EUA, dei um radio despertador a pilhas para o Ralph, lhe deixei algum dinheiro e uma
recomendação firme para não gastar o dinheiro em pinga. Ao voltar ao hotel
meses depois, o Celinho me confessou meio sem jeito: -- Seu Sam, o Senhor
acabou de virar as costas e o Ralph foi comprar pinga. Depois vendeu o radio, e
comprou mais pinga.

Bem, lá no fundo eu sabia que o Ralph ia comprar pinga, e só lhe disse para não comprar, por desencargo de consciência...

Com o passar dos anos notei maiores idiossincrasias com o Ralph. Há, na Alameda Santos, uma subestação da CESP que eu não sei lá porque, algumas vezes estorna
água as ruas. Esta água desce a rua padre João Manoel, no começo bem suja,
varrendo os detritos da rua meio fio abaixo, até que ela se torne mais clara.
Esta água se tornou o regato do Ralph. Ao notar o seu regato sazonal rolando um
pouco mais limpo, o Ralph começa a lavar as suas roupas, lavar o seu rosto e
até beber da tal água. Não adianta falar com ele, o Ralph não para com este hábito
e até enche algumas garrafas de plástico com tal água de rua.

A resistência física e imunológica do Ralph e algo de admirável para todos que o conhece. Ele desafia todas as regras de saúde e aparentemente aguentava todos
os tipos de germes que São Paulo pudesse jogar em seu corpo.

Mas, à medida que o tempo foi se passando, comecei a observar o Ralph mais gordo, quase inchado, seus olhos sempre vermelhos e sem brilho, e com uma insistente
tosse, quase uma reação asmática de origem nervosa que sempre acontecesse
quando ele começa um dialogo comigo, e então pude observar que o amigo Ralph
não é impérvio as enfermidades.

Segundo as contas e o relato do Nanau, Ralph nasceu num Sete de Setembro há uns quarenta e cinco anos em Belford Roxo - e a sua blindagem mostra algumas rachaduras.

Desta vez, ao sair de São Paulo, pensei muito no Ralph. Senti que o amigo, como eu, como o meu relógio de parede é também efêmero e um dia se vai.

Ao sair de São Paulo no dia 23 de Outubro de 2010, estava muito triste com o Ralph. Não sei qual o sentido que ele tem da vida, nem exatamente o sentido que
eu tenho dela, mas a sua vida me tocou. Ao se aproximar a hora de deixar a
cidade em direção ao aeroporto, temi que não o veria mais. Pensei até em lhe
dar o meu tênis, mas o seu pé é maior do que o meu.

Comi vagarosamente na varanda do Do Franco’s vendo o Ralph subir e descer a rua e depois ir tirar uma soneca debaixo de “sua” arvore. O Francisco - do restaurante - falou comigo que ele
sempre tem uma “quentinha” de luxo para o Ralph e vez por outra o deixa usar a
mangueira atrás do restaurante para um banho rápido. Francisco disse que ele
também anda preocupado com a decadência rápida da saúde do Ralph.

Num impulso larguei o prato, fui até a sacada da varanda do restaurante e chamei o Ralph. Disse a ele: -- Ralph, vá se aprontar um pouco, porque vamos tirar umas
fotos. Ele gaguejou algo rapidamente e disse, “tá bem, tá bem”. Acertei a conta
e subi para baixar a mala e pegar a máquina fotográfica.

Ralph já tinha ido para um rápido banho de mangueira, lavou o rosto e usava uma camisa blusão de moletom cinza, de capuz, o seu melhor. Descobri que a bateria
da maquina estava descarregada e não encontrei de imediato o carregador. Desci
até à portaria do hotel, fui a rua, e expliquei o meu problema técnico ao Ralph
que calado ouviu tudo e continuava nervoso - a andar para cima e para baixo em
frente do hotel.

Pedi ao Nanau para lhe tranqüilizar, dizendo que em quinze minutos a maquina estaria pronta para as fotos, mas o Ralph continuava inquieto. Antes de sair, tirei
umas fotos com o Nanau e depois fui até o Ralph

Pela primeira vez notei o Ralph esboçando um sorriso. Para dizer a verdade quis até abraçar o amigo, mas não havia mais tempo para tomar um banho...

Nesta tarde descobri que eu sofria de memórias descriminadas. Há vinte anos ando cheio de memórias do velho Parthenon, dos meus amigos da redondeza, das lojas,
dos restaurantes, das livrarias, das pessoas queridas, mas o Ralph, parte desse
acervo de memória, era uma entrada sempre deletada
nesse arquivo de minha realidade; o Ralph era algo de penoso, uma memória que
mais parecia uma pedrinha no sapato de minhas recordações; uma realidade doída,
indesejável, que me faz questionar o universo e a mim mesmo.

Fiz eu tudo que pude por meu amigo Ralph? Fui eu bom para ele? Ou tentei me colocar numa zona de conforto, criando uma auto-imagem positiva, afável e de retidão?  Até que ponto vai a minha real preocupação pelo
Ralph?

Talvez fosse até melhor que eu caminhasse pelas ruas não o vendo. São tantos “Ralphs” na grande São Paulo, no Grande Brasil e no Grande mundo de Deus afora, que
talvez o mais prudente fosse registrar-los o mínimo possível – ou me tornar uma
Teresa de Calcutá.

Mas o fato é que não os outros, mas que O Ralph tocou a minha vida - e eu me sinto impotente por quase nada poder fazer por Ele

Então, ainda no avião, neste laptop, comecei a concatenar algo que eu pudesse fazer pelo Ralph, pelo meu amigo Francisco Chagas Feitosa Pessoa, O RALPH DOS
JARDINS. Este meu irmão, este cidadão Brasileiro que vagarosamente morre nos
jardins das solidões - e com ele um pouco da humanidade também se vai. 

Sei bem sobre a minha efemeridade, mas tento deixar algo de minha vida para os filhos, netos e talvez aos meus bisnetos. Na pior das hipóteses, deixo-lhe o
meu nome.

Quanto a você, Ralph dos Jardins – deixo-lhe esta crônica.

Até a próxima Ralph. Espero ainda lhe ver, e espero que esta semente lançada fertilize em algum lugar...

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